Revista "MUNDO E MISSÃO"

Igreja no Mundo - América

OS PRINCIPAIS PROTAGONISTAS DA PEQUENA COMUNIDADE SÃO LEIGOS

o imaginário coletivo, Guantánamo evoca a mega-base militar dos Estados Unidos em Cuba, e os abusos que acontecem nas suas celas contra os suspeitos terroristas islâmicos, depois do dia 11 de setembro de 2001. Mas em Guantánamo também deita raízes uma das mais jovens dioceses do mundo, instituída por João Paulo II durante sua viagem à ilha de Fidel, em 1998. Em Cuba, a fé cristã chegou há séculos, mas as condições políticas das últimas décadas fizeram com que ela ficasse confinada às casas, banida do espaço público, sob controle e censura. Despertar esta fé adormecida, dar novamente vida e coragem à pequena comunidade cristã é uma entusiasmante aventura, apesar de mil dificuldades.

A diocese de Guantánamo conta com 650 mil habitantes (um décimo da população cubana) e se estende por 6.000 km². A área é montanhosa, com algumas regiões muito distantes e isoladas, o que complica os deslocamentos. O “pessoal apostólico” da província se reduz a 11 padres (dois locais e os demais, estrangeiros) e a uma dezena de freiras Vicentinas, Missionárias da Caridade e Claretianas. O Pe. Mario Maffi*, sacerdote fidei donum, trabalha lá desde o início de 1999, junto com dois outros padres, italianos como ele. (Denomina-se fidei donum o sacerdote diocesano que trabalha em terra de missão). Ele nos fala apaixonadamente do seu trabalho.

MINISTÉRIOS

Em Cuba há uma Igreja que cresce lentamente. Ainda não sabemos para onde Deus a conduzirá, mas estamos esperançosos quanto ao seu futuro. Ao chegar, vi uma Igreja muito unida. Existe grande harmonia e espírito de comunhão entre nós e nos esforçamos para chegar ao mesmo fim, proposto por todos. A Igreja prioriza a formação e consolidação de pequenas comunidades, pois o regime não permite a presença da Igreja na esfera social. É nas casas que se anuncia a Palavra, faz-se catequese e se concede responsabilidade plena aos leigos. Assim, o anúncio penetra mais e atinge várias camadas sociais. Sem eles, a Igreja não existiria.

O casal Edgar e Mirelda, que se achegou à fé cinco anos atrás, coloca sua casa à disposição para duas reuniões semanais: em uma se reza; na outra, faz-se a catequese. Assim como Mirelda e Edgar, outros casais “mantêm de pé” a Igreja. É essencial que os pastores sejam prudentes, invistam em líderes justos, possuidores de qualidades – sobretudo humanas – em termos de acolhimento e que sejam estimados pela conduta ética. Quando a gente confia nos “primeiros a chegar”, corre o risco de apoiar o trabalho sobre bases frágeis.

PROMOÇÃO HUMANA

A promoção social é prioridade da Igreja de Guantánamo, mas a organização política cubana não deixa muitos espaços; quase nenhum, na verdade. Em geral, a Igreja se preocupa em resolver as mínimas dúvidas da população, atribuindo atenção concreta às suas exigências cotidianas. As pessoas da minha região, por razões de “isolamento” geográfico e de caráter, são talvez mais fechadas que as de outras partes. Todavia, apesar do contexto político e de forte presença da ideologia, são acolhedoras, almejam mudança de direção.

Creio que a evangelização seja a resposta a esse desejo. Os idosos ainda conservam a lembrança do cristianismo que estava adormecido em seu íntimo e que agora ressurge. Uma mulher cega, de noventa anos, sabia de cor, ainda, depois de tantas décadas, o Pater Noster, a Ave Maria e o Credo. Por dezenas de anos, em vista da repressão à vida paroquial, ela ficara impedida de participar da comunidade de fé.

