Revista "MUNDO e MISSÃO"
Igreja no Mundo - Ásia
Na prática, o socialismo de Mao, desgarrado do bloco monolítico soviético, rumou para a Idade Média. As cidades tornaram-se fétidas; o povo, faminto. Reduzia-se religiosos, intelectuais e críticos do sistema em agricultores das fazendas coletivas, onde o trabalho físico deveria purificá-los do sonho burguês. Em resumo: o modelo produziu um país economicamente doentio, politicamente amedrontado e ideologicamente ameaçador. A reabilitação e ascensão de Deng Xiaoping ao poder, em 1977, significou a “desmaoização” do país. Xiaoping manteve a centralização política, o Partido único, o ateísmo, mas modernizou a agricultura, a indústria, a ciência e a tecnologia. A constituição de 1982 abriu espaço para a legitimidade da propriedade privada, que se efetivou após o ingresso do país na Organização Mundial do Comércio (OMC), quando o gigante oriental passou a rever suas relações econômicas e comerciais com o resto do mundo. Tais iniciativas atraíram imensa onda de investimentos externos. A partir de então, do alto de sua muralha, investidores chineses vêm sendo progressivamente seduzidos pelo glamour consumista ocidental; seus juristas têm se debruçado sobre os critérios do antigo Direito Romano, ao qual pretendem adaptar-se, já que seu conceito de lei difere radicalmente do conceito ocidental. Vislumbra-se, portanto, nova revolução no grande país, que inveja as benesses econômicas da globalização, mas teme a liberdade de pensamento. De fato, sua ideologia atéia e materialista continua intocável, ostentando um inquietante ponto de interrogação a respeito do seu futuro.
De qualquer forma, é visível o interesse de estudiosos chineses sobre o pensamento cristão e suas raízes nas instituições ocidentais. De Tomás de Aquino a Teilhard de Chardin, passando pelos clássicos da tradição judaico-cristã e sua relação com a filosofia grega, o chinês descobre o pensamento religioso ocidental, assim como há um progressivo interesse ocidental pela cultura chinesa. Alguns dos chineses não-cristãos que estudam na Pontifícia Universidade Salesiana de Roma, freqüentam o curso superior de latim. He Guanghu, do Departamento de Filosofia e Religião da Universidade do Povo, de Pequim, sublinha a contribuição que a comunidade acadêmica chinesa dá ao desenvolvimento de uma “teologia cristã na China”; isto é, uma teologia contextualizada. Esses, e outros fatos semelhantes, são sinais de mudança. A esperança é que, gradualmente, a contribuição do mundo cultural e intelectual seja adequadamente valorizada pelos políticos, em vista de um desenvolvimento harmonioso do país.
Este é também o objetivo de cristãos locais, missionários e estudiosos estrangeiros que se interessam por questões religiosas na China. Mas o liberalismo econômico na China comunista tornou-se uma incógnita. O Diário do Povo, de Pequim, de 28 de julho deste ano, avisou que os cidadãos chineses devem obedecer a lei, pois nenhuma ameaça à estabilidade social, venha de onde vier, será tolerada pelas autoridades. A esse respeito, o jornal O Estado de São Paulo escreveu: “O editorial surpreendeu muitos com a opinião de que a ampliação da desigualdade social é uma fase inevitável do desenvolvimento econômico”... abrindo “um abismo cada vez maior entre ricos e pobres, num país que ainda é oficialmente comunista” (Caderno Economia, 04/09/2005, pág n.º 5). Em vista disso, vários setores religiosos ocidentais temem que a China queira apresentar ao mundo um rosto “simpático” apenas em vista dos Jogos Olímpicos de 2008, a serem disputados naquele país. COMUNIDADES CLANDESTINAS E INTELECTUAIS Apesar dos progressos, comunidades clandestinas proliferam, porque muitos católicos e protestantes não registraram as respectivas associações à Associação Patriótica, Igreja “oficial” da China, cuja autoridade não reconhecem, acusando-a de ser a extensão do governo. De fato, a Associação Patriótica quer separar a Igreja chinesa da autoridade do papa. Em 2004, confirmou que “a Igreja católica na China continuará no caminho da independência e autonomia, gerindo-se democraticamente e adaptando-se ao socialismo”. Com isso, a Igreja católica corre o risco de perder a identidade e contradizer a história, ao eliminar o poder de jurisdição de seus bispos. As novas regras não facilitam a solução dos problemas do registro de grupos até então não-reconhecidos, nem limitam a ingerência do Estado na condução das religiões. Estão em vigor, além disso, as limitações impostas à atividade religiosa dos estrangeiros na China, aprovadas em 1994.
