Revista "MUNDO e MISSÃO"

Igreja no Brasil

 

az mais barulho uma árvore que cai que uma floresta que cresce". Esse antigo ditado vale também para o I Congresso Missionário Nacional, realizado de 17 a 20 de julho, em Belo Horizonte, MG. Com efeito, foi um evento que não fez, de propósito, estrondo nenhum, mas que revelou avanços e crescimentos significativos na caminhada missionária da Igreja no Brasil.

A Bíblia diz que o profeta Elias não encontrou a Deus no impetuoso furacão, nem no terremoto, nem no fogo, mas somente numa brisa suave (cf. 1Rs 19,11-13). Da mesma forma, o I Congresso Missionário Nacional foi pensado, justamente, na contramão dos grandes eventos celebrativos de impacto midiático. Sua sobriedade, discernimento e preparação mostraram onde e como uma Igreja faz missão no mundo, proporcionando aos representantes dos diversos organismos e conselhos missionários, convocados em Belo Horizonte, uma intensa experiência de fé partilhada no calor da acolhida, na memória da caminhada, na mesma paixão pelo Reino.

As repercussões, dentro e fora do Congresso, foram simplesmente entusiastas. Em sua discrição e dignidade, representou um marco histórico não apenas porque foi o primeiro, mas porque contou com relevantes contribuições, com extraordinárias experiências missionárias, com envolventes trabalhos em mutirão e com significativos momentos de intercâmbio.

Missão como caminho além-fronteiras

Os 400 participantes, responsáveis pela animação missionária em suas comunidades e Igrejas locais, tinham como objetivo aprofundar a reflexão em vista a uma contribuição da Igreja no Brasil para o CAM 2 - Comla 7 (2 Congresso Missionário Americano), a realizar-se na Guatemala, de 25 a 30 de novembro próximo. Produziu-se muito em termos de reflexão. Contudo, apesar da precariedade, lentidão e omissão em transformar em ação tantos anseios, o I Congresso Missionário Nacional avançou significativamente na reflexão, oferecendo luzes, partilhando experiências, fortalecendo laços e articulações, animando para uma compreensão mais significativa e relevante da missão universal, para assumir - com novo ardor, profetismo e concretude - o único grande compromisso de viver, testemunhar e anunciar o Evangelho além de todas as fronteiras.

Missão como encontro com "Deus gratuidade"

A primeira contribuição significativa do I Congresso Missionário Nacional é a redescoberta e a re-leitura dos fundamentos da Missão, a partir da Santíssima Trindade. Deus Pai, que envia o Filho e o Espírito Santo, revela que a Missão tem tudo a ver com a essência divina: é um ato gratuito de amor que transborda sem limites e sem fronteiras até a vida plena do Reino.

Essa gratuidade divina não tem finalidade-interesse-objetivo nenhum - de outra forma não seria gratuidade! -, a não ser envolver seus destinatários na mesma lógica-relação-partilha do dom da vida, que é a lógica do Reino que não é deste mundo. A essência da missão está vinculada à proposta evangélica da vida no Espírito e à ruptura com o reino da lei e da necessidade.

Que tal repensarmos numa missão fundada nessa gratuidade e não na necessidade, na "ação de graça" e não no sacrifício de nós mesmos, na vivência do Evangelho e não na contabilidade dos que ainda não são católicos? Na verdade, muitas vezes, fundamentamos a nossa missão na necessidade de nossa intervenção para salvar o mundo, satisfazendo assim o nosso super-ego.

Nossa identidade missionária, muitas vezes, não se fundamenta no encontro vivo com Jesus Cristo, mas se espelha no brilho e no protagonismo dos super-heróis. Isso pode simplesmente representar uma negação da salvação em Jesus Cristo. É Ele que salva, é Ele que é "necessário", é Ele que nos amou por primeiro. A nossa é uma "ação de graça" de um amor que nos foi doado e que transborda na solidariedade e na universalidade até os confins do mundo. A nossa missão transforma-se, assim, num ato livre, gratuito, numa extensão da caridade que se enxerta, a partir do Batismo, na grande Missão de Deus.

Missão como partilha em comunidade

A partir desta retomada do fundamento trinitário da Missão, o Congresso debruçou-se sobre o tema dos protagonistas, sublinhando, em primeira instância, a importância de reconhecer os pobres e os outros como os grandes enviados (missionários) da Missão de Deus. Esse reconhecimento toma as devidas distâncias dos modelos tradicionais de missão, tão enraizados numa visão que reduz o destinatário a um objeto de compaixão, ou, pior ainda, a um objeto de repulsa.

Somente o reconhecimento dos outros e dos pobres como sujeitos, constitui e qualifica a comunidade cristã como sujeito e protagonista da Missão. Desta maneira, a Missão torna-se anúncio do Reino de Deus, através do testemunho de uma prática comunitária de vida de fé e de projeto missionário. Vários Mutirões de Reflexão do I Congresso Missionário Nacional manifestaram, diversas vezes, o anseio de resgatar as CEBs, de valorizar a Pastoral de Conjunto, de repensar na paróquia como "comunidade de comunidades" pobres e plurais.

Hoje, mais do que nunca, a comunidade é chamada a tornar-se sujeito privilegiado da missão universal, revelação do amor gratuito de Deus, anúncio de um mundo novo. A própria espiritualidade e santidade missionária é chamada a se desenvolver não apenas no âmbito estritamente individual, mas, sobretudo, no âmbito relacional e comunitário. Somos chamados a ser comunidades santas e missionárias. Que bonito seria se, um dia, pudéssemos canonizar uma CEB! Neste sentido, o Congresso parece apontar para as Comunidades Eclesiais de Base não apenas como "novo jeito de ser Igreja", mas também como possível "novo jeito de ser missão".

Missão como envio num projeto efetivo

A terceira palavra "mágica" que sintetiza as conclusões do I Congresso Missionário Nacional é a palavra projeto. A missão universal como gesto livre e gratuito que surge do "amor de Cristo que nos impulsiona" (2Cor 5,14) precisa tornar-se projeto histórico. Podemos "negar" Jesus Cristo, sem dúvida, com o nosso excessivo protagonismo, mas também com a falta de um projeto histórico de Missão: de um lado negaríamos a transcendência, do outro a encarnação.

Ter um projeto histórico significa discernir e definir um espaço e um tempo para a nossa efetiva ação missionária, um destinatário específico e uma tarefa delimitada, uma estratégia responsável e um nosso papel na história da salvação. Desta maneira, a gratuidade trinitária torna-se sacramento, sinal e instrumento vivo e eficaz "da íntima união com Deus e da unidade de todo o gênero humano" (LG 1), através do nosso compromisso contextual além de todas as fronteiras.

Visite as outras páginas

[P.I.M.E.] [MUNDO e MISSÃO] [MISSÃO JOVEM] [P.I.M.E. - Missio] [Noticias] [Seminários] [Animação] [Biblioteca] [Links]

Voltar