Revista "MUNDO e MISSÃO"

Igreja no Mundo - Ásia

CAMBOJA onde silenciam os gritos do silêncio

Piero Gheddo

A Igreja renasce após o inferno do Pol Pot e a ocupação vietnamita

Vejo renascer a Igreja no Camboja. Quando a visitei pela última vez, em janeiro de 1993, ela praticamente tinha desaparecido após o apocalipse dos khmers vermelhos (1975-1979) e onze anos de ditadura comunista vietnamita (1979-1990).

Visitei a mãe do único bispo cambojano, dom Joseph Salas, que deixaram morrer de fome em 1977. A velha senhora me dizia: "Deus nos deu novamente a possibilidade de nos reunirmos. Rezei muito para que isso acontecesse e agora percebo que sobrevivemos, embora sejamos poucos".

Em abril de 1975, os khmers vermelhos ocuparam o Camboja e impuseram o maoísmo mais radical, matando um terço dos cambojanos e obrigando outros a fugir. Os católicos eram 60 mil; hoje, depois de dez anos de liberdade e numerosas conversões , há 7500 batizados cambojanos e 20 mil vietnamitas. Os outros foram mortos, porque - como dizia Pol Pot, nos anos 70, "eram inúteis e não serviam para a construção do socialismo". A catedral de Phnom Penh foi destruída como todas as outras igrejas, capelas e templos budistas.

Renasce a Igreja

Se os mártires são sementes de novos cristãos, o futuro da Igreja do Camboja será luminoso. Mas, desde já, é bom ver nascer ou renascer a Igreja. Nas pequenas comunidades, respira-se o entusiasmo do começo: como não perceber a ação do Espírito Santo? Pe. Franco Legnami do P.I.M.E., vigário em Kompong Thom (a 162 quilômetros ao norte da capital Phnom Penh), me diz: "Tenho entre 120 e 130 católicos, e 150 catecúmenos, todos jovens. A paróquia foi totalmente destruída: nem temos mais os livros dos batizados".

Com ele e o pe. François das Missões Estrangeiras de Paris, visito alguns centros da extensa paróquia. O país, nesses meses, está debaixo de água, mas as estradas são transitáveis, embora a alguns lugares só se chegue de barco. Em Tainhg Ko, onde foi morto dom Joseph Salas, construíram um grande galpão em madeira e cimento, com uma grande cruz, que serve como igreja e salão de reuniões. Em maio passado, na inauguração, ali se encontraram 1 500 católicos. Muitos choravam de emoção ao lembrar seus queridos e outros mártires da longa perseguição.
"A catequese é ministrada totalmente pelos leigos - conta pe. Franco - mas não temos um cristão acima dos 40-50 anos". A antiga comunidade foi deportada e dispersa. Os catequistas são jovens batizados e os catecúmenos que estudam com entusiasmo são jovens. Alguns são de antigas famílias cristãs que perderam os pais e os avós, e muitos se comprometem com o serviço paroquial".

Nos poucos dias que estive em Kompong Thom, participei de um encontro de formação e oração de um grupo de vinte jovens. Chegaram dos vários pontos da paróquia, comeram e dormiram na casa do vigário ou das irmãs (tailandesas) e, no domingo a tarde, voltaram para as casas de barco ou de moto. "Esses grupos estão abertos também para os não cristãos. Sentimos uma grande necessidade de animá-los, porque, depois da queda da ideologia e do partido, não restou mais nada. A população é formada por jovens com menos de 25-30 anos. Procuramos comprometê-los no voluntariado, formando grupos de caridade que visitam as aldeias, ajudam os doentes, os famintos, os incapazes, os anciãos sozinhos. Os não cristãos descobrem essa ajuda gratuita e esse é o anúncio mais eficaz do Evangelho. Os jovens nos procuram, dizendo que eles também querem ser como nós".

Aos domingos, a missa é celebrada na igreja de Kompong Ko, que atualmente emerge sobre palafitas na planície inundada com dois metros de água e propicia uma rara emoção. É uma igreja grande e cheia de fiéis que ali chegam com seus barcos, canoas e jangadas de bambu. A missa dura das 9h30 às 12h30, com cantos, danças, discursos, orações, pregação, troca de dons e oferendas para a paróquia. Naquele domingo, homenageavam também pe. Franco. que voltava à paróquia após quatro meses na Itália para pôr em dia a saúde: "Padre, tínhamos medo de que não voltasse... precisamos muito de você", repetiam os fiéis.

Pe. Franco fazia notar como era muito querido pelo povo, embora fossem poucos seus anos de trabalho no meio deles Já havia organizado 25 escolas de alfabetização para adultos, uma dezena de escola de corte e costura e enfermagem para mulheres, uma casa de acolhida para jovens pobres que vêm à cidade para estudar, além do trabalho pastoral e de caridade.

"O fato de visitarmos as aldeias, nos encontrarmos e comermos com eles, ajudando a todos os que precisam é muito positivo para criar uma boa imagem da Igreja".

No Camboja existem três bispos católicos: um francês das Missões Estrangeiras de Paris, um indiano e um jesuíta espanhol que estão trabalhando muito para reestruturar a Igreja local. No próximo ano, serão ordenados os primeiros quatro sacerdotes nativos, após os massacres dos khmers vermelhos.

O P.I.M.E. no Camboja

O P.I.M.E. iniciou sua presença no Camboja em 1990, com pe. Toni Vendramim, vindo de Bangladesh como capelão das irmãs de Madre Tereza de Calcutá, que foram chamadas para fundar um orfanato.

Logo depois, criou uma Ong, a New Humanity, que, em conjunto com algumas missionárias leigas ligadas ao Instituto, realizou um programa de assistência e promoção, numa região demarcada pelo governo e ajudou a reabrir a universidade, assumindo a responsabilidade das faculdades de sociologia e filosofia. O projeto foi financiado pela Conferência Episcopal Italiana e pelo P.I.M.E., com a ajuda de numerosos docentes universitários italianos e asiáticos. Esse primeiro projeto concluiu-se em novembro de 2000, após a formação dos docentes locais, da organização de toda a infra-estrutura das duas faculdades e do envio, através de bolsas de estudos, de vários estudantes às universidades católicas das Filipinas. Já existe, em fase de estudo, um outro compromisso com a universidade nacional.

Testemunho de mártires

Mártir não é somente quem deu a vida, mas quem sofreu para não repudiar sua fé.
Conheci uma senhora bem avançada nos anos, Jeyata, que me mostrou uma pequena cruz de madeira que levava no pescoço. Católica desde criança, durante a tragédia dos khmers vermelhos, ela foi internada num campo de trabalhos forçados com outros cristãos. A vida era de escravos, desesperada, pouca alimentação, com 12 -14 horas de trabalho e o terror de desaparecer sem deixar um sinal da própria existência. "Se me encontrassem com esta cruz, seria fuzilada... e, às vezes, eu pensava em me matar porque não havia esperança alguma de mudança. Quando não agüentava mais, me isolava, pegava a minha pequena cruz... chorava e rezava... somente assim reencontrava força para continuar".

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