Revista "MUNDO e MISSÃO"
Igreja no Mundo - Ásia
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Algo mudou em Macau depois que voltou
a por Alberto Garuti
Fale um pouco de como é seu trabalho em Macau. - Estou na China há 9 anos. Depois de passar um tempo em Hong Kong para estudar a língua chinesa, fui para Macau onde continuo o estudo da língua e trabalho numa paróquia com os padres diocesanos. Já consigo celebrar a Missa, fazer casamentos e batizados em língua chinesa, o que não é pouca coisa. Já comecei também os primeiros trabalhos nas atividades pastorais da paróquia. Inicialmente, tomei contato com os grupos mais tradicionais que já existiam, como a Legião de Maria e os grupos de idosos, mas, em seguida, comecei a organizar grupos de jovens e o trabalho com o catecumenato, isto é, a preparação dos adultos que querem se tornar cristãos. Em Macau, os cristãos são uma minoria, somente 2%, e, por isso, o nosso trabalho mais importante é o contato com os não-cristãos. Por que os cristãos são tão poucos, se o cristianismo chegou a Macau há quinhentos anos? - Os primeiros padres que chegaram eram padres diocesanos portugueses e foram para lá para cuidar da comunidade portuguesa presente na cidade. O verdadeiro trabalho missionário começou mais tarde, com a chegada dos padres jesuítas. Eles trabalharam diretamente com os chineses e assim nasceram duas comunidades separadas, a chinesa e a portuguesa, que se encontram somente quando há procissão, por exemplo, na festa de N.S. de Fátima e na procissão do Cristo morto na Sexta-Feira Santa. Nessas ocasiões, as celebrações são feitas nas duas línguas. Quanto ao resto, o trabalho nas duas comunidades é diferente. Macau foi, durante muito tempo, a porta de entrada para a China para muitos missionários. Pe. Matteo Ricci e muitos outros grandes missionários passaram por lá. Quando os missionários foram expulsos da China por Mao Tsetung, muitos deles saíram de lá. Vários ficaram em Macau e alguns estão até hoje, idosos, mas com vontade de voltar à China. Quantos são os cristãos em números absolutos? - Cerca de 15 mil, num total de meio milhão de habitantes. Digo 15 mil batizados, pois quando vamos às comunidades, vemos que o número dos que participam é bem menor. A diocese de Hong Kong se caracteriza por um grande número de escolas católicas e também pelo grande trabalho realizado pela Cáritas. Macau também? - Também. Há colégios, a Cáritas e outra organização assistencial ligada à diocese que tem muitos asilos, orfanatos e outras obras de caridade. 90% das pessoas que são atendidas por essas organizações não são católicas. Em 1999, Macau deixou de ser administrada por Portugal e passou a integrar a República Popular da China. Alguma coisa mudou em Macau depois dessa data? - Mudou a administração. Agora o governador é chinês e ele, por sinal, fez um bom trabalho até agora. Houve uma grande mudança. Todos os serviços públicos estavam nas mãos dos portugueses, falava-se português. Agora estão todos nas mãos dos chineses e fala-se chinês. Os portugueses que moravam em Macau foram todos embora? - Muitos foram, um pouco por medo das conseqüências, das mudanças drásticas que eles pensavam que seriam realizadas, e com eles foram também muitos mestiços, filhos de portugueses e de chineses, mas estes, na maioria, voltaram logo. Eles tinham ido a Portugal, pensando que achariam emprego, mas a decepção foi muito grande. Em Macau eram considerados uma classe diferente de chineses, uma classe alta, ao passo que em Portugal eram considerados só como mestiços. Muitos deles não se sentiram à vontade também por não falar bem o português. Por isso, muitos deles estão voltando, pouco a pouco. Houve outras mudanças? - Houve. Por exemplo, a Igreja de Macau deixou de ser ligada ao sistema do padroado português. Antes dependíamos em tudo de Portugal: o salário dos padres era pago por Portugal, toda a formação era portuguesa. Agora a diocese está começando a caminhar com suas próprias pernas e em pouco tempo irá adquirir uma identidade própria, coisa que não tinha antes.