Entre os intelectuais duramente interrogados pela polícia, encontrava-se Liu Xiaobo, que denunciara: “O maior segredo de Estado é que a consciência é prisioneira da censura e do cárcere na China”. Além disso, há uma opressiva política de controle à internet, para evitar possíveis coligações com as democracias do Ocidente. Dos cem milhões de internautas, metade tem menos de 24 anos de idade. Por isso, aos mais importantes motores de busca é imposta severa censura e o bloqueio, através de filtros, ao acesso a numerosos temas políticos. Naturalmente, as autoridades justificam o rigoroso controle midiático com a preocupação de garantir a estabilidade social e a moralidade pública, protegendo especialmente os jovens de “influências negativas”. CAMPOS MINADOS Pesquisas sobre certos momentos históricos, como a atuação dos Boxer (o grupo chinês extremista anti-estrangeiros) contra missionários, em 1900, são questões que o poder político evita. Ao contrário, a propaganda contra a Igreja não deixa de citar as velhas acusações de agressão cultural e de conluio com os interesses das potências coloniais. Infelizmente, as pesquisas históricas sobre o período em questão são raras. Certas páginas da história ainda são um “campo minado”. Pe. Angelo Lazzarotto, do PIME, no artigo Rep. Pop. Cinese: Cultura, Politica e Religione: dialogo possibile? cita um exemplo sobre a revolta dos Boxer:
“Preparei uma relação sobre o perfil moral do missionário italiano Alberico Crescitelli, meu confrade, morto em 1900 e incluído pelo papa João Paulo II entre os 120 mártires canonizados em outubro de 2000. O exame de sua abundante correspondência e de seu modo de agir deixou-me convencido de sua mais absoluta inocência perante as graves acusações do regime de Pequim, na violenta campanha contra Roma. Querendo ouvir um estudioso chinês sobre a matéria, entreguei meu manuscrito a um professor de história contemporânea em uma importante universidade na China. Ele me respondeu, depois de certo tempo, com duas frases, apenas: ‘concordo com sua interpretação, mas não posso me expressar mais claramente’” (AsiaNews, fev. 2005, pág. n.º 33) UM “NOVO TIPO DE CRISTÃOS”? Dois fatores provavelmente incidirão sobre o desenvolvimento da Igreja na China: o emergir de uma geração de clero mais jovem, aberta, teologicamente bem preparada, capaz de se relacionar com todas as comunidades cristãs e o surgimento dos civil christians (cristãos comprometidos na esfera cívica). Eles formam as novas comunidades que encaram o agressivo desenvolvimento econômico da China atual. Proprietários ou funcionários de empresas privadas, são jovens com boa preparação cultural, abertos, ativos tanto no trabalho social como no eclesial.
