Revista "MUNDO E MISSÃO"

Igreja no Mundo - América

 

 

Stefano Femminis entrevista
pe. José Adolfo Gonzáles, jesuíta, reitor do Colégio Internacional del Gesu de Roma, amigo e colega de dom Isaías Duarte Cancino, assassinado por desconhecidos, no dia 16 de março deste ano, na saída de uma
celebração de casamentos coletivos

O sacrifício de um bispo
que incomodava

Quais as suas lembranças de dom Duarte?
Pe. José: Dom Duarte foi um bispo coerente, claro em sua fala, sem temores reverenciais, desde quando era auxiliar da diocese de Cali. Como bispo de Apartado, foi ainda mais explícito e corajoso porque a situação era mais difícil. Naquele território, combate-se uma "guerra entre ricos" por causa da indústria das bananas, mas a população é extremamente pobre. Além disso, é uma região estratégica porque é vizinha ao Canal do Panamá. Em 1995, foi nomeado bispo de Cali, uma cidade maravilhosa, mas complexa, com uma pobreza crescente e com o narcotráfico que já penetrou em todas as realidades da região.

Os narcotraficantes foram freqüentemente objetos das denúncias de dom Duarte que não poupava ninguém...
Pe. José: Isso é verdade. Em 1999, ele excomungou os guerrilheiros, depois que eles seqüestraram dezenas de pessoas durante uma missa. Na véspera das eleições de março, denunciou a infiltração dos narcotraficantes na campanha eleitoral. Guerrilheiros, narcotraficantes, paramilitares, políticos corruptos, ninguém escapava das suas críticas.

É difícil, portanto, entender o que está por trás desse assassinato?
Pe. José: Para uma leitura mais simples, esse assassinato deveria ser interpretado como a reação de um narcotraficante incomodado pelas suas palavras. Mas devemos desconfiar das leituras simplistas. Devemos ter presente que é uma velha e triste prática da Colômbia: às vésperas das eleições, acontece sempre um magnicídio, isto é, o assassinado de alguém particularmente em destaque na sociedade. Depois disso, inicia o clássico jogo pelo qual todos se declaram amigos da vítima. Fica difícil esclarecer o caso também pelo fato de que nunca se encontrarão os executores materiais do delito. Os matadores, na Colômbia, são adolescentes de 14 anos ou pouco mais, gente paupérrima, que matam por dinheiro, sabendo que, com muita probabilidade, antes ou depois, eles mesmos serão mortos para que não falem.

A morte do bispo foi uma advertência para a Igreja?
Pe. José: A Igreja é a única instituição ainda confiável. Quem hoje quer entender o que acontece na Colômbia deve se referir às irmãs que trabalham nas missões, aos vigários, aos bispos que são obrigados a viajar com escolta armada, sem esquecer a voz do papa que propôs a paz, justiça e a reconciliação como os únicos caminhos.

A impressão dos observadores estrangeiros é que a Colômbia nunca mais se libertará desse caos de corrupção, violência e droga. Por que o povo não se revolta, apesar de delitos tão cruéis?
Pe. José: Eu também não sou otimista, mas cultivos ainda uma esperança. A Colômbia é um país belíssimo com mil recursos: bom clima, café, ouro, esmeralda e, sobretudo, rico de gente boa e teimosa. Temos porém, uma escassa formação política de base; nas eleições a abstenção chega a 50%, a corrupção envenena todos os setores da sociedade e a impunidade chega a 95%. Temos dois partidos: o liberal e o conservador que já perderam a sua identidade e não dá para saber em que eles se diferenciam. Não por caso, o presidente eleito, Álvaro Uribe, nascido politicamente liberal, é hoje a bandeira de uma linguagem ultraconservadora que nega qualquer negociação com a guerrilha. Também temos que destacar importantes fatores externos que determinam a nossa política.

Em que sentido?
Pe. José: Ninguém desconhece que os Estados Unidos têm uma forte influência sobre a América Latina. A Colômbia é talvez o país com a posição mais estratégica de todos: está perto do canal do Panamá do qual os Estados Unidos se afastaram formalmente, mas que, evidentemente, sobre o qual não querem perder o controle; está perto do inimigo histórico, Cuba, e também do petróleo da Venezuela de Chavez, homem no qual os norte-americanos não confiam e, no final, existe toda a questão do narcotráfico.

