Revista "MUNDO e MISSÃO"
Igreja no Brasil
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por Costanzo Donegana
Mas é uma terra ferida. Palavras como: desmatamento, queimadas, destruição da biodiversidade, garimpos, prostituição, narcotráfico, urbanização selvagem, invasão e desrespeito pelas áreas indígenas e poluição da água nos falam com uma eloqüência que não precisa de demonstração.
Dentro desta realidade, a Igreja vive há 500 anos, durante os quais foi cúmplice, às vezes, do desrespeito dos direitos daquelas populações: "Pedimos perdão a Deus - declarou a Assembléia dos Regionais Norte 1 e 2 da CNBB (1997) - aos povos indígenas e a todos os pobres do campo e da cidade, por não termos conseguido superar atitudes de omissão ou conivência em relação às violências e injustiças que os povos da Amazônia têm sofrido. Não demos suficiente testemunho de respeito e amor às diversas culturas e religiões presentes na região". Mas a Igreja também doou a vida na missão na Amazônia. Incontáveis foram os sacrifícios dos frades, padres, religiosas, leigos e leigas que evangelizaram a região até os últimos rincões, nas condições mais difíceis. E numerosos foram os mártires que embeberam com seu sangue aquela terra e o misturaram com as águas dos rios. S.O.S. A missão na Amazônia produziu ricos frutos e a Igreja fincou raízes profundas na sua terra: milhares de comunidades a pontilham até os ângulos mais remotos. Mas ela continua sendo terra de missão pela situação particular em que se encontra. As proporções imensas de suas dioceses e prelazias, o número insuficiente dos sacerdotes, religiosos e religiosas e a prevalência de estrangeiros entre eles, denotam que ainda suas Igrejas não atingiram um desenvolvimento capaz de torná-las auto-suficientes. A partir dos anos 70, o povo da Amazônia lançou, em diversos momentos, apelos, através de agentes de pastorais, missionários e bispos, às outras Igrejas do País, para que prestassem socorro à suas necessidades. Houve respostas, embora, honestamente, tenha que se reconhecer sua insuficiência. Elas se configuraram sobretudo dentro do Programa Igrejas-Irmãs, que pôs em relação Igrejas do Norte e do Nordeste com outras do Leste, Sudeste e Sul. Era (e é) uma "ação de comunhão missionária, pela qual duas Igrejas ou grupo de Igrejas, a nível local, nacional ou além-fronteiras, relacionam-se mutuamente na participação e comunhão fraterna de recursos humanos, pastorais e financeiros, enriquecendo-se mediante a solidariedade e o intercâmbio de experiências pastorais" (Linha 2 da CNBB, Programa Igrejas-Irmãs, 1989).
O Programa deu alguns resultados positivos, como o despertar da consciência missionária em algumas dioceses e congregações, que produziu o envio de sacerdotes, religiosos/as e leigos/as para outras Igrejas necessitadas, e também a criação de laços de comunhão entre Igrejas. Mas, não conseguiu animar toda a Igreja no Brasil nem gerou uma verdadeira reciprocidade, porque o movimento foi geralmente no sentido de uma Igreja que se achava "rica", em direção de uma Igreja considerada "pobre", que recebia uma ajuda, mas que achava que nada ou muito pouco tinha a dar à outra. Não eram suficientemente valorizadas as experiências pastorais das Igrejas do Norte e do Nordeste, riquezas que poderiam ter sido colocadas em comum dentro de uma partilha fraterna. O Programa Igrejas-Irmãs definhou nos anos 80 e procurou-se reanimá-lo no decênio seguinte, com alguns resultados. Agora é retomado, de forma oficial, pela CNBB sobretudo em relação com a Amazônia, com a constituição da Comissão Episcopal da Amazônia, fruto da sensibilização do nosso episcopado durante a Assembléia Geral da CNBB em 2002, em Itaici (ver quadro na pág. 24). A criação desta comissão manifesta um passo à frente na consciência missionária da Igreja no Brasil; nunca, antes, a CNBB tinha assumido com tanta clareza e concretude o compromisso missionário. É de se esperar que das palavras se passe aos fatos, dando uma guinada na caminhada evangelizadora de nossa Igreja, geralmente fechada sobre si mesma. A Igreja do Brasil é considerada no mundo pelas suas experiências-piloto, em especial a das CEBs, mas devemos reconhecer que as próprias CEBs não tiveram quase nenhuma sensibilidade em relação à missão "ad gentes". Se o movimento de abertura indicado pela criação da Comissão Episcopal da Amazônia é autêntico, não deveria parar naquela região, mas continuar até tornar o compromisso além-fronteiras uma dimensão normal da vida de nossas Igrejas. A Amazônia é grande, mas o mundo é maior! As distâncias Há sempre quem argumente: "É bem verdade, as áreas são enormes, mas o índice de densidade demográfica na Amazônia é muito diminuto, comparando-o com o Sul ou Sudeste do Brasil, onde há cifras de centenas e até de mais de mil habitantes por km2!" De fato, há circunscrições em que este índice está abaixo de 1 habitante por km2, em outras situa-se entre 1 e 3, raras alcançam entre 6 e 9 habitantes por km2 [...] No entanto, não é possível fazer depender a nossa ação evangelizadora e as visitas pastorais do número de pessoas em determinada localidade, calculado pelo IBGE.