Representam o maior sustento econômico da Igreja, onde também propõem a prática democrática na administração. Não temem mostrar seu status econômico e sua fé. Entendem-se com as autoridades políticas em nome da Igreja. Sustentam, organizam ou participam com entusiasmo do empenho social e da evangelização. Diferem dos tradicionais cristãos, geralmente iletrados ou idosos, que constituíam a maioria da população cristã chinesa. Uma sondagem da Universidade do Povo, de Pequim, concluiu que os universitários chineses chegam ao cristianismo através de livros, lições ou pesquisas acadêmicas. A maior parte dos estudantes cristãos afirma que seu caminho religioso começou depois que entraram na universidade, que pouco se identifica com a Igreja institucional. Para 50%, o encontro com o cristianismo se deu através do estudo da cultura ocidental, da arte ou da filosofia. O Município de Xangai recomendou, recentemente, a inclusão da leitura da bíblia no currículo das escolas secundárias. E consentiu a prática aberta da fé aos fiéis de diferentes religiões, entre as 5 atualmente reconhecidas na China. MISSIONÁRIOS PROTESTANTES Missionários protestantes chineses se preparam para evangelizar os muçulmanos do Oriente Médio. Arrojados, mas com pouca preparação teológica, colocam em risco toda a identidade cristã. Apesar do perigo, nas vivazes comunidades evangélicas há os otimistas, como o jovem intelectual Yu Jiu, de 30 anos, convertido há um ano, que espera mudanças políticas:
“Os cristãos deveriam empenhar-se mais para organizar protestos pacíficos, encorajar e mobilizar outros. Penso que isso seja mais importante do que converter as pessoas. Antes da minha conversão, eu tinha medo de ser perseguido. Agora sei que minha fé me torna capaz de suportar até a tortura”. A convicção de gente como Yu Jiu preocupa o Partido comunista chinês, que tem diante de si o espectro do colapso do comunismo na Europa oriental. Agora que a Falun Gong (seita religiosa, baseada na ginástica respiratória e espelhada no budismo e no taoísmo das mais remotas tradições chinesas) está em xeque na China, porque é “perniciosa” aos comunistas, há quem tema sejam as comunidades cristãs um perigo ao Partido único. O livro Jesus in Beijing predisse que, em 20 anos, quando a população cristã chegar a 20-30% do total, a China se tornará um país cristão. O governo chinês reagiu prontamente, fechando milhares de sites de Internet, acusados de “perniciosos” e “supersticiosos”. DIFICULDADES E ESPERANÇAS DA IGREJA CATÓLICA
A imprensa oficial propaga o marxismo e o ateísmo como “verdades científicas”. E influencia os jovens da zona rural, que não têm a chance de ouvir outras vozes. Mas, segundo Jin Luxian, bispo de Xangai, “o maior perigo não é tanto a propaganda do ateísmo, quanto a imperceptível invasão do consumismo, que insensibiliza a alma e ameaça também os cristãos”. Por trinta anos (de 1954 a 1984), anos que incluem o Vaticano II, todos os seminários, as escolas religiosas, as obras sociais e as iniciativas culturais, foram fechadas. Depois da liberalização, proposta por Deng Xiaoping, houve um recomeço prodigioso, graças à coragem e à dedicação dos sobreviventes da velha geração, porque recordavam a teologia estudada em latim. Ainda hoje, cerimônias religiosas são proibidas na mídia chinesa, porque são vistas como propaganda. Os livros religiosos, censurados pelo Estado, só podem ser vendidos nos lugares de culto. Portanto, a Igreja chinesa não pode propor um “programa cultural” ao grande público, em resposta à sistemática difusão do materialismo ateu por parte do Estado. Conseqüentemente, à Igreja chinesa faltam estruturas adequadas para formar cristãos às novas exigências e para acolher os que querem respostas às grandes interrogações da vida. A tradicional evangelização não responde a mais nada. Atualmente, seminaristas, sacerdotes e freiras usufruem de bolsas de estudo e se preparam melhor, nos EUA e na Europa, para a nova realidade chinesa. Entre os bispos sagrados em 2004, todos jovens entre 33 e 46 anos, há mais de um que dispõe de outro diploma em nível superior. O mais difícil é a qualificação de leigos para específicos serviços eclesiais. Desde janeiro de 2003, o programa “Raio de Esperança” sensibiliza e educa o povo a respeito do flagelo da aids, organizando encontros em províncias, com a participação de organismos especializados estrangeiros. Entidades sociais católicas já atuam em Xian, Pequim, Tianjin, Shenyang e Xangai. Nesta área é preciosa a contribuição das freiras. Elas dirigem cerca de vinte orfanatos e uma centena de ambulatórios rurais. Irmã Fabiana Han Fengxia, da Congregação do Coração Imaculado de Maria, declarou: “Não é fácil para os chineses, que sofreram a Revolução Cultural, crer no que dizemos. Mas o nosso modo de agir os convence que a religião pode influir positivamente em sua vida”. MOVENDO-SE COM FÉ NOS ESPAÇOS EXISTENTES Os espaços concedidos às Igrejas na China são estreitos. Um dos seus bispos, porém, declarou: “Tudo está nas mãos de Deus... apenas para o bem da Igreja. O grande esforço para aumentar o controle do Estado sobre a Igreja de nada valerá. Pelo contrário, fará com que a Igreja se torne mais consciente e mais unida. O futuro é luminoso. Devemos aguardar tranqüilamente a graça de Deus. Esse tempo não está muito próximo, e nem distante”. Pe. Angelo Lazzarotto termina o artigo Il futuro dei cristiani nel contesto culturale della Cina che cresce, dizendo que “o peso do colosso chinês será determinante para a futura ordem mundial, e pode ser visto como um pesadelo de muitos cientistas políticos.