Hong Kong, antes da anexação à
China, era um grande centro industrial e comercial. - Macau não tinha nada de parecido com Hong Kong. Macau viveu, e vive até hoje, do jogo, do cassino. É o único lugar da região onde o jogo é livre. Há um pouco de turismo também e algumas fábricas que, hoje, começam a fechar e a se transferir para a China, pois lá os salários dos trabalhadores são muito mais baixos. Então Macau está decaindo? - Bastante e não só Macau. Toda a situação econômica da região está caindo. Hong Kong também. Agora o grande centro industrial e comercial é Xangai. O que mudou então nas relações entre a Igreja Católica e o governo? - Estou falando do governo de Macau. Depois falaremos do governo chinês. Agora o bispo se tornou muito mais independente do governador. Antes da transição, o bispo sempre estava presente em todas as funções públicas, o governador saía do território e o bispo tinha de ir ao aeroporto, quando chegava tinha de recebê-lo, se houvesse alguma cerimônia importante, o bispo estava lá. E isso acarretava alguma conseqüência para a Igreja, por exemplo, o bispo nunca tocou numa questão social ou numa questão política, sempre mantendo uma relação de respeito ao governador. Agora tudo isso acabou. Quais são as relações com o atual governo? - Não tem tido interferência do governo nos negócios religiosos. Nós podemos trabalhar livremente no território e não houve, até agora, nenhuma dificuldade para a obtenção do visto de entrada. As pessoas de Macau podem ir para o interior da China livremente. E os chineses do interior podem ir livremente a Macau? - Não, pois eles não têm essa liberdade. Os de Macau podem ir livremente para a China, mas não vice-versa. Macau não está aberta aos outros chineses. Eles precisam de visto especial da região de onde vêm ou de um contrato de trabalho. Mas é difícil. Alguns preferem ir a Macau com um grupo de turistas, depois fogem do grupo e se escondem na cidade e lá permanecem, mas às escondidas. Se conseguirem um emprego, por exemplo de empregada doméstica, têm que ficar sempre na casa onde trabalham, sem sair à rua, porque se forem presos são deportados imediatamente para o lugar de origem. Há um grande número de pessoas que fazem isso. Naturalmente, o empregador explora o medo dessas pessoas e não as trata bem, especialmente quanto ao salário. Isso vale para as empregadas domésticas e para aqueles que conseguem entrar nas fábricas. É a mesma coisa. Mas, se as coisas são assim, por que eles vão para Macau?
- Porque compensa, apesar de todos os sacrifícios. O que ganham em dois meses em Macau não ganhariam na China, trabalhando o ano inteiro. Em geral, eles mandam o dinheiro para casa, para ajudar a família. O trabalho ilegal é muito ruim para as pessoas, mas é único jeito que muitos têm para sobreviver. Conheci uma pessoa que me disse: "Eu não gosto, mas preciso me sujeitar a esse trabalho, porque a minha família depende do que eu mando." Não existem em Macau trabalhadores chineses, do continente, com contrato legal de trabalho? - Existem, mas são poucos. Os empregadores seguram os documentos deles e assim não têm liberdade de ir e vir da China. Só o fazem quando o patrão diz: "Pode ir". Em Macau, e na China em geral, não existe o mês de férias, só uma semana, no novo ano chinês. E não existe nem sábado nem domingo. É trabalho direto todos os dias. Não existem nem as oito horas regulamentares. Quando o trabalho acumula, tem gente que trabalha 10 ou até 15 horas. Ao meio-dia não tem parada para o almoço. A fábrica oferece um pequeno lanche que é comido ali mesmo e o trabalho logo continua. E onde vivem esses trabalhadores legalmente contratados? - Vivem em pequenos apartamentos situados em prédios velhos e quebrados. São apartamentos para cinco pessoas e em cada um deles vivem até quinze pessoas, todas amontoadas. Chegam à casa por volta das 10 horas da noite. Mas. antes de dormir, têm que fazer fila para o banheiro, que é um só e fila para cozinhar sua panelinha de arroz no único fogão. Quando conseguem dormir, já passou da meia-noite e de manhã, às 7 horas, já devem estar na fábrica. Existe uma pastoral do trabalho? - Existe, mas você entende que o único meio que temos de entrar em contato com eles, não havendo nunca um dia de descanso sequer, é ir ao apartamento deles, por volta das 10 ou 11 horas da noite Ali ficamos conversando um pouco, conhecendo a realidade e tentando organizar alguma atividade para quando houver algum meio-dia livre. E há algum meio-dia livre? - De vez em quando. Quando numa fábrica as encomendam diminuem, aí o empregador dá um meio-dia livre, mas isso acontece poucas vezes. Aí nós aproveitamos para alguma reunião da Pastoral Operária ou até para uns instantes de lazer. Por exemplo, levamos essas pessoas para conhecer a cidade, pois elas correm o risco de permanecer aqui três anos e não conhecer nada de Macau, pelo fato de não terem um minuto livre. Geralmente, essas pessoas, na maioria, não são cristãs. Quando deixam Macau e voltam para sua cidade, nós as aconselhamos a se apresentarem para ao padre e continuarem assim sua formação cristã e sua eventual preparação para o batismo. Quando visitamos os apartamentos, vamos sempre num grupo de 3 ou 4 pessoas. Nosso objetivo, vistos os poucos contatos que podemos ter, é despertar o interesse e a vontade de conhecer Jesus Cristo e o cristianismo. O trabalho será continuado na cidade de origem. (Na segunda parte da
entrevista, que será publicada no |
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