Revista "MUNDO E MISSÃO"
Igreja no Mundo - América
OS PRINCIPAIS PROTAGONISTAS DA PEQUENA COMUNIDADE SÃO LEIGOS A diocese de Guantánamo conta com 650 mil habitantes (um décimo da população cubana) e se estende por 6.000 km². A área é montanhosa, com algumas regiões muito distantes e isoladas, o que complica os deslocamentos. O “pessoal apostólico” da província se reduz a 11 padres (dois locais e os demais, estrangeiros) e a uma dezena de freiras Vicentinas, Missionárias da Caridade e Claretianas. O Pe. Mario Maffi*, sacerdote fidei donum, trabalha lá desde o início de 1999, junto com dois outros padres, italianos como ele. (Denomina-se fidei donum o sacerdote diocesano que trabalha em terra de missão). Ele nos fala apaixonadamente do seu trabalho. MINISTÉRIOS Em Cuba há uma Igreja que cresce lentamente. Ainda não sabemos para onde Deus a conduzirá, mas estamos esperançosos quanto ao seu futuro. Ao chegar, vi uma Igreja muito unida. Existe grande harmonia e espírito de comunhão entre nós e nos esforçamos para chegar ao mesmo fim, proposto por todos. A Igreja prioriza a formação e consolidação de pequenas comunidades, pois o regime não permite a presença da Igreja na esfera social. É nas casas que se anuncia a Palavra, faz-se catequese e se concede responsabilidade plena aos leigos. Assim, o anúncio penetra mais e atinge várias camadas sociais. Sem eles, a Igreja não existiria. O casal Edgar e Mirelda, que se achegou à fé cinco anos atrás, coloca sua casa à disposição para duas reuniões semanais: em uma se reza; na outra, faz-se a catequese. Assim como Mirelda e Edgar, outros casais “mantêm de pé” a Igreja. É essencial que os pastores sejam prudentes, invistam em líderes justos, possuidores de qualidades – sobretudo humanas – em termos de acolhimento e que sejam estimados pela conduta ética. Quando a gente confia nos “primeiros a chegar”, corre o risco de apoiar o trabalho sobre bases frágeis. PROMOÇÃO HUMANA A promoção social é prioridade da Igreja de Guantánamo, mas a organização política cubana não deixa muitos espaços; quase nenhum, na verdade. Em geral, a Igreja se preocupa em resolver as mínimas dúvidas da população, atribuindo atenção concreta às suas exigências cotidianas. As pessoas da minha região, por razões de “isolamento” geográfico e de caráter, são talvez mais fechadas que as de outras partes. Todavia, apesar do contexto político e de forte presença da ideologia, são acolhedoras, almejam mudança de direção. Creio que a evangelização seja a resposta a esse desejo. Os idosos ainda conservam a lembrança do cristianismo que estava adormecido em seu íntimo e que agora ressurge. Uma mulher cega, de noventa anos, sabia de cor, ainda, depois de tantas décadas, o Pater Noster, a Ave Maria e o Credo. Por dezenas de anos, em vista da repressão à vida paroquial, ela ficara impedida de participar da comunidade de fé. CONVERSÃO
As pessoas que se reaproximam da Igreja, fazem-no, geralmente, movidas por uma fé não efêmera. Em muitos casos, trata-se de uma fé fundada quase que exclusivamente na oração, aprendida dos lábios dos pais, e não acompanhada de uma adequada formação e catequese, por falta de clero e de paróquias. No entanto, é uma fé insuspeita. Quando a pessoa abre o coração a um retorno a certos valores religiosos, não os perde jamais. Além dos anciões, há uma parte do mundo dos adultos sensível ao cristianismo. Isto não exclui, evidentemente, o grupo que se diz cristão, até propenso a batizar os filhos, sem se comprometer, de fato, com a vida evangélica. Há dois anos de preparação para o batismo de adultos, apoiados em uma catequese conduzida por leigos e pelo padre. É mais difícil o batismo de jovens, não porque sejam insensíveis à mensagem evangélica, pelo contrário, exatamente em virtude de sua jovialidade, respondem com mais entusiasmo e alegria às questões profundas da existência. O problema é que é difícil aproximar-se deles. Eles deixam os lugares de origem e vêm das escolas estatais, saturadas de marxismo, e aí tudo se complica. VAZIO EXISTENCIAL O povo sente um previsível vazio existencial e, pela minha experiência, percebo que esse vazio espera por algo que dê sentido à vida. O povo procura uma esperança, quer levar adiante, solicita um projeto, uma abertura à novidade, em uma situação marcada por inúmeros problemas. O Evangelho é a resposta. Ele parte de situações da vida humana e leva luz onde há trevas. É o que nos dizem os que escolheram seguir a Jesus, quando, com humildade, mas alegremente, relembram que a existência adquiriu um novo sentido para eles, mudou. Dizem isso com palavras simples, mas se percebe que são verdadeiras. OS MISSIONÁRIOS “PRESOS POR UM FIO” A formação humana é importantíssima. Para que ela seja mais intensa e mais profunda é necessária a presença de formadores (padres, missionários, religiosos...). Por exemplo: no meu município de Imias, perto de Barracoa (província de Guantánamo), que tem 20 mil habitantes, estou sozinho. Infelizmente, o governo reluta em conceder vistos de entrada a novos padres. Nós, sacerdotes italianos, por exemplo, temos que renovar os vistos anualmente. Já que a renovação do nosso visto pode ser negada a qualquer momento, é preciso redescobrir a provisoriedade evangélica de ser “servo inútil”. Vale dizer: ser missionário enquanto é possível.
De resto, é Deus quem suscita a fé e constrói a Igreja. Isto dá ao missionário a consciência dos próprios limites e o educa a uma grande disponibilidade, a uma pobreza que, de certa forma, é imposta, mas que ele procura viver sem reclamações. Por esse motivo digo que os leigos são o sinal da continuidade da missão da Igreja em Cuba. Ainda nem temos uma igreja. Falta a igreja e não há nada semelhante à casa paroquial. Desde março de 2000, estamos pedindo um espaço à autoridade local mas, até agora, nada! Enquanto isso, as seitas proliferam. Lá estão os Testemunhas de Jeová e vários grupos protestantes. Infelizmente é quase impossível dialogar com eles, porque atacam a Igreja católica, descrevendo-nos como “filhos de Satanás”. Felizmente o povo cubano tem uma veneração fortíssima à Nossa Senhora, presente também entre os que se dizem ateus. E esta é uma das razões que permitem à fé cristã não se extinguir no tempo. * Pe.Mario Maffi (60 anos), foi ordenado em 1969, trabalhou quinze anos entre indígenas de Cochabamba, na Bolívia. Desde 1999, trabalha na diocese de Guantánamo, em Cuba. |
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