CONVERSÃO


Base militar dos Estados Unidos em Guantánamo

As pessoas que se reaproximam da Igreja, fazem-no, geralmente, movidas por uma fé não efêmera. Em muitos casos, trata-se de uma fé fundada quase que exclusivamente na oração, aprendida dos lábios dos pais, e não acompanhada de uma adequada formação e catequese, por falta de clero e de paróquias. No entanto, é uma fé insuspeita. Quando a pessoa abre o coração a um retorno a certos valores religiosos, não os perde jamais. Além dos anciões, há uma parte do mundo dos adultos sensível ao cristianismo.

Isto não exclui, evidentemente, o grupo que se diz cristão, até propenso a batizar os filhos, sem se comprometer, de fato, com a vida evangélica. Há dois anos de preparação para o batismo de adultos, apoiados em uma catequese conduzida por leigos e pelo padre. É mais difícil o batismo de jovens, não porque sejam insensíveis à mensagem evangélica, pelo contrário, exatamente em virtude de sua jovialidade, respondem com mais entusiasmo e alegria às questões profundas da existência. O problema é que é difícil aproximar-se deles. Eles deixam os lugares de origem e vêm das escolas estatais, saturadas de marxismo, e aí tudo se complica.

VAZIO EXISTENCIAL

O povo sente um previsível vazio existencial e, pela minha experiência, percebo que esse vazio espera por algo que dê sentido à vida. O povo procura uma esperança, quer levar adiante, solicita um projeto, uma abertura à novidade, em uma situação marcada por inúmeros problemas. O Evangelho é a resposta.

Ele parte de situações da vida humana e leva luz onde há trevas. É o que nos dizem os que escolheram seguir a Jesus, quando, com humildade, mas alegremente, relembram que a existência adquiriu um novo sentido para eles, mudou. Dizem isso com palavras simples, mas se percebe que são verdadeiras.

OS MISSIONÁRIOS “PRESOS POR UM FIO”

A formação humana é importantíssima. Para que ela seja mais intensa e mais profunda é necessária a presença de formadores (padres, missionários, religiosos...). Por exemplo: no meu município de Imias, perto de Barracoa (província de Guantánamo), que tem 20 mil habitantes, estou sozinho. Infelizmente, o governo reluta em conceder vistos de entrada a novos padres. Nós, sacerdotes italianos, por exemplo, temos que renovar os vistos anualmente. Já que a renovação do nosso visto pode ser negada a qualquer momento, é preciso redescobrir a provisoriedade evangélica de ser “servo inútil”. Vale dizer: ser missionário enquanto é possível.


Catedral Santa Catalina de Ricci na cidade de Guantánamo - Cuba

De resto, é Deus quem suscita a fé e constrói a Igreja. Isto dá ao missionário a consciência dos próprios limites e o educa a uma grande disponibilidade, a uma pobreza que, de certa forma, é imposta, mas que ele procura viver sem reclamações. Por esse motivo digo que os leigos são o sinal da continuidade da missão da Igreja em Cuba. Ainda nem temos uma igreja. Falta a igreja e não há nada semelhante à casa paroquial. Desde março de 2000, estamos pedindo um espaço à autoridade local mas, até agora, nada!

Enquanto isso, as seitas proliferam. Lá estão os Testemunhas de Jeová e vários grupos protestantes. Infelizmente é quase impossível dialogar com eles, porque atacam a Igreja católica, descrevendo-nos como “filhos de Satanás”. Felizmente o povo cubano tem uma veneração fortíssima à Nossa Senhora, presente também entre os que se dizem ateus. E esta é uma das razões que permitem à fé cristã não se extinguir no tempo.

* Pe.Mario Maffi (60 anos), foi ordenado em 1969, trabalhou quinze anos entre indígenas de Cochabamba, na Bolívia. Desde 1999, trabalha na diocese de Guantánamo, em Cuba.

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