Mas os Estados Unidos não financiaram o Plan Colômbia para erradicar o tráfico de drogas?
Pe. José: Vou responder de maneira indireta. Quem faz o mal? Quem produz ou quem consome? A resposta dos Estados Unidos é: "Depende: se o assunto é droga, a culpa é de quem produz. Tratando-se de armas, é quem consome". Portanto, nessa lógica, a Colômbia é sempre culpada, porque produz e porque consome.

Os Estados Unidos, após 11 de setembro, destinaram bilhões de dólares para vencer o terrorismo e trazer a paz ao mundo. Mas como querem conseguir esse objetivo? Produzindo armas e fazendo guerras. Pergunto se isso tem sentido do ponto de vista ético. Ficando na Colômbia, a droga produz essencialmente duas coisas: morte e dinheiro. Então, o fato é que nós, colombianos, contribuímos com as mortes, enquanto o dinheiro acaba nos bancos estrangeiros.

Entrevista concedida a revista POPOLI

Colômbia: direitos humanos na estaca zero

por Paula Erba

A situação dos direito humanos na Colômbia é uma das piores da América Latina.

Execuções sem julgamentos, seqüestros, violência contra mulheres e crianças chegaram nos últimos anos a uma difusão epidêmica. O país tem uma taxa de homicídios entre as mais altas da América: 100 pessoas foram mortas diariamente nos últimos anos, 96% dos delitos permanecem impunes (conformes dados do próprio governo).

Entre estes homicídios, muitos têm conotação políticas: nos últimos dez anos, foram 30 mil assassinatos políticos. Não é por acaso que a Colômbia detém o triste recorde de assassinato de sindicalistas, jornalistas e educadores. Tudo isso justifica a definição que afirma que Colômbia é "a mais perigosa democracia do mundo". Isso não é por causa do povo, geralmente vítima desta violência, mas porque o crime é incentivado ou, pelo menos, tolerado pelas altas esferas do poder.

Conforme denúncia das ONGs que protegem os direitos humanos, os maiores responsáveis por esses desplazamientos forçados dos campesinos são os paramilitares da Autodefesa Unida da Colômbia - AUC. Os assassinatos e os seqüestros são divididos entre a guerrilha (Força Armada Revolucionária e Exército de Liberação Nacional) e os paramilitares. Conforme dados do governo, em 2001, foram assassinados 1 060 civis pela guerrilha e 1 028 pelos paramilitares. Uma trágica igualdade.

Nessa situação incandescente, em 2000, inseriu-se o Plan Colombia, plano de luta contra a droga, proposto e financiado pelos Estados Unidos, pela União Européia e pela própria Colômbia. O plano foi acusado de aumentar a militarização da Colômbia, mais do que combater o narcotráfico.

O FUTURO DO PAÍS

Qual o futuro da Colômbia?
"O problema - retoma Gregório Dyonis - não é somente a ruptura do diálogo em busca da paz, mas o fato de que, durante as tentativas de um acordo, foi definido que o conflito colombiano não é uma guerra, mas um problema interno e não internacional.

As conseqüências podem ser graves: num conflito interno não existem "inimigos beligerantes", que podem ser convidados a tratar e depor as armas, mas grupos armados, bandidos, terroristas que devem ser exterminados. Isto seria mais um começo para um desfecho paramilitar: a guerrilha é comparada a um bando armado e o exército continua a sua convivência com os paramilitares.

O caminho para a reconciliação começou mal. Se não se reconhecem "beligerantes", muito menos se reconhece à população civil o direito aos ressarcimentos das perdas e povo continuará a pagar o peso maior. De fato, 10% dos civis mortos nos últimos três anos foram vítimas de confrontos armados".

A questão crucial, porém, não é a guerrilha, mas a impunidade dos crimes. Sempre conforme Gregório Dyonis, o "verdadeiro problema é a impunidade, a corrupção tremenda de uma classe política que permite que a Colômbia tenha uma dívida externa de 40 bilhões de dólares, uma economia que se financia com o narcotráfico, além de ser a maior produtora de coca e de heroína (100 toneladas/ano).

É mais que evidente que essas toneladas de heroína pertencem à produção controlada pelos paramilitares. Todos sabem disso, até os Estados Unidos, mas procura-se polarizar a atenção mais sobre a guerra civil.

O plan Colombia, além de não resolver o problema do narcotráfico, faz parte dessa propaganda de "imagem" para desviar a atenção dos elementos fundamentais da falência da sociedade colombiana".

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