Os cristãos estão conscientes e, acreditando que a Providência tem desígnios positivos para a humanidade, não devem ficar inertes. Antes de tudo, é importante expressar solidariedade aos irmãos cristãos da China, contribuindo com seus projetos de crescimento e de empenho social de forma consentida. Em segundo lugar, devem sustentar e dar visibilidade às iniciativas dos organismos que se batem em defesa dos direitos humanos na China, convencidos que uma autêntica liberdade religiosa só poderá acontecer, na medida em que a pessoa humana for reconhecida como o centro dos verdadeiros interesses da sociedade. Em terceiro lugar, é importante que os intelectuais católicos do Ocidente levem a sério a possibilidade de colaborar em um diálogo construtivo com os numerosos intelectuais que, também da China, se batem por esses autênticos valores humanos” (AsiaNews, março de 2005, pág. n.º 32) EDUCAÇÃO
PARA O MARXISMO E O ATEÍSMO
Não esquecer que: 1. A religião, especialmente o cristianismo, é
“importante componente da estratégia global do Ocidente contra
a China”; Citado em AsiaNews, março de 2005, pág. 28 O ESTADO EM MÃOS DE TÉCNICOS Os dirigentes máximos da China, os nove integrantes do Comitê Permanente do Politburo, começaram a ser escolhidos e treinados em 1980, conforme relata o livro China’s New Rulers, de Andrew Nathan e Bruce Gilley. Deng pediu ao partido que selecionasse, nas províncias, “jovens” de até 49 anos, que fossem formados em universidade, trabalhassem em ramos técnicos, em engenharia ou em direito, já tivessem demonstrado capacidade gerencial em órgãos estatais e fossem leais ao partido. Esses jovens foram subindo pelas hierarquias regionais até chegar à cúpula do governo chinês, por meio de um processo racional de seleção. Usam gravatas, não cospem em escarradeiras como seus antecessores, conhecem outros países onde muitos deles estudaram, têm diploma universitário, lidam bem com estatísticas e estratégias gerenciais. A idéia era fazer promoções meritocráticas e não ideológicas. O mandato dos líderes dura cinco anos e é renovável por mais cinco. Ao fim, voltam para casa. Já se conhecem os nomes dos que assumirão o poder em 2012. Para os novos líderes, a luta de classes foi substituída pela luta em prol da produção e da produtividade. Eles fazem uma clara distinção entre partido e Estado. Estão empenhados em reduzir cada vez mais a estatização. Foram formados num ambiente em que as regiões e as empresas ganham autonomia crescente. Trocaram a crença em slogans religiosos por incentivos materiais”. (Rev. VEJA, ed. 1.920, 31 de agosto de 2005, pág. n.º 72) ESTATÍSTICAS SOBRE O CATOLICISMO NA CHINA
• Mais de 6 mil igrejas IGREJA
CLANDESTINA • 46 bispos, 1.000 sacerdotes (200 são muito
idosos) Fonte: AsiaNews, março, 2005 |
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