Revista "MUNDO e MISSÃO"
Igreja no Mundo - Ásia
Pe. Filippo Commissari é missionário do PIME em Hong Kong há mais de 25 anos. De passagem pelo Brasil, concedeu breve entrevista à redação de Mundo e Missão sobre a situação atual da cidade depois da sua anexação à República Popular da China. da Redação M.M.: Como se apresenta hoje Hong Kong sob o aspecto econômico?
Em 97, muitas indústrias foram transferidas de Hong Kong para o interior da China, onde a mão-de-obra é muito mais barata. E essa foi a origem da crise em Hong Kong, ocasionando um expressivo aumento do desemprego. Hong Kong mantém-se ainda como potência econômica porque, se as fábricas saíram, a maioria dos seus escritórios permaneceu na cidade. Um dos fatores da crise foi a queda do turismo porque, em anos anteriores, os estrangeiros iam a Hong Kong para fazer compras a preços muito convidativos. Agora, a vantagem econômica se encontra em Cantão, Xangai... M.M.: E sob o aspecto político? – Na época em que Mao Tsé-Tung tomou o poder, nos anos 50, uma massa enorme de chineses fugiu para Hong Kong e lá surgiram favelas muito extensas. A Igreja católica, com a ajuda da Cáritas, das igrejas protestantes e de outras organizações internacionais, ofereceu casa, escola, alimento,.. a essas pessoas. Mais tarde, o poderio inglês interveio para explorar essa massa de migrantes e fazer de Hong Kong uma potência comercial. Isso aconteceu entre os anos 70 e 80. Em 1990, foi confirmado o contrato amigável entre Londres e Pequim para o retorno da ex-colônia à China em 1997. Sob o aspecto político, passamos do domínio inglês ao domínio de Pequim. Para os chineses foi melhor assim, porque eles se sentiram de volta para casa, ainda que, sob o aspecto industrial e comercial, sofressem o impacto da crise. O contrato assinado entre Londres e Pequim deverá ter validade por um período de 50 anos. Tudo o que tinha sido construído e implantado pelo governo inglês: escolas, hospitais, igrejas, Cáritas (que é a maior agência social), vai ficar. Naturalmente, a cada ano, nascem novos problemas porque, anteriormente, era a rainha da Inglaterra quem decidia tais questões. Agora é Pequim. As coisas estão mudando, embora as autoridades digam que querem respeitar o contrato. Um sinal de mudança são as escolas católicas. Nelas temos 300.000 estudantes. Elas nasceram nas décadas de 60 e 70, época em que o governo precisava de tudo e quase todas as escolas diocesanas eram subsidiadas pelo Estado. A Igreja escolhia os educadores e o material pedagógico. Mas os diretores, os professores e todos os funcionários eram pagos pelo Estado. Agora o governo chinês começa a controlar tudo e a cortar os subsídios: o objetivo é colocar as escolas sob o seu controle administrativo. Dentro de cada escola, começaram a se formar comissões para o ingresso de representantes dos pais, para realizar seus planos. Nosso bispo, Joseph Zen, denuncia essa intromissão com muita força e clareza, dizendo que o plano é comunista e, se continuar nesse ritmo, em pouco tempo a Igreja perderá suas escolas.
Infelizmente, nos campos educacionais e pedagógicos, não há unidade perfeita dentro da Igreja católica. As escolas dos grandes institutos religiosos (jesuítas, salesianos, canossianos...) não se sentem intimidados como o bispo Zen e há a impressão que o prelado esteja denunciando em vão. Tais institutos dizem que a situação não é tão grave como o bispo afirma. O mesmo pensam as outras igrejas cristãs. O bispo anglicano, que é chinês, disse ao nosso bispo: “Não tenha medo. Se o governo quer assumir toda a direção das instituições escolares, está apenas cumprindo seu dever. Nós já estamos preparados a lhe entregar todas a escolas”. M.M.: Qual a diferença entre o governo inglês e o chinês? – O governo de Pequim não recuou no que diz respeito à organização administrativa de Hong Kong. Sob o domínio inglês, nunca chegamos a uma verdadeira democracia. O governador era um pequeno imperador, embora mantivesse duas câmaras, que não dispunham de poder decisório. Agora, o governador é nomeado por Pequim. Foi criada uma comissão de 400 representantes do povo que, porém, são pró-comunistas. Só 20% deles podem ser eleitos pelo povo. A grande batalha, nesses dias, é que eles querem implantar a democracia em Hong Kong, com a possibilidade de eleger seu governador entre 2007 e 2008. Mas Pequim disse claramente que isso não será possível.
No dia primeiro de julho, data que comemora a retomada de Hong Kong pela China, meio milhão de pessoas se manifestaram contra aquele projeto de lei. Amedrontado, o governo precisou recuar. É claro que o povo prefere Pequim aos ingleses. Porém, quer sua identidade própria, diferente da que existe na China continental. Nesse aspecto, tem algo em comum com Taiwan. Hong Kong faz parte da China, assim como Taiwan que, porém, conquistou sua autonomia. M.M.: Antigamente, Hong Kong era a ponta de lança capitalista. E agora? – Na China não existe mais o comunismo histórico, ortodoxo, de Mao Tsé-Tung. Ele queria fazer a distribuição de todos os bens no mesmo patamar, nivelando indistintamente a todos. Era uma igualdade social imposta, que evidentemente faliu. Agora Pequim segue a linha do capitalismo desenfreado. M.M.: A Igreja sofre alguma limitação? – A Igreja é livre em Hong Kong. Exercemos todas as nossas atividades, associações, catequese, catecumenatos. Mais de 2000 adultos são batizados anualmente. Infelizmente há carência de vocações entre o clero chinês. É uma crise provocada sobretudo pela mentalidade consumista. E a diminuição do número de filhos por casal, por exemplo, repercute negativamente no incremento de novas vocações. |
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