Revista "MUNDO E MISSÃO"

Igreja no Mundo - América

Das Américas à AMÉRICA

Costanzo Donegana

A primeira viagem ao exterior de João Paulo II foi à terra mexicana, em janeiro de 1979, para abrir a terceira conferência do episcopado latino-americano, em Puebla. Vinte anos depois, ele voltou, para uma viagem que, além do México, incluiu os Estados Unidos, para entregar à Igreja de todo o continente o documento "Ecclesia in Ame-rica", que recolhe os contributos e as sugestões pastorais do Sínodo especial dos bispos da América, celebrado no final de 1997, no Vaticano. O rosto do mundo e da Igreja mudou nessas duas décadas. Ao mesmo tempo, muitos dos problemas enfrentados nas conferências de Medellín e Puebla continuam, às vezes, com feições diferentes e com maior ou menor gravidade.
João Paulo II, com a amplitude de visão que lhe vem da sua função e de seu carisma pessoal, olha o continente americano como uma unidade, superando uma visão parcial que separa o Norte, o Sul e o Centro e que tem, sem dúvida, seu valor porque o global não se pode realizar à custa do particular. Seu mérito está na intuição de que a unidade autêntica (que respeita as diversidades) é o caminho para o novo milênio. Suas palavras na abertura da conferência de Santo Domingo (1992) demonstram isso com a maior clareza: "A Igreja, já no limiar do terceiro milênio da era cristã e numa época em que caíram muitas barreiras e fronteiras ideológicas, sente como um dever iniludível unir espiritualmente ainda mais todos os povos que formam este grande continente e, ao mesmo tempo, a partir da missão religiosa que lhe é própria, incentivar o espírito solidário entre todos eles".
Essa afirmação foi pronunciada pelo papa para motivar a proposta de um encontro de bispos de todo o continente americano, que se realizou em 1997, como já mencionado. O documento "Ecclesia in America" coloca-se nessa mesma dimensão, refletindo a experiência que os participantes do sínodo fizeram como num laboratório onde suas diferentes experiências eclesiais e as culturas dos povos que representavam entraram numa comunhão maior e mais rica. Em conseqüência, eles propõem "intensificar as reuniões interamericanas (...) como expressão de efetiva solidariedade e como lugar de encontro e de estudo dos comuns desafios para a evangelização da América". E sugerem ainda a criação de "comissões específicas para aprofundar os temas comuns", como as mútuas comunicações pastorais, a cooperação missionária, a educação, as migrações, o ecumenismo e as seitas, os meios de comunicação social (n. 37).
A linguagem de João Paulo II, em sua viagem, foi, conforme seu estilo, ao mesmo tempo de denúncia e de proposta. Denúncia da cultura da morte e proposta do Evangelho da vida (cf box). Na presença de Bill Clinton, usou toda sua força moral para denunciar as violências, particularmente a "do conflito armado que não resolve mas incrementa as divisões e tensões". E isso acontecia nos dias em que os caças americanos atacavam o Iraque.
O ponto mais importante da sua viagem foi a entrega do documento "Ecclesia in America", que tem seu cerne na centralidade de Cristo, que ilumina a vida da Igreja na América e a impulsiona à conversão, comunhão, solidariedade e evangelização. É uma leitura geral da situação do continente, fruto dos trabalhos do sínodo especial, necessariamente sumária, mas que oferece orientações que podem ser aprofundadas e concretizadas nas situações particulares e no conjunto do continente. Como a idéia da "globalização da solidariedade," que já entrou na linguagem da Igreja do Brasil, ou a proposta (no contexto do problema da dívida externa) de que "peritos em economia e em questões monetárias, de prestígio internacional, procedessem a uma análise crítica da ordem econômica mundial, nos seus aspectos positivos e negativos, para, deste modo, corrigir a ordem atual, e propusessem um sistema e mecanismos capazes de garantir o desenvolvimento integral e solidário das pessoas e dos povos" (n.59).
Apesar dos sinais de morte, o papa continua a chamar a América de Continente da Esperança e propõe uma fórmula original e audaz para que realize esta sua vocação: "É urgente despertar uma nova primavera de santidade no continente, de maneira que a ação e a contemplação caminhem lado a lado".
É por isso, também, que - com os participantes do sínodo - confia nesta Igreja e a lança na missão ad gentes até a dimensão além fronteiras, para levar Cristo aos milhões de homens e mulheres que o desconhecem: "Diante de tal pobreza, seria um erro deixar de promover a atividade evangelizadora fora do continente, com o pretexto de que ainda há muito para fazer na América" (n.74). Uma América unida não é o último horizonte: ela é chamada a abrir-se aos extremos limites da terra.

João Paulo II à América

"A Igreja deve proclamar o Evangelho da vida e denunciar com força profética a cultura da morte. O Continente da Esperança seja também o Continente da Vida! Este é o nosso brado: uma vida com dignidade para todos! Para todos os que foram concebidos no seio da própria mãe, para os meninos de rua, para as populações indígenas e afro-americanas, para os imigrantes e refugiados, para os jovens privados de oportunidades, para os idosos e para todos aqueles que sofrem qualquer gênero de pobreza ou de marginalização. (...)
Chegou a hora de banir de uma vez para sempre do continente qualquer ataque contra a vida. Basta com a violência, o terrorismo e o tráfico de drogas! Basta com a tortura ou outras formas de abuso! Deve-se pôr fim ao desnecessário recurso à pena de morte! Basta com a exploração dos débeis, a discriminação racial e os bolsões de pobreza! Nunca mais! (...). Devemos despertar a consciência dos homens e das mulheres com o Evangelho, a fim de evidenciarmos a sua sublime vocação de filhos de Deus."
(Homilia na Basílica de Nossa Senhora de Guadalupe - Cidade do México)

"A América constitui uma unidade humana e geográfica que vai do Pólo Norte ao Pólo Sul. Não obstante o seu passado afunde as próprias raízes em culturas ancestrais - como a maia, a olmeca, a asteca ou inca - quando entrou em contato com o velho continente e também com o cristianismo há mais de cinco séculos, transformou-se numa unidade de destino, singular no mundo. Por isso mesmo, a América constitui um espaço particularmente apropriado para promover valores comuns capazes de assegurar uma conversão eficaz das mentes, em especial das pessoas que têm responsabilidades em níveis nacional e internacional."
(Ao Corpo Diplomático - Cidade do México)

"No final deste século (...) as mudanças radicais na política mundial aumentam a responsabilidade da América (os Estados Unidos, n.d.r.) de ser, para o mundo, um exemplo de sociedade deveras livre, democrática, justa e humana (...). Da história da salvação aprendemos que o poder é responsabilidade: é serviço e não privilégio. O seu exercício é moralmente justificável quando é usado para o bem de todos, quando é sensível às necessidades dos pobres e dos indefesos (...). A América proclamou inicialmente a sua independência tendo como base claras verdades morais. A América permanecerá um farol de liberdade para o mundo, na medida em que tiver fé nessas verdades morais, que estão no centro da sua experiência histórica. Portanto, América, se querem a paz, trabalha pela justiça. Se quereres a justiça, defende a vida. Se quereres a vida, abraça a verdade - a verdade revelada por Deus".
(Homilia durante as Vésperas - Saint Louis - EUA)

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