Revista "MUNDO E MISSÃO"
Igreja no Mundo - América
|
O mito de Fidel continua. Quando ele veio ao Brasil, por ocasião da posse de Lula, virou a grande estrela: políticos e povo competiram para tentar se aproximar e falar com ele. Mas escutemos uma voz cubana: "Cuba, junto com a Coréia do Norte, permanece uma das sociedades fechadas do planeta, a única de todo o Ocidente. Aqui, só para dar um exemplo, é impossível que um cidadão particular tenha acesso à Internet. É verdade que gozamos de direitos sociais garantidos pelo Estado, que fornece serviços a todos, embora de baixa qualidade. Mas, para isso pagamos um preço alto demais em termos de liberdade política, civil e econômica. E a razão é o domínio do modelo totalitário, que desabou em todo o Ocidente, mas resiste em Cuba". Quem fala é Elizardo Sanchez, ex-membro do partido comunista cubano e professor de marxismo; atualmente, fundador, com alguns amigos, do "Comitê pelos Direitos Humanos" e, por isso, perseguido continuamente pelo regime, após ter ficado preso durante oito anos. A oposição em Cuba é democrática, não quer o conflito, mas o diálogo com todos, incluído o governo, para chegar a uma reconciliação nacional. Por isso, eles são atacados de dois lados: pelo governo, que os acusa de contra-revolucionários, e pelos refugiados cubanos em Miami, para os quais eles são traidores. AS MÃES Um grupo pequeno, mas extremamente significativo, é formado por mães de presos políticos, organizadas no "Comitê Lionor Perez". Cada domingo, depois de ter participado da missa na Igreja de Santa Rita, elas percorrem lentamente a calle Quinta, que leva à residência de Fidel Castro. Não gritam slogans, não acusam o governo, nem levantam cartazes: simplesmente caminham de cabeça erguida, em trajes de luto, para manifestar sua dor, fruto da injustiça. "Vamos continuar até o último preso político ser liberado", afirma Caridad Peña, presidente do Comitê. O governo reage e vem endurecendo com os filhos dessas mulheres, punindo-os com detenção em cela-forte, segregando em prisões distantes e proibindo a visita dos parentes. As mães, porém, não desistem. Atualmente, em Cuba, há mais de 200 presos políticos. Eram
muito mais até a anistia concedida por Fidel, a pedido de João
Paulo II, por ocasião de sua visita à ilha em 1998. Mas,
agora, está voltando a crescer. O grupo pede um referendo para encaminhar uma transição democrática no país, consultando o povo a respeito de uma reforma legal para garantir a liberdade de expressão e associação, mais espaço para a empresa privada, liberdade para presos políticos, uma nova lei eleitoral e eleições livres. A iniciativa apóia-se no art. 88 da Constituição, que autoriza a apresentação de uma lei de iniciativa popular, se sustentada por dez mil assinaturas. O Projeto Varela recolheu mais de 11 mil assinaturas, que foram apresentadas à Assembléia Nacional. FIRMAS PELA LIBERDADE Aqueles que assinaram, demonstraram coragem, porque se expuseram publicamente, colocando seus nomes em apoio a uma petição que contraria diretamente o regime e por isso foram perseguidos, verbal e fisicamente, pela polícia. Fidel reagiu pronta e decididamente: "O regime econômico, político e social de Cuba é intocável", declarou e organizou logo um contra-referendo, em junho do ano passado, para acabar com o "Projeto Varela". O resultado foi um mar de assinaturas (8,2 milhões, que representam 98% dos eleitores do país), apoiando as propostas do líder máximo. Muitos cubanos, porém, conforme despacho da agência Reuters, disseram que não tinham outra escolha a não ser assinar. Caso contrário, seriam considerados contra-revolucionários e perderiam benefícios preciosos nesses tempos de crise econômica. Fidel Castro havia afirmado que os promotores do "Projeto Varela" tinham o direito de apresentar uma petição, mas não de mudar a Constituição. Respondeu-lhe Oswaldo Payá, promotor principal do Projeto, que sua proposta visa exatamente fazer respeitar a Constituição cubana que proclama os direitos fundamentais dos cidadãos. O que querem mudar são as leis que violam a própria Constituição. Eles são perseguidos porque pedem que seus direitos - reconhecidos pela Constituição - sejam respeitados. O Parlamento europeu outorgou a Oswaldo Payá, em 17 de dezembro de 2002, o importante prêmio Sakharov, já entregue, no passado, a Nelson Mandela e ao presidente do Timor Leste, Xanana Gusmão. Na ocasião, o premiado disse: "Não venho aqui pedir apoio para a oposição ao governo cubano, nem condenar os que nos perseguem. Não é uma ajuda para que algumas pessoas no mundo tomem partido a favor do governo cubano ou dos que a ele se opõem, a partir de posições ideológicas. Nós queremos que se tome posição a favor do povo cubano". Nessas palavras, expressa-se, com clareza, o que a oposição em Cuba quer: não uma luta política, mas uma escolha em favor do homem. IGREJA E REGIME O cardeal Jaime Lucas Ortega, arcebispo de La Havana, explica, nesta entrevista, como são as relações entre Igreja católica e governo em Cuba. Opapa visitou Cuba há cinco anos. O que mudou a partir daquele evento? Nossa Igreja saiu do silêncio; a presença de João Paulo II fez com que ela se tornasse conhecida não só para o mundo, mas também para o povo cubano. Muitas pessoas descobriram ou redescobriram a fé como uma realidade viva e todos viveram aqueles dias como a oportunidade para manifestar, com grande alegria e liberdade, seus sentimentos mais profundos. Tudo isso deixou uma marca. Porém, se olharmos as relações entre Estado e Igreja, nada mudou: acima de nós, há sempre o Departamento para os Negócios Religiosos, que exerce sua atividade de controle seja em nível nacional como local.
Não houve então novidades de relevo? Infelizmente, está sendo encaminhado um processo de volta à ideologia, que se tornou cada vez mais insistente, com uma propaganda de velho estilo que parecia já ultrapassada. A Igreja não é atacada diretamente, mas o cristão encontra-se em conflito com a idéia totalizante da revolução, para a qual tudo deve ser sacrificado. É uma luta surda contra a Igreja, considerada como um fato marginal, mas que pode subtrair forças e energias à revolução. Nesse sentido, é sempre olhada com certa desconfiança. Quais são as maiores limitações para a Igreja? A Igreja não pode ter nenhuma presença no ensino, que é considerado direito exclusivo do Estado. A mesma coisa acontece com os meios de comunicação: não temos acesso, fora raras ocasiões celebrativas, como o Natal. Não existe informação sobre a atividade da Igreja, à exceção de alguma breve notícia a respeito do papa. Em Cuba, a Igreja é como se não existisse. |
Visite
as outras páginas
[P.I.M.E.] [MUNDO e MISSÃO]
[MISSÃO JOVEM] [P.I.M.E.
- Missio] [Noticias] [Seminários]
[Animação] [Biblioteca]
[Links]