Revista "MUNDO e MISSÃO"
Igreja no Mundo - Ásia
![]() Alberto Garuti fgfgfgfgfgfgfgfgfgfgfgfgfgfgfgfcinco anos depois No número anterior, apresentamos um depoimento da irmã Isabel Patuzzo, missionária em Hong Kong, sobre sua vida e seu trabalho. Hoje, ela nos fala sobre o que está acontecendo nessa Igreja a partir da anexação da cidade à República Popular da China Hong Kong se tornou parte do território chinês. Está percebendo alguma mudança na Igreja de Hong Kong a partir de 1997 ou tudo continua como antes? Ir. Isabel: Não podemos dizer que tudo continua como antes. Houve algumas mudanças e mudanças positivas, no sentido de que a Igreja de Hong Kong vai se firmando para se tornar uma ponte para a reconciliação entre a Igreja clandestina e a patriótica que continua muito forte na China. A Igreja de Hong Kong está tendo mais intercâmbio com a China, mais presença, mais contatos. Ela se sente responsável pela ajuda à Igreja da China. Essa seria uma mudança positiva. E as mudanças negativas? Ir. Isabel: Senti, por exemplo, uma grande preocupação com a autocensura, preocupação com o que se diz ou se escreve, pensando se tudo isso um dia não poderá ser usado contra a gente. Já não se fala com aquela espontaneidade, com aquela vontade de denunciar que tínhamos antes. Senti isso no último Sínodo diocesano de Hong Kong. Quanto à liberdade de agir, houve algumas restrições? Ir. Isabel: O grupo que governa Hong Kong não se preocupa em saber o que a população da cidade está pensando. Eles estão obedecendo ao governo de Pequim. Já houve críticas abertas na mídia da cidade por parte desse grupo a respeito da ação social da Igreja de Hong Kong, embora ainda não tenham sido tomadas atitudes de represália. Quais as ações da Igreja foram criticadas? Ir. Isabel: Por exemplo, o que aconteceu com os filhos dos trabalhadores chineses que vieram para Hong Kong. A cidade precisa, para certos serviços, especialmente para os mais humildes, da mão-de-obra do continente, mas não quer que esses operários vão para lá com a mulher e os filhos. Apesar dessas restrições, um bom grupo desses trabalhadores levou consigo a família, mas o governo de Hong Kong, em represália, não concedeu o certificado de residência aos filhos. Esses, sem o certificado, não conseguiram matricular-se nas escolas públicas da cidade. Chegamos a ter cerca de 3 mil crianças que não poderiam freqüentar nenhuma escola de Hong Kong. A Igreja católica então as acolheu em suas escolas, reconhecidas pelo governo e onde se seguem os mesmos programas das escolas públicas, mas o governo não reconheceu a instrução que lhes foi dada. Por que tanta resistência a conceder a residência aos filhos dos operários que o próprio governo contrata para trabalharem na cidade? Ir. Isabel: O governo chinês não quer que se saiba que em Hong Kong existe mais liberdade que no resto do país, por medo que o povo passe a exigir os mesmos direitos na China inteira. Mas quem criou mais dificuldades a conceder a residência foi o próprio governo de Hong Kong: teme-se uma imigração maciça que a cidade não poderia enfrentar, não tendo nem estrutura nem lugar para receber tantas pessoas. Qual foi a posição da Igreja nessa situação? Ir. Isabel: Começamos recebendo as crianças em nossas escolas. Um grupo de cristãos fez até greve de fome para conscientizar a população de Hong Kong sobre a importância de conceder a residência e reconhecer os estudos feitos por essas crianças e sobre a injustiça dessa lei que destrói as famílias. A população católica se sensibilizou e vários advogados católicos começaram a defender a causa dessas crianças sem exigir pagamento. Praticamente, levantou-se este problema: se Hong Kong precisa de trabalhadores, por que não dá direito às suas famílias de irem junto também?
Mas há outros fatos que mostram que a situação está se modificando, muitas vezes em sentido negativo. Por exemplo, tornou-se mais freqüente a recusa de visto para sair de Hong Kong e entrar na China a padres e a outras pessoas que estavam tendo contatos com os cristãos de lá. Recentemente, tiveram seus vistos recusados os dois bispos auxiliares de Hong Kong e alguns professores do seminário que iam prestar sua colaboração em alguns seminários da Igreja patriótica. Isso levantou uma pergunta entre nós: se Hong Kong é parte da China, por que nós precisamos de visto para irmos de um lugar a outro do mesmo país? A China é o único país do mundo que faz exigências desse tipo a seus cidadãos. Como a Igreja de Hong Kong vê a atual situação? Ir. Isabel: Podemos dizer que a Igreja de Hong Kong tem a esperança de que a China vá se abrir. Mas temos que ser realistas e admitir que, até agora, não existe nenhum sinal dessa abertura. Até agora, tivemos períodos em que parecia que a situação melhorasse, depois, de repente, tudo voltou a se fechar. Quando terminou a revolução cultural, ninguém pensaria que houvesse aquela abertura que houve, pelo menos no campo econômico. Não é possível que, de repente, aconteçam novas mudanças? Ir. Isabel: Isso pode acontecer. O fato de a China estar investindo muito na economia de mercado fez com que aumentasse a presença estrangeira no país. Cito como exemplo a comunidade estrangeira de Shangai. A primeira conseqüência é que daí começam a aparecer algumas liberdades a mais, por exemplo em campo religioso. Acha possível continuar muito tempo num sistema capitalista, mantendo ao mesmo tempo um estado policial que controla tudo? Ir. Isabel: É o nosso questionamento. Mas até agora os controles da polícia não se abrandaram. Veja o que aconteceu com o padre Mella, do Pime. Ele estava presente no interior da China da única forma possível hoje a um missionário: como um leigo, trabalhando. Ele dava aulas de inglês numa escola. Mas nesse caso, quando o trabalhador é também padre, é impossível que uma comunidade cristã não se aperceba e não entre em contato com ele. De fato, aos poucos, os cristãos começaram a freqüentar assiduamente a sua casa e isso começou a gerar suspeitas. Ele estava trabalhando na mesma cidade onde havia um padre da Igreja patriótica e isso gerou, além de suspeitas, muitos ciúmes. O povo naturalmente prefere um padre não ligado ao governo. O pe. Mella dava garantia, sendo estrangeiro, de não estar ligado ao governo e de estar ligado a Roma também. Por isso, o diretor da escola onde trabalhava o chamou e, antes que terminasse o contrato, lhe disse gentilmente que não precisava mais de seu trabalho e ele teve que voltar para Hong Kong. Dizem que na China há muita procura do cristianismo e das religiões em geral. Ir. Isabel: O povo não acredita mais na ideologia do partido. Eles olham o que as religiões, especialmente os representantes das religiões, fizeram até agora para o povo. Eles sabem que, no passado, as Igrejas tinham obras sociais que serviam ao povo carente e sabem que o comunismo tirou essas obras da Igreja e impediu que continuassem a funcionar. Todos se admiram que o número dos cristãos, apesar da falta de liberdade e da escassez de líderes, continue aumentando. O povo deixou de acreditar no partido e acredita na Igreja. |
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