Revista "MUNDO e MISSÃO"

Igreja no Brasil

Costanzo Donegana

Entre a história já
construída e um futuro
cheio de desafios, a
CNBB comemora 50 anos


Dom Luciano Mendes de Almeida cercado por jornalistas

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) é a mais numerosa do mundo: mais de 400 bispos, incluindo os jubilados. Mas não é um corpo que sofre de elefantíase.

Uma das particularidades evidente nos 50 anos de sua história é a agilidade, a capacidade de acompanhar os tempos e as mudanças em crescente aceleração.

Essa foi uma das constatações da análise dos bispos reunidos na sua 40.ª Assembléia Geral em Itaici, em abril, na celebração de seu aniversário de fundação.

 

Críticas

Essa vitalidade suscitou críticas. No passado, sobretudo nos anos setenta e oitenta (os anos do auge da teologia da libertação), a CNBB, para muitos, teria acentuado exageradamente a dimensão social, ultrapassando seus limites de instituição religiosa, politizando-se. Agora, ao contrário, as críticas vêm, de preferência, no sentido contrário: a CNBB teria esquecido sua coragem, perdendo a força da sua voz, que no passado ressoava profeticamente em todos os cantos do País.


Entrada da missa pelos povos indígenas

Evidentemente, podem ter ocorrido acentuações maiores em um ou outro sentido; porém, mais em alguns bispos e assessores isolados do que no conjunto da própria conferência. E são atitudes que, geralmente, têm uma explicação. Cada diocese está inserida numa determinada situação religiosa e social e, em conseqüência, podem-se criar sensibilidades diferentes nos bispos, algum mais aberto à problemática social e outro mais propenso a acentuar a dimensão espiritual, mas encontrando ambos a fundamentação de sua escolha no Evangelho.

Há, portanto, um pluralismo entre os próprios bispos, que pode, às vezes, criar momentos de dificuldade no diálogo, sem todavia chegar a rupturas. Ao contrário, a experiência dos 50 anos da CNBB ensina que nela se compõem as diferenças na unidade pelo espírito de comunhão que a anima. A prova mais clara são os grandes documentos votados sempre pela grande maioria, senão por unanimidade, depois de um longo percurso de debate aberto, com críticas e aportes enriquecedores vindos de todas as tendências. “Eu acho que essa tensão entre o grupo chamado mais conservador e o outro mais progressista é um grande benefício dentro da CNBB – comenta dom João Braz de Aviz, bispo de Ponta Grossa, PR – Nós devemos continuar a ter sempre essa visão a partir da evangelização, da centralidade da pessoa de Jesus Cristo que garante a unidade. Embora, a meu ver, falte uma reflexão e experiência a partir da Trindade, como mistério de relação, que deve criar entre nós um estilo de vida muito mais de comunhão”.

Profetismo

A CNBB nasceu em 1952, pela ação sobretudo de dom Helder Câmara, na época assistente geral da Ação Católica no Brasil, levando à maturação muitas sementes lançadas na terra da história precedente. Foram os leigos que advertiram mais fortemente a exigência da criação da conferência episcopal e a pediram. Esse início marcou a caminhada da CNBB na sua abertura e valorização dos leigos, que teve sua expressão mais significativa com as comunidades eclesiais de base, mas não se limitou a elas. Um grande número de homens e mulheres, agentes de pastoral, leigos engajados no campo social e político tiveram na Conferência o apoio e o incentivo para seu serviço à Igreja e ao mundo.

