Revista "MUNDO e MISSÃO"

Igreja no Mundo - Ásia

problema principal é que nós, cristãos da Terra Santa, não estamos plenamente conscientes da nossa missão. Precisamos, antes de tudo, recuperar a razão profunda da nossa presença naquela terra. Se é verdade que fazemos parte daquela grande realidade que é a Igreja universal, então devemos entender que não nascemos por acaso". Sobhy Makhoul salienta bem o seu mea culpa, alheio ao burburinho do bar, onde marcamos o nosso encontro. Católico de rito maronita e professor de Teologia na Universidade de Belém, prepara-se para voltar a Jerusalém depois de quatro meses na Itália, entre a Sicília e o Vale d´Aosta, explicando como ajudar os cristãos a permanecerem na Terra Santa. Um verdadeiro desafio, mesmo para um "peso pesado" como ele. Seria um sinal o fato de ter nascido em São João do Acri, a última fortaleza das Cruzadas?

As últimas estatísticas apresentam 280 famílias cristãs que emigraram nos primeiros 18 meses da Intifada. Também entre os muçulmanos se verifica esse fenômeno?

- Não nas mesmas proporções. O sentimento de pertença dos muçulmanos à terra é mais forte que o dos cristãos. Para os muçulmanos é a sua presença que confere à terra um caráter islâmico. Já os cristãos, acrescentam às angústias que sofrem todos os palestinos (violências, bloqueio hermético dos territórios, toque de recolher) outras ainda. Vivem uma tragédia dentro da tragédia. E, então, fazem quase sempre a escolha mais fácil: a emigração. Isso é válido não só para os cristãos palestinos, mas também para os libaneses, iraquianos, sírios. Como se explica que no Chile, a população originária de Belém seja três vezes aquela que ainda reside na cidade? Ou mesmo, que cerca de um quarto dos prófugos fugidos do Iraque, em doze anos de embargo, sejam cristãos, quando estes constituem apenas 3% da população?

Obviamente, não é suficiente dizer aos cristãos que permaneçam para convencê-los. Como se pode ajudar o "resto" do povo cristão? Com o envio de fundos?

- A experiência do passado nos ajudou a encarar diferentemente as nossas dificuldades. O modo como foi oferecida a ajuda, anteriormente, foi um prejuízo educativo para muitos da nossa gente: receber dinheiro e bens materiais, sem nada em troca, habituou-os ao assistencialismo. A culpa não é de quem doa, mas é uma falha de quem recebe. Nós gostaríamos, ao invés, de educar tendo em vista o trabalho, a dignidade humana. Portanto, aprovamos a ajuda, mas somente se tiver um objetivo definido. É importante também incentivar as diversas instituições católicas a elaborarem projetos em parceria, ao invés de isoladamente, buscando a manutenção da presença cristã.


Transporte da Torah em Jerusalém

Alguns sustentam que a crise econômica destes meses atingiu principalmente os cristãos...

- É verdade. A grande maioria dos cristãos de Belém, trabalha na área dos serviços turísticos e na organização de peregrinações, há gerações. Mas, desde quando eclodiu a Intifada, em setembro de 2000, a presença dos peregrinos diminuiu em 95%. Isso significa que muitos perderam o trabalho e que ninguém pode adquirir seus produtos artesanais. Quem conseguiu, deixou o país à procura de outro lugar para poder viver com dignidade. Outros se preparam para sair. Muitos não têm condições e passam fome. Tudo isso é um problema. Mais ainda, um duplo problema para toda a Igreja.

O que significa um "duplo problema?"

- O primeiro se refere à necessidade de garantir a sobrevivência desses irmãos. O outro corresponde a uma emigração que assume sempre mais as características de uma verdadeira hemorragia. Não consigo aceitar a idéia de que, depois de dois milênios, na terra de Jesus, restem poucos cristãos guardiões de pedra. Estou convencido de que o Senhor nos deu uma missão a ser cumprida justamente aí: amenizar os atritos entre israelenses e palestinos e conciliar muçulmanos e judeus. Isso só os cristãos podem fazer. Aquilo que impede a paz, de fato, é a incapacidade de perdoar e a obstinação em nutrir ódios vingativos, seja da parte dos muçulmanos que dos judeus. Se não há perdão, não pode haver verdadeira paz; se continuam a cultivar os rancores, a recordar e a repetir os desentendimentos, não haverá diálogo. Qualquer paz será fictícia e ficará somente no papel.

E é por isso que a intenção é favorecer a permanência dos cristãos através do trabalho?

- Exatamente. A nossa iniciativa "Obras da fé Belém" colabora diretamente com centenas de artesãos de Belém, Beit-Jala e Beit-Sahur. Combinamos: "Os peregrinos não podem vir a nós? Então, vamos até eles". Os produtos artesanais dessas localidades agora são vendidos no exterior e também na Itália. Envolvemos também os albergueiros, que agora estão desocupados, ensinando-lhes como fabricar rosários de oliveira.


Árabe no pátio da Mesquita de Omar

E, concretamente, de que modo os cristãos se tornam "ponte" entre os dois povos e religiões?

- Por exemplo, no campo da educação. Basta examinar os textos escolares de História ou de Educação Religiosa, em uso nas escolas palestinas e israelenses, para constatar como se apresenta "a outra parte". Aqueles redigidos por cristãos insistem sobre o valor do perdão e expõem, de modo objetivo, os fatos históricos - os outros, muito menos. Pelo contrário, diria que educam os próprios jovens ao ódio. A convivência pacífica não é possível, quando se vive lado a lado, mas continuando a odiar-se. O perdão é, portanto, um elemento imprescindível para uma convivência pacífica e nós podemos testemunhar que isso é possível. O que não significa menosprezar a justiça.

Os bispos franceses citaram, entre as ações possíveis para ajudar os cristãos da Terra Santa, a doação de um ano ou dois da própria vida para trabalhar em projetos de cooperação.

- É uma boa idéia, mas gostaria de lembrar que na Terra Santa estão presentes muitas congregações, com centenas de frades e freiras. Infelizmente, muitos estão ali por puro "egoísmo": para aprofundar os estudos bíblicos ou mesmo por uma atração pela terra de Jesus. Somente uma minoria, entre eles, os frades franciscanos, falam árabe e estão empenhados em favorecer o crescimento e a educação pastoral da comunidade local. Talvez seja importante refletir a respeito.

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