Comunidades de 50 famílias na cabeceira de um rio ou igarapé, ou no fundo de uma vicinal da Rodovia Transamazônica, não podem ser ignoradas, simplesmente em virtude do escasso número de fiéis em lugares afastados e de difícil acesso. Não são os cômputos estatísticos que motivam a nossa ação evangelizadora. E se, no meio da mata, vive uma única família sequer, também ela merece nossos cuidados pastorais. A experiência nos ensina que, em povoados distantes da sé episcopal ou da sede paroquial, o anseio pela presença do padre ou do bispo é bem mais forte do que nos centros urbanos. A solidão e o isolamento em que vive este povo e, às vezes, o total abandono por parte das autoridades municipais, estaduais e federais fazem esta gente humilde e pobre "exultar de alegria", quando o bispo ou o padre chega. Quem de nós da Amazônia não pode contar histórias de despedida de comunidades pequenas e queridas que nos tocam o coração, quando durante o último aperto de mão, no derradeiro abraço carinhoso, a mesma pergunta aflora aos lábios de uma mulher, de um homem, de uma criança: "Quando é que o Sr. vem de novo?" e nossa resposta é sempre meio desajeitada e sobretudo imprecisa: "Não sei! Mas quanto antes, se Deus quiser!" E lá se passam meses e meses para o padre voltar e anos para o bispo novamente visitar aquela comunidade. Na próxima visita pastoral do bispo, as crianças da visita anterior já são adolescentes ou até já se casaram e estão com um nenê no colo. Dom Erwin Kräutler A comissão episcopal para a Amazônia
O segundo objetivo é conseqüente do primeiro. Por onde passa a proposta da Igreja senão pela evangelização? A comissão deseja favorecer o despertar e o aprofundar da consciência missionária, atendendo ao apelo provindo da Igreja que se encontra na Amazônia. "Dai-nos de vossa pobreza", com projetos de solidariedade e programas afins, através da participação co-responsável e fraterna de todas as dioceses. A Evangelização da Amazônia, do ponto de vista sociotransformador, visa à promoção integral da pessoa humana, o que implica na defesa da vida em todas as suas formas:
As metas previstas
Formas de participação no projeto A Comissão Episcopal para a Amazônia precisa de parceiros e parceiras para tornar realidade as metas, com projetos bem concretos. Isso significa que precisa de pessoas disponíveis que se enquadrem nos projetos, passando por uma imersão na cultura amazônica e formação prévia que assegure uma missão inculturada. Outras pessoas, que não disponibilizem de tempo para se dedicarem à Missão na Amazônia, poderão participar igualmente, de modo indireto, isto é, através da colaboração financeira, participação necessária e imprescindível para realizar qualquer ação, e muito mais para dar sustentação ao projeto, assegurando a sua continuidade. Como participar do Projeto
Perspectivas evangelizadoras 1. Inculturação As Igrejas da Amazônia estão buscado seu rosto amazônico. Porém, a Amazônia é constituída por muitas Amazônias:
As Igrejas amazônicas são chamadas a inculturar-se, a inserir-se nesses múltiplos universos e a viver um sadio pluralismo. Isso implica ajudar os povos locais a exprimir e celebrar a sua fé em Cristo, na sua própria linguagem, símbolos, valores, suas expressões religiosas, sua visão de vida e de mundo. 2. Cidadania
Nos últimos anos, surgiram - também com a contribuição da Igreja - novos sujeitos sociais seja no mundo urbano, seja em outros: indígenas, trabalhadores rurais, seringueiros, ribeirinhos, pescadores, migrantes, sem terra, mulheres. As Igrejas da Amazônia desejam apoiar essas organizações populares em suas iniciativas, como: desenvolver alternativas de produção, participar de movimentos urbanos, reivindicar a reforma agrária integral, a regulamentação democrática do uso das águas, o estatuto dos povos indígenas e a democratização dos meios de comunicação social, interferindo nos grandes projetos e aceitando-os somente quando são participativos, trazem benefícios sociais e respeitam o meio ambiente. 3. Formação
Frente à riqueza e complexidade social, cultural, econômica e ecológica da Amazônia e à necessidade de atuar de modo lúcido e eficaz em sua missão evangelizadora, as Igrejas da Amazônia empenham-se em ampliar os espaços de participação dos leigos e leigas; formar ministérios adequados às necessidade das comunidades; favorecer a formação dos povos indígenas, visando à conservação da sua língua e cultura e o acesso à formação escolar e técnica; aumentar centros de formação teológica, para produzir uma teologia autenticamente amazônica. 4. Anúncio
central da Boa Nova
Sul
1 - Norte 1
Inicialmente, foi convidada a participar a CRB (Conferência dos Religiosos do Brasil) de São Paulo e nasceu a primeira comunidade missionária (1996), composta por quatro irmãs de quatro congregações diferentes, que assumiram a paróquia São Pedro em Manaquiri, arquidiocese de Manaus, com a matriz e 25 comunidades ribeirinhas. Agora já são cinco irmãs. Em seguida, houve o apelo do seminário de Porto Velho e foi enviado um padre de São João de Boa Vista para dar aulas de antropologia religiosa.
