Revista "MUNDO E MISSÃO"
Igreja no Mundo - América
A tarefa da Igreja? Não ser conivente, mas chamar cada um à própria responsabilidade, indicando a estrada da paz e da reconciliação. Qual a situação mexicana atual? – México passa por um processo de transição, sobretudo política. Ainda sofremos os efeitos da recessão econômica nos EUA e isto é evidente particularmente no crescente fluxo migratório, porque muros não detêm pessoas acossadas pela fome e pela necessidade. O irrefreável fluxo migratório preocupa, ainda que traga conseqüências positivas, não apenas do ponto de vista econômico para as famílias, mas também para a evangelização. Atualmente, 30% dos católicos dos Estados Unidos têm origem hispânica. Como a Igreja enfrenta o problema migratório? – A emigração do México aos Estados Unidos é um fenômeno de várias décadas. Meus conterrâneos – venho de um lugarejo próximo de Toluca – já trabalham há quarenta anos nos EUA. O fato de serem emigrantes foi-lhes positivo, se bem que implicasse em desarraigamento cultural. Nos Estados Unidos, muitos filhos de mexicanos negam suas origens, e nem se consideram mexicanos. Participar de duas culturas ocasiona, com freqüência, graves problemas psicológicos. Entretanto, o fluxo migratório prossegue, mas é problema sério, estrutural, pois o México é rural. Os camponeses não têm as mesmas oportunidades, nem a preparação necessária para progredir, e isto os impede de emigrar em melhores condições de vida. A Igreja procura acompanhá-los pastoralmente. Algumas dioceses enviam sacerdotes aos EUA e, no México, foi aberto um seminário para formar padres que possam acompanhar os que partem em busca de trabalho. E os imigrantes ilegais da vizinha Guatemala? – Sobretudo nas dioceses do sul do país, somos desafiados a nos ocupar com imigrantes que vêm do centro e do sul do continente. Na defesa dos seus direitos, é preciso lutar obstinadamente ou contra policiais corruptos que os espoliam de tudo, ou contra bandos de delinqüentes que os assaltam. Insistimos com as autoridades mexicanas para que dêem garantias de melhores condições de trabalho aos imigrantes centro-americanos que chegam a Chiapas. Enfrentamos um fenômeno muito semelhante ao que ocorre nos Estados Unidos, onde aos hispânicos se reservam trabalhos pesados, recusados pelos norte-americanos. Em Chiapas acontece a mesma coisa: os guatemaltecos substituem os mexicanos nos serviços do campo, sobretudo nas plantações de cana-de-açúcar, banana, café. Já mostramos ao governo que, se quisermos nossos emigrantes bem tratados nos EUA, devemos, por primeiro, acolher melhor os centro-americanos. Alguma coisa foi feita para garantir os direitos dos imigrantes: um documento dá direito à assistência social a trabalhadores temporários. Quando eu era bispo de Tapachula, perto da fronteira onde transita a maior parte de centro-americanos, consegui que nossas autoridades respeitassem os direitos dos migrantes. Abrimos casas de acolhida, com refeição, roupas, chuveiro e, se necessário, assistência médica ou jurídica. Acompanhamos, por longo tempo, os refugiados guatemaltecos até seu retorno à pátria.
Entre 1985 e 1995, nas dioceses de Chiapas, os refugiados guatemaltecos eram oficialmente 45 mil; na verdade, havia pelo menos o dobro. Com a mudança da política, graças a um programa governamental garantido pela ONU, a maioria deles retornou, de fato, à Guatemala. Os que quiseram permanecer no país, obtiveram a nacionalização. Assim, não há mais refugiados guatemaltecos em Chiapas. Em Chiapas, como estão as reivindicações dos zapatistas? – Felizmente, o Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN) depôs as armas e decidiu ser uma força de transformação social e política, sem transformar-se em partido, mas permanecendo um movimento que apóia as mudanças, não apenas em Chiapas ou no México, mas em âmbito mundial. É uma luta contra o neoliberalismo, este sistema econômico mundial tão injusto. E é uma luta que nós, como Igreja, apoiamos, pois a mudança é indispensável. É absurdo e injusto que, enquanto o café custa cada dia mais caro em qualquer bar, os lavradores recebem cada vez menos. Os zapatistas decidiram não mais recorrer às armas, mas tê-las como instrumento de pressão para obter mudanças. Mas, enquanto isso não acontece, prosseguirá a resistência e, enquanto não houver nada de concreto, eles recusarão o diálogo com o governo. Uma decisão dividiu a comunidade: muitos que eram zapatistas, agora não são mais, porque lutam por uma estrada, uma escola, um ambulatório do governo. Outros, ao invés, não aceitam nada do governo, enquanto perdurar esse sistema. A divisão corre o risco de fragmentar o zapatismo que, todavia, tem ainda grande poder de persuasão. Verificam-se conflitos ocasionais na comunidade, mas não há um perigo iminente de luta armada. As relações com o governo estão num impasse. Alguns municípios têm duas autoridades, zapatista e constitucional e isto, às vezes, gera conflitos, mas na maior parte dos lugares vive-se em paz. Para combater os zapatistas, o exército dispõe de equipamentos sofisticados, com grave dano econômico para o país inteiro. A presença maciça de militares cria muitos problemas, mas também a guerrilha os cria... Existem outros caminhos. Em Chiapas e em todo o sul do México proliferam organizações de pequenos produtores de café, mel, milho. Eles obtêm produtos de primeira qualidade para o mercado internacional. Mesmo os indígenas dialogam com financeiras para melhorar sua situação, para entrar no circuito do comércio equânime. Mudam-se os métodos, não os objetivos, dos que querem maior justiça e solidariedade. Em 1998, a Igreja criou a comissão de mediação entre governo e zapatistas. Qual é sua tarefa hoje? – Eu me encontrava em uma comunidade indígena distante três horas de Ocosingo e a cinco, de São Cristóvão, durante a marcha dos zapatistas para a capital. Antes da Missa, todos ouviam pelo rádio a intervenção da comandante Éster diante do Congresso federal. Mas, apenas iniciamos a celebração, zapatistas e não-zapatistas, membros desta ou daquela organização, pessoas que não pertenciam a nenhum grupo, todos participavam da Missa.
