Revista "MUNDO e MISSÃO"

Igreja no Brasil

BISPO BRASILEIRO
PARA A ÁFRICA

Costanzo Donegana

Pe.Pedro Zilli, missionário brasileiro do Pime, chamado a presidir a nova diocese de Bafatá, Guiné Bissau, é o primeiro bispo missionário do Brasil

Um país minúsculo, uma população que cabe 10 vezes no município de São Paulo: duas dioceses. Trata-se da Guiné Bissau, uma nação da África Ocidental, ex-colônia portuguesa, independente desde 1974.

Até aquela data, a situação da Igreja refletia a dependência colonial: o Padroado dava ao estado português o direito-dever da evangelização, que ele exercia com um severo controle sobre os missionários, até 1947, todos da metrópole e, portanto, ligados ao governo. Nesse ano, chegaram os primeiros missionários italianos do Pime, que logo iniciaram um estilo diferente de presença, aproximando-se do povo, estudando a cultura e introduzindo as línguas locais (oficialmente proibidas) na liturgia, catequese e escola, suscitando reações das autoridades.

Nos anos 60, começou a luta pela independência, encabeçada pelo Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIG) e os missionários italianos (aos quais se tinham juntado os franciscanos do mesmo país) tiveram que enfrentar uma difícil situação entre os portugueses que os controlavam de perto e os guerrilheiros, cuja causa reconheciam justa.

Com a independência, a Igreja pôde trabalhar livremente com a simpatia inicial do novo governo, com o qual, porém, não faltaram algumas posteriores tensões, devidas ao caráter ideológico e à face opressora do partido oficial.

Em 1976, a Igreja da Guiné Bissau passou a ter sua diocese: o primeiro bispo foi o franciscano italiano dom Setímio Ferrazzetta, homem muito dedicado e corajoso, que se tornou a única autoridade moral durante a guerra de 1998.

Dom Pedro Zilli

No dia 30 de março deste ano, chegou a notícia da criação de uma nova diocese, com a divisão do território da Guiné em duas partes: assim, ao lado da primeira diocese de Bissau, foi constituída a nova, de Bafatá.

Nós do P.I.M.E. sentimos uma grande alegria pela escolha do papa: pe. Pedro Zilli, que pertence a nosso Instituto e que, com sua nomeação a bispo, estabelece um recorde na história da Igreja do Brasil, porque é o primeiro bispo missionário do País. Nunca houve antes um bispo brasileiro para uma diocese fora daqui.

Pe. Pedro é filho de José Zilli e Terezinha de Jesus Zilli, o primeiro de cinco irmãos. Nasceu em Santa Cruz do Rio Pardo, SP, no dia 7 de outubro de 1954. Com a família transferiu-se para Ibiporã, no Paraná, no ano de 1971, e cinco anos depois entrou no seminário do Pime de Assis, SP. Ele mesmo conta como nasceu sua vocação:"Estando em contato com os padres do Pime, que cuidavam da paróquia de Ibiporã, comecei a pensar sobre a missão. Durante uma das conferências que um dos padres fazia a nós jovens na igreja paroquial, ele falou sobre a necessidade do anúncio do Evangelho aos povos que ainda não conhecem Jesus Cristo. Escutando aquelas palavras, nasceu em mim o desejo de consagrar minha vida à missão além-fronteiras".

Fez depois o curso filosófico no Instituto Paulo VI em Londrina, PR e teologia no Instituto teológico de Santa Catarina (ITESC), em Florianópolis. Foi ordenado sacerdote no dia 5 de janeiro de 1985 e, no mesmo ano, em julho, foi como missionário para a Guiné Bissau. Ficou neste país mais de doze anos, trabalhando como missionário no meio da tribo felupe, tendo que aprender duas línguas: o crioulo, que é um idioma com base no português com influências das línguas africanas, e o felupe, o idioma da tribo com a qual trabalhou. Ele foi também superior regional por quatro anos, isto é, responsável dos missionários do Pime na Guiné Bissau.

Os superiores o chamaram de volta para o Brasil, para assumir a função de formador no seminário de Brusque, SC. Iniciou este trabalho em 1999, depois de ter feito alguns cursos de preparação na Itália e Estados Unidos. Em Brusque, recebeu a carta da nomeação a bispo de Bafatá, diocese situada no Leste do país.

Os problemas na Guiné Bissau e conseqüentemente em Bafatá não são poucos, pois o país, que sempre vivia com grandes dificuldades econômicas, viu sua situação piorar de maneira dramática durante e após a guerra de 1998, onde as poucas conquistas foram jogadas por terra. Dom José Camnate, atual bispo de Bissau e originário do país, escreveu na sua carta pastoral de dezembro de 1999: "O preço da guerra foi muito elevado em perdas de vidas humanas, de feridos, destruições, de desgaste físico e psíquico. Todos sofreram e esse sofrimento não pode ter sido em vão. Todos, especialmente os políticos, deverão aprender que a verdadeira batalha deve ser a do desenvolvimento, da justiça e da liberdade".
O novo bispo terá que guiar sua Igreja a ser testemunha do Evangelho da paz e da fraternidade nesse contexto desafiador.

GUINÉ BISSAU

  • Superfície: 36.125 km2
  • População: 1 milhão e 40 mil habitantes
  • Etnias: mais de 20.
  • As mais importantes: balantas, fulas, manjacos, felupes, mandingas, papeis
  • Línguas: crioulo, português, idiomas locais
  • Religiões: animistas (60%), muçulmanos (40%), cristãos (10%)
  • Diocese de Bissau: 650.000 habitantes; 105.000 cristãos
  • Diocese de Bafatá: 490.000 habitantes; 31.000 cristãos

GRANDE ALEGRIA

A notícia da nomeação do pe. Pedro Zilli a bispo de Bafatá suscitou grande alegria em todos aqueles que o conhecem e sabem o valor de sua pessoa, em particular seus coirmãos do Pime, no Brasil e na Guiné Bissau, e a comunidade paroquial de Ibiporã.

Mas a ressonância mais profunda e íntima realizou-se na sua família. A mãe, dona Terezinha de Jesus, declarou que ficou "surpresa, meio balançada" e com a impressão de que ela não merecia tanto. Ela sente que deverá rezar mais por pelo filho de agora em diante.

Também um dos irmãos, Donizete, manifestou sua surpresa, unida à grande alegria, apesar de conhecer as capacidades e a fé muito forte do pe.Pedro. "Eu sinto que tudo isso é uma graça muito especial para todos nós", comentou e testemunhou que o dom do episcopado para seu irmão é uma recompensa para a fé e o amor que se viveu e se vive na família.

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