Revista "MUNDO e MISSÃO"

Igreja no Brasil

CEBS e diálogo inter-religioso

Faustino Teixeira

As dimensões cultural, ecumênica e inter-religiosa ganham cada vez mais espaço nas CEBs

O Intereclesial de Ilhéus

As comunidades eclesiais de base do Brasil viveram um momento importante de sua caminhada com a realização do X Encontro Intereclesial de CEBs, realizado entre os dias 11 e 15 de julho de 2000. O tema do Encontro foi CEBs: Povo de Deus. 2000 anos de caminhada e contou com a participação de 3.063 pessoas, das quais 1.269 mulheres e 1.128 homens. O número de bispos católicos presentes foi também expressivo: 70, sem contar outros 4 bispos evangélicos. Representando outras sete Igrejas cristãs, participaram 72 mulheres e homens. Vieram ainda diversos convidados do Brasil e de outros países.
Um dos traços peculiares dos Encontros Intereclesiais é a sua abertura ecumênica. Nos últimos anos, tem-se verificado uma maior ampliação deste ecumenismo, com a acolhida, cada vez mais crescente, dos irmãos indígenas e das comunidades afro-brasileiras. No Intereclesial de Ilhéus, a presença e participação dos indígenas talvez tenha sido um de seus traços mais singulares. Participaram do Encontro 65 indígenas de 30 nações. Das comunidades afro-brasileiras, ou o Povo de Santo, estiveram presentes 3 pais de santo e 5 mães de santo.
A metodologia adotada neste Encontro foi diferente dos outros. Desta vez, todos os plenários refletiram todos os temas. Para facilitar os trabalhos, foram criados 6 arraiais. Cada um reunia cerca de 500 pessoas e subdividia-se em 6 mi-ni-plenários. Para facultar a expressão dos delegados, os mini-plenários eram precedidos de trabalhos de grupo.
Os temas desenvolvidos na reflexão, oração e partilha foram a memória da caminhada pessoal nas CEBs e da caminhada das CEBs, seus sonhos e desafios e o seu compromisso na Igreja e na sociedade. As celebrações foram experiências profundas de oração, criando um clima de verdadeira espiritualidade.
No último dia, foram aprovadas a carta final, a carta dos bispos católicos e evangélicos e foram assumidos os compromissos por parte dos regionais e grupos específicos, bem como as várias moções. Nesse dia, ficou definida a aprovação do local do próximo Intereclesial, em 2005, na diocese de Itabira e Coronel Fabriciano (MG). Foi igualmente aprovado o tema do próximo Encontro: CEBs, espiritualidade libertadora e compromisso com os excluídos.

Igrejas e religiões

Os Encontros Intereclesiais de CEBs foram marcados, desde o início, pela sensibilidade ecumênica e sempre contaram com a presença de assessores evangélicos. No II Intereclesial de Vitória (1976), vieram Jether Ramalho e a representação dos irmãozinhos de Taizé. A lógica das comunidades foi sempre pontuada por essa abertura e acolhida, e a presença dos evangélicos contribuiu para revitalizar a experiência espiritual e profética das comunidades e a sua percepção da singularidade de uma experiência de "diversidade reconciliada". Esta presença inicial, em nível de assessoria, foi-se ampliando com o tempo para uma participação maior, mas já expressava uma experiência concreta de comunhão de católicos e evangélicos nas bases, em favor de uma sociedade diferente.
As CEBs no Brasil contribuíram concretamente para mostrar a viabilidade de um ecumenismo que brota das bases, pontilhado por experiências fraternas e comuns de uma comunhão na solidariedade com os empobrecidos e excluídos. Diante de problemas bem concretos, as comunidades propiciaram a conjugação de esforços advindos de militantes de diversas confissões cristãs. Nos depoimentos dos animadores de comunidades, verifica-se a quebra dos entraves confessionais, diante de um desafio comum em favor da luta pela justiça.
Nos Encontros Intereclesiais de CEBs, ocorridos nesta última década, podemos verificar a atenção crescente com respeito ao tema do ecumenismo e do diálogo com o diferente. A ampliação do eixo de atenção para o diálogo inter-religioso ocorreu, sobretudo, a partir do Intereclesial de Santa Maria (1992). Neste Encontro, emergiu com força a temática das culturas oprimidas e com ela a questão do desafio das culturas indígenas e afro-brasileiras.
Este clima de "desencontro" foi logo desfeito na abertura do Intereclesial seguinte, em São Luís do Maranhão (1997). Neste Intereclesial, a temática inter-religiosa vigorou, com firmeza, expressando uma serenidade maior na recepção e vivência desta temática. Já na celebração inicial, percebia-se o momento novo de acolhida inter-religiosa, com a presença lado a lado do arcebispo Dom Paulo Ponte, do pastor protestante, da mãe de santo e dos pajés. Na bela expressão da carta final daquele evento: "todos orando juntos, fraternalmente, como o Pai sempre o quis". Talvez, pela primeira vez em sua trajetória, de forma mais evidenciada, as CEBs romperam o bloqueio teórico-afetivo com os pentecostais. Inúmeras manifestações ocorridas no plenário do bloco, indicavam uma nova sensibilidade e uma vontade de encontrar caminhos de luta comum: falou-se em fomentar o diálogo, através de gestos pequenos e concretos; assim como a importância de aprofundar o diálogo, através das visitas, dos convites para eventos e momentos celebrativos comuns; da ênfase no trabalho comum em favor da vida, no cultivo da humildade, solidariedade e hospitalidade.

Teimosia dialogal

A temática ecumênica e inter-religiosa voltou a ecoar forte no X Intereclesial de Ilhéus. No campo do ecumenismo, a significativa presença da delegação evangélica expressava uma caminhada partilhada em comum, há muitos anos. As diversas menções feitas nos grupos e plenários ao Centro de Estudos Bíblicos (CEBI) reiteravam este trabalho ecumênico comum em torno da Palavra de Deus. Mas, igualmente, outras tantas iniciativas de comunhão foram assinaladas no Encontro. Na carta escrita pelos evangélicos e apresentada no último dia, esta caminhada comum foi mencionada como uma riqueza. Foram anos de construção de uma maior intimidade entre as Igrejas cristãs, de aprendizado deste novo jeito de ser Igreja, que é também da Igreja una. Os evangélicos sublinham que nesta caminhada comum puderam perceber a tríplice dimensão do ecumenismo: enquanto exercício de acolhida da diferença, enquanto construção de novas relações entre as pessoas e, finalmente, o trabalho comum de assumir ações em favor da vida. A experiência ecumênica é mais fácil com as Igrejas do protestantismo histórico. Com os pentecostais, as dificuldades são maiores. O Intereclesial de Ilhéus aconteceu num momento de nova configuração do campo religioso brasileiro, marcada pela afirmação mais beligerante de grupos pentecostais e neo-pentecostais, mais resistentes a quaisquer propostas dialogais. Mas o interessante é que, apesar dos empecilhos, a teimosia dialogal das CEBs permaneceu viva tanto no horizonte dos testemunhos como no compromisso assumido pelos regionais.

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