Nos anos duros da ditadura militar, a CNBB foi a única voz que pôde se levantar em defesa dos direitos humanos conculcados. Dom Ivo Lorscheiter, arcebispo de Santa Maria, RS, secretário
e presidente da Conferência naquela época, conta: “Nós nos perguntávamos: como vamos nos conduzir? Vejo como Deus foi grande e bom, porque nos disse: ‘Vocês têm a experiência do Concílio Vaticano II; apliquem isso à nova situação do Brasil’. Conseguimos unir o Concílio com a realidade do Brasil: houve uma grande reforma interna na nossa Igreja e também assumimos atitudes proféticas e corajosas, diante da situação do País. Vimos que muitos governantes não gostavam que a CNBB se movimentasse, mas nós aplicamos o que nos di-zia um líder metodista ligado a nós: ‘Diante das situações sociais, econômicas e políticas do povo, o Evangelho não pede licença ao governo e nem pede per-dão se não gostou’. Conseguimos unir o episcopado, embora nem todos os bispos tivessem a mesma atitude, mas sempre houve uma unidade maior. Assim, não só expressamos as esperanças do povo
e nos sensibilizamos a seus dramas (quanta gente vinha bater às portas da CNBB!), mas conseguimos também apressar a redemocratização do País”.

À pergunta a respeito da impressão que alguns têm de uma CNBB, agora menos profética, dom Ivo responde: “A CNBB praticamente é a mesma que luta pela solução dos problemas internos, diretamente religiosos e pastorais – que é o objetivo principal –; mas continua também com a mesma atitude perante os problemas sociais, econômicos e políticos do nosso povo. Agora, é claro, há uma diferença externa, porque há muitas vozes, entidades, instituições, que falam dos direitos humanos, que gritam por melhores condições do povo. A CNBB não é a única voz, mas ela está e fala. Nesta Assembléia, tivemos a grande proclamação em favor de um mutirão nacional para a superação da miséria e da fome no Brasil. Sendo que é mutirão, queremos convidar todos os membros da Igreja católica e das Igrejas cristãs e também todos os outros que aceitarem a se unir conosco neste grande trabalho em conjunto”.


Plenário da Assembléia da CNBB

Novos desafios

Atualmente, os maiores desafios para a Igreja vêm das fortes mudanças que vão ocorrendo na cultura e na sociedade. O aspecto que, talvez, tenha mais incidência é o subjetivismo e o individualismo que penetraram profundamente também no meio católico. O movimento comunitário consistente gerado pelo Vaticano II está, sob muitos aspectos, solapado por uma série de fatores sociais e culturais. Há uma forte preocupação com a auto-realização do indivíduo, as pessoas estão à procura de sua própria construção, de uma forma mais livre. “Isso – no parecer de pe. Alberto Antoniazzi, assessor da CNBB – implica que a pastoral, que antes em geral se preocupava em apresentar objetivamente a doutrina certa, a disciplina certa, a liturgia certa, deve ter um diálogo com as aspirações das pessoas e suas experiências. Isso supõe um clero educado não simplesmente a repetir fielmente a doutrina e as normas morais e litúrgicas, mas capaz de um trabalho mais profundo de caráter pedagógico, indutivo, a partir do diálogo e da compreensão com as pessoas.

No último decênio – continua pe. Antoniazzi - assistimos a uma reação às novidades da modernidade com uma volta e uma reafirmação de um passado longínquo, através de certas formas de religiosidade e de devoção. É uma atitude bastante ambígua e perigosa . Primeiro, porque dá a ilusão de que seja uma resposta, mas não é. Segundo, porque tende a se configurar mais como uma fuga, em lugar de estabelecer um confronto com as novas realidades. O povo é induzido a fugir dos problemas reais, refugiando-se em certas devoções. Com isso, também estamos ajudando a modernidade a realizar aquilo que está fazendo, através da televisão e da propaganda do consumo: alienar as pessoas para que não contestem as estruturas econômicas e políticas, afastando sua atenção daquilo que é realmente importante para se refugiarem em pequenas satisfações pessoais”.

Talvez, o futuro que espera a CNBB seja, sob certos aspectos, incerto. Mas os 50 anos de sua história, no anúncio de Cristo, na solidariedade com o povo, no diálogo com as religiões e culturas, garantem que sua caminhada pode continuar firme e serena, no meio das dificuldades e dos novos desafios.

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