Como inculturar o Evangelho em contexto tão heterogêneo? – No país existem 56 etnias diferentes. Antes de nós, os protestantes do Instituto Lingüístico de Verano, dispondo de enormes recursos, traduziram a Bíblia para todas as línguas, cometendo, porém, graves erros doutrinais e culturais. A Igreja católica fez um enorme trabalho em tseltal, graças aos jesuítas que, há quarenta anos, aprenderam a língua, a cultura e os costumes indígenas. Com a ajuda da comissão episcopal de Pastoral bíblica, litúrgica e da Doutrina da Fé, foi concluída há pouco a tradução da Bíblia, com a aprovação da Conferência episcopal mexicana. Não é obra de especialistas, mas da comunidade indígena, com textos usados nas suas publicações. Uma tradução a que todos participaram. O mesmo método foi agora adotado para o totsil, a segunda língua falada na diocese. O que restou da teologia da libertação? – Está concretizada na luta pelos direitos humanos, na medicina alternativa, no comércio justo, na defesa da cultura autóctone, da mulher, do ambiente. Um esforço contínuo e essencial. Se ela deixasse de existir, pereceríamos como cristãos e como seres humanos. A Igreja não corre o risco de ser acusada de fazer política? – No sentido de luta política pelo poder, não. Mas, seguramente, a fé deve influir para que se faça maior justiça e desenvolvimento a todos e para a proteção dos recém-nascidos, indígenas, pobres e campesinos. A Evangelho é muito claro. Frente à multidão esfomeada, Jesus ordenou aos apóstolos: “Dai-lhes de comer!”. Não podemos ficar inertes, frente a tantas injustiças e tanta miséria. Quando visito comunidades e não vejo estradas, ambulatórios, luz elétrica, procuro a autoridade civil e falo em nome do povo. É preciso falar, obter o apoio de agências internacionais, fazer entender às autoridades a verdadeira necessidade da comunidade. Isto não significa fazer política: é solidariedade à luz do evangelho. Após quatro anos na diocese, qual é a prioridade pastoral? – Prosseguir no empenho pela reconciliação na comunidade dividida por questões políticas, agrárias ou religiosas. Através do Conselho Inter-religioso de Chiapas, bispos e líderes protestantes fazem com que a religião não seja fator de divisão, mas contribua para a reconciliação e a paz, a apagar as tensões, demonstrando que se pode viver como irmãos. Continuamos também promovendo a inculturação na comunidade mestiça e indígena. Para isso, trabalhamos na tradução da Bíblia e dos textos litúrgicos e encorajamos as vocações indígenas ao sacerdócio. Minha diocese, com um milhão e meio de habitantes, 75% dos quais são indígenas, precisa de sacerdotes indígenas. Por enquanto, temos apenas quatro sacerdotes indígenas e onze seminaristas indígenas, em um total de 34. Apostamos na participação dos leigos na evangelização, empenhamo-nos – como já disse – para que a Igreja seja fator de unidade e lugar de comunhão, e nos esforçamos para que os indígenas tenham seus direitos reconhecidos como os mestiços. E a invasão das seitas? – Chiapas é o estado com a maior porcentagem (22%) de protestantes e evangélicos. O motivo? Durante muito tempo, Chiapas foi abandonado pela Igreja católica. Os poucos sacerdotes e religiosas não tinham condições de chegar aos lugares mais remotos, enquanto os protestantes iam a tais regiões. Entre 1980 e 1990, 9% dos fiéis deixaram a Igreja; entre 1990 e 2000, 3%. Neste ínterim, aumentaram os agentes pastorais leigos. Hoje, na diocese, temos oito mil catequistas que ensinam
aos responsáveis das comunidades, não às crianças.
Assim, alguns retornaram à Igreja católica. As seitas nos
preocupam sobretudo porque geram divisão na comunidade. Um aspecto
que o povo não tolera, pois o consenso de toda a assembléia
é fundamental na cultura indígena e campesina. O desafio
é conciliar os direitos do indivíduo com os da coletividade. |
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