Ele ficou um mês. Houve também o movimento no outro sentido: um padre de Manaus veio para fazer o curso de comunicação e um diácono ficou três anos, freqüentando o curso de liturgia na faculdade Assunção de São Paulo. No início de 1997, foi mandada a primeira leiga do Projeto, atendendo a um pedido de dom Mário Clemente Neto, da prelazia de Tefé, AM. Ela foi para a cidadezinha de Uarini, com muitas comunidade ribeirinhas e um povo muito necessitado. Ficou um ano, sozinha. Em 1997, o Projeto deu um passo para frente, com o envio dos primeiros padres. A pedido da diocese de Ji-Paraná, RO, foi enviado um sacerdote da diocese de Piracicaba. Seis meses depois, chegou o pedido da diocese de Guajará Mirim para Corumbiara, RO. É uma paróquia grande, com 42 comunidades rurais, numa região com conflitos de terra e há dois anos sem padre. Foi enviado um padre de Osasco. Como se vê, o Projeto foi crescendo lentamente, sobretudo graças à divulgação feita de maneira simples, mas que se revela eficaz. Fala-se do Projeto em dioceses que convidam, nos encontros do COMIRE (Conselho Missionários Regional), dos COMIDIs (Conselhos Missionários Diocesanos), em entrevistas pela Rede Vida e através do folder que foi preparado. Desta maneira, foram atingidos vários lugares, embora ainda representem uma parte pequena do Regional. Apesar disso, muitas pessoas têm ligado para o Regional, realmente interessadas no Projeto, vendo-o como uma resposta a um anseio que carregavam dentro de si há muito tempo. Assim, em 1999, houve um grupo formado por um padre, um casal, duas religiosas e quatro leigos que, de acordo com os pedidos das dioceses do Norte 1, foram distribuídos pela região. Agora há três leigos em Uarini, mais um em Alvarães, na mesma prelazia. A preparação é feita através de encontros de uma manhã, 8-9 vezes por ano. Todos participam do curso de janeiro promovido pelo CCM (Centro Cultural Missionário) da CNBB para os missionários que vão atuar dentro do País. Todos são acompanhados com visitas anuais por parte de responsáveis do Projeto da CNBB de São Paulo. A PUC de Campinas "A Pontifícia Universidade Católica de Campinas - relata pe. Sérgio Lopes Gonçalves, diretor do Centro de Ciências Humanas" - participa do Projeto Missionário Norte I - Sul I, para responder à carência de docentes no Seminário João XXIII da Arquidiocese de Porto Velho (RO) que agrega seminaristas de todo Regional Norte I da CNBB. Assim sendo, ao final de 1998, foi solicitado à referida Universidade que enviasse professores de sua Faculdade de Teologia e Ciências Religiosas para lecionarem disciplinas das áreas de Bíblia, Teologia Sistemática, Teologia Moral e História da Igreja no curso de Teologia daquele seminário. As disciplinas são ministradas na forma de cursos intensivos de uma semana (disciplinas de 30 horas/aula) ou duas semanas (disciplinas de 60 horas/aula). As duas entidades assinaram um convênio com validade até março de 2005, podendo ser renovado por outro período a ser acordado entre as partes. O Projeto tem servido para ampliar horizontes dos alunos do seminário, bem como dos professores da PUC - Campinas. Tem-se um processo de formação acadêmica, de convívio fraterno entre os corpos docente e discente, de troca de experiências pastorais e de ampliação de horizontes missionários das supra citadas Faculdade e Universidade." |
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