Revista "MUNDO e MISSÃO"

Igreja no Brasil

por Ernesto Arosio

história do Brasil dos primeiros tempos está, inegavelmente, muito ligada aos missionários, entre os quais, pe. José de Anchieta. Espanhol, nascido em Tenerife em 19 de março de 1534, entrou na Companhia de Jesus em 1551 e enviado para o Brasil em 1553. Tinha sérios problemas de saúde, sobretudo na coluna, que o fazia levemente corcunda e o impedia de cavalgar nas intermináveis peregrinações pelas terras brasileiras. Contudo, esses sofrimentos não o desanimaram em sua missão.

Anchieta, mais que outros, marcou os aspectos religiosos, literários e políticos do início do Brasil. Ajudou a fundar o colégio de Piratininga, embrião da cidade de São Paulo, e a casa de misericórdia em Niterói. Iniciou aldeamentos que se tornaram cidades, como a atual Anchieta, Guarapari e São Mateus, no Espírito Santo. Foi professor, catequizador, pacificador dos índios, estudou e aprendeu em poucos meses a língua tupi, organizando a gramática e um dicionário; foi mestre em várias artes e profissões ensinadas aos índios.

Teve um papel fundamental na pacificação dos tamoios, dos quais ficou prisioneiro voluntário por uma longa temporada, durante a qual escreveu o famoso poema a Nossa Senhora, redigido primeiramente nas areias de Itanhaém, em São Paulo. Incentivava os portugueses a tratarem os índios não como conquistados e escravos, mas a integrá-los, incentivando até os casamentos entre os dois povos. Sua área de trabalho se estendia de Pernambuco até São Paulo. Seus últimos anos transcorreram em Vila Velha, ES, onde faleceu em 1597, com 63 anos.

Se, como personagem do seu tempo pode ter tido algumas ações discutíveis numa mentalidade moderna, não se pode negar que José de Anchieta era de uma santidade heróica que se revelava através de suas cartas e de seus atos. Em primeiro lugar, o amor aos índios, num tempo em que nas universidades européias se discutia se índios e negros teriam uma alma. Ele os tratava como irmãos em Cristo, com todas as conseqüências que essa definição podia trazer concretamente; defendia-os dos vexames dos conquistadores, curava os doentes, criou escolas para órfãos, merecendo, pela sua ação pastoral e social, o título de "Apóstolos dos Índios" e exemplo celebrado de educador.

Sua espiritualidade revela uma alma pura e simples, totalmente devotada ao amor ao próximo, embasado no amor a Cristo. Escrevia, ainda seminarista, durante sua viagem para o Brasil: "Senhor, que meu coração seja grande de zelo missionário. Grande como estas vagas revoltas que balançam o nosso barco". Demonstrava claramente seu amor aos índios e aos irmãos menos afortunados, colocando-se a serviço deles. Hoje, diríamos que favoreceu a promoção humana. Toda a sua odisséia de missionário, de sofredor e pacificador, encontra-se em versos entremeados aos louvores à Virgem Maria, compostos quando prisioneiro voluntário entre os tamoios e correndo sérios perigos.

"Eis os versos que outrora, ó Mãe Santíssima,
te prometi em voto,
vendo-me cercado de feros inimigos.

Enquanto a minha presença
amansava os Tamoios conjurados
e eu os levava com jeito à suspirada paz,
tua graça me acolheu
em teu materno colo,
e teu poder me protegeu intactos, corpo e alma.

À inspiração do céu,
eu, muitas vezes desejei penar,
cruelmente expirar em duros ferros.

Mas sofreram merecida repulsa os meus desejos
só a heróis
compete tanta glória".

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