Revista "MUNDO e MISSÃO"

Igreja no Brasil

Índia missionária

Dom Epaminondas Araújo

(Bispo emérito de Palmeira dos Índios - AL)

Na nossa história, há personagens que, no seu tempo, tiveram um papel saliente e, depois, caíram no esquecimento. Como aconteceu com uma índia goiana, que viveu no final do século XVIII para começo do século XIX.
Quando fui bispo de Anápolis, de 1966 a 1978, visitei algumas vezes a cidade de Goiás. Foi lá que ouvi falar em Damiana de Cunha. Estive na aldeia de São José, onde ela morou, e hoje é a cidade de Mossâmedes. Ainda se guardava, como uma relíquia, a cadeira em que ela se sentava, a sua "cátedra" donde, já cansada, ensinava ainda aos seus irmãos índios.
Na biblioteca dos padres dominicanos de Goiás, havia alguns livros que me deram as primeiras informações que desejava. Depois, com a tradução e a publicação pela Universidade de São Paulo, em 1975, da Viagem à Província de Goiás, de Auguste Saint-Hilaire, outros dados históricos e culturais completaram as primeiras informações.
Auguste Saint-Hilaire foi um naturalista francês que andou pelo interior do Brasil, de 1816 a 1822. Percorreu várias Províncias do Império, dando graças a Deus quando conseguia avançar quatro ou cinco léguas por dia. Depois que esteve em Vila Boa, nome antigo de Goiás, capital da Província de Goiás, foi à Aldeia de São José, onde moravam os índios caiapós. Lá, visitou Damiana de Cunha, já viúva. Colheu vários dados sobre a língua, costumes e religiosidade dos índios.
Damiana era uma jovem indígena trazida para a cidade com mais alguns membros da sua tribo, que foi adotada pelo capitão-geral, Luís da Cunha Menezes. Depois de instruída e catequizada, foi batizada, recebendo o nome de Damiana de Cunha. O francês observou que ela falava correntemente o português e fez o perfil da índia com estas palavras: "Era amável, tinha uma fisionomia alegre, franca, espiritual". O encontro com Damiana confirmou tudo o que ele tinha ouvido sobre ela. Dotada de excelentes dotes, Damiana se transformou numa líder da tribo dos caiapós. Segundo Saint-Hilaire, a grande preocupação de Damiana era ir buscar na selva os caiapós que tinham fugido da aldeia e trazer outros para uma vida mais humana, como já levavam os que moravam na aldeia de São José.
Depois que chegavam à aldeia, ela mesma ministrava as noções de cristianismo, para que fossem batizados os que ainda não eram cristãos. Não era uma missão fácil, nem poucos os obstáculos que teria pela frente a missionária indígena. Mas os seus planos estavam traçados: sua vontade firme acionava o ideal de dar melhores condições de vida a membros do seu povo. Seu espírito cristão queria para outros o que ela já tinha. Nas selvas, os de sua raça teriam mais liberdade de locomoção; na aldeia, teriam um pouco mais de conforto, de que já gozavam outros indígenas.
Damiana contava com o respeito dos índios e explicou ao naturalista francês que os seus projetos teriam um bom resultado, consciente de sua liderança e sonhando com um futuro melhor para seus irmãos.

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