Revista "MUNDO e MISSÃO"

Igreja no Brasil

Ponte de comunhão

por Costanzo Donegana

M.M.: Pode nos lembrar as etapas mais significativas de seu ministério?

– Entrei muito pequeno, com 11 anos, em Assis, num seminário da diocese de Londrina, dirigido pelos padres do PÍME, com alunos do Pime e da diocese de Londrina. Interessante que comecei minha formação para o sacerdócio no contexto da dimensão missionária e isso me marcou muito. Tornei-me padre em 1972, pela diocese de Apucarana e bispo em 1994.

Passei por diversas dioceses: quatro anos em Vitória como bispo auxiliar, quatro em Ponta Grossa, um ano e cinco meses em Maringá. Tive que fazer o exercício constante da mudança, mas sempre muito feliz, porquê vejo com espírito de fé esta missão para a qual o papa chama. Como padre, tive a graça de trabalhar em diferentes direções: em várias paróquias e, particularmente, na formação, no seminário filosófico e no teológico.


Imagem do Congresso Nacional, projetado por Oscar Niemeyer, e construído em 1958

M.M.: O que sentiu quando foi nomeado bispo?

– Quando veio, em 1994, minha nomeação para bispo auxiliar, se cruzavam dentro de mim dois sentimentos: primeiro, a consciência forte de um chamado sério, sobretudo o fato da apostolicidade que marca muito, porque é de um peso, de uma densidade tão grande que a gente se assusta, pelo medo de não ser capaz de estar à altura de um ministério desse tipo.

Por outro lado, dentro – talvez pela graça da própria nomeação – havia uma certeza (que cresce cada vez mais) de que Deus não vai abandonar você. Isso criava uma luta interior e tive que trabalhar mais a espiritualidade, a entrega pessoal.

M.M.: Come vive seu episcopado?

– Vivo meu ministério de bispo sobretudo como serviço para construir a comunhão, a unidade, expressado no meu lema: “Todos um”. Atualmente, a teologia está resgatando o mistério da Trindade, não simplesmente com um mistério de adoração, mas como modelo de vida. E o papa, na Novo millennio ineunte, diz que os tempos exigem uma espiritualidade de comunhão.

Então, essa marca da unidade que vem da Trindade me dá muita certeza de que o grande caminho é estabelecer pontes de diálogo: não duvidar de ninguém, nem daquele que é de outras Igrejas, nem de quem não tem fé, nem daquele que nós achamos que não age bem. Todos podem ser candidatos à construção da unidade. Fica evidente que Jesus fez uma opção clara pelos pobres, pelos excluídos, e é preciso caminhar nessa direção, estabelecendo pontes profundas de comunhão e dando testemunho disso.

M.M.: Como vê a Igreja no Brasil?

– A Igreja no Brasil, na sua expressão oficial da Conferência dos Bispos (CNBB), percorreu um caminho muito bonito, sobretudo depois do Concílio Vaticano II, com o espírito de colegialidade. Num país continental, que a Igreja possa ter uma voz única de todo um episcopado tão numeroso e tão diversificado é uma graça que nós nunca vamos agradecer a Deus suficientemente. Outro aspecto que acho muito bonito é a abertura da Igreja no Brasil para a sociedade, própria de uma Igreja que está atenta aos sinais dos tempos.

Dentro dessa dimensão, é muito importante a atitude da Igreja de somar seus esforços com aqueles projetos da sociedade civil que façam a vida crescer. O novo projeto “Queremos ver Jesus” responde, neste momento, a uma necessidade bem clara do anúncio do nome de Jesus Cristo, Filho de Deus, homem verdadeiro. Devemos crescer na transparência, no testemunho e esse é o caminho que o Espírito nos pede agora. A meu ver, porém, devemos desenvolver mais a visão trinitária da Igreja e da sociedade, porque ainda somos muito falhos nisso.

Temos facilidade de criar, indiscutivelmente, uma relação pessoal com as pessoas da Trindade, mas, depois, é preciso trabalhar esse mistério da comunhão dentro de uma espiritualidade nova, nos relacionamentos na Igreja e na sociedade. Isso está ainda em processo de construção.

M.M.: Quais são, a seu ver, os maiores desafios que a Igreja deve enfrentar na sociedade?

– Um dos grandes desafios é conduzirmos o processo da globalização para a direção correta, porque é uma realidade complexa: ela nos dá elementos positivos, mas também muito falsos, que precisam ser evitados. Temos toda a história da transformação da sociedade ligada à fé e, nesse sentido, a experiência da teologia da libertação exerceu uma influência importantíssima. Mas é também necessário que tenha clara sua fonte na Palavra de Deus e na experiência de fé.

Eu admiro os movimentos sociais com o MST, mas são movimentos autônomos, com seus métodos próprios; há necessidade de uma clareza maior na relação dessas forças com a Igreja. Por outro lado, não podemos deixar de lado o profetismo com relação à transformação social e à opção pelos pobres. Mas fazê-lo brotar da grande comunhão divina e da realidade que o homem, feito a imagem e semelhança de Deus, é chamado à comunhão, que deve ser realizada particularmente na construção de estruturas que facilitem a solidariedade.

M.M.: Com que ânimo o senhor vai entrar na arquidiocese de Brasília?

– Brasília é a capital, a sede do poder federal e a relação da Igreja com essa realidade é delicada. Eu vou seguir a linha da CNBB e da Nunciatura. Mas haverá também uma função ligada ao arcebispo de Brasília. Sempre procuro fazer as visitas pastorais bem pormenorizadas: gosto de estar presente, mais perto do povo, porque vejo nisso um enriquecimento para o meu ministério e também uma alegria para o povo, que vê o seu pastor mais perto.


Dom João Braz de Aviz, novo arcebispo de Brasília

Dessa maneira, em particular, pode haver o diálogo entre bispo e povo: as lideranças podem ter uma idéia de quem é o bispo e também podem se manifestar diretamente com ele. Sempre gostei de trabalhar não decidindo as coisas sozinho, mas através dos sacerdotes e dos conselhos, porque se o Espírito Santo mora em todo o povo de Deus e em cada um, escutando esse Espírito, podemos colher com maior precisão o caminho a ser feito.

Claro, o bispo depois toma a última decisão, mas já será uma coisa mais enriquecida. Em Brasília, há uma grande presença dos movimentos eclesiais, que eu sempre amei e que considero uma graça enorme para a Igreja. O nosso desafio é estabelecer linhas de comunhão: nos grandes projetos, aproximar essa riqueza espiritual para somá-la a serviço da Igreja, porque os paralelismos dificultam o testemunho de uma comunhão eclesial.

M.M.: E a missão?

– Como nos alertou a CNBB, não deveríamos perder a experiência positiva das Igrejas-Irmãs e muitos bispos já recomeçaram a ativá-la, mandando missionários. Inclusive nós de Maringá, temos um missionário em Guajará-Mirim (RO), com intercâmbio de seminaristas e de visitas. Surgiu agora a Comissão pela Amazônia, que até deveria ter começado antes, mas agora cresceu bastante, não só como ajuda material, mas também como presença de missionários brasileiros naquela região.

A dimensão missionária deve crescer no clero diocesano e nos fiéis, nos seus vários aspectos. O econômico, de ajuda, está indo bem e pode ser melhorado. O da oração, é vivido muito pelo povo. Mas há a necessidade de partir. A missão acontece verdadeiramente quando se parte. Precisamos aprender a solidez da partida dos missionários que já fizeram essa experiência. Quando alguém de uma Igreja parte, ninguém perde, todos ganham.

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