Revista "MUNDO e MISSÃO"

Igreja no Mundo - Ásia

por José Francisco Gomes

PRIMEIROS CONTATOS COM BRASILEIROS
DEKASSEGUI NO JAPÃO

nquanto aprendia a língua japonesa, ainda no meu primeiro ano no Japão, eu saía com o padre Domenico Ciserani para visitar a comunidade de brasileiros, descendentes de japoneses, de nisseis (filhos de japoneses) ou de sanseis (netos de japoneses), chamados dekassegui. São brasileiros que, isoladamente ou com a família, acorreram ao Japão em busca de trabalho. Outros continuam a chegar em grande número. Eles já são o terceiro grupo estrangeiro mais numeroso no Japão, com quase 200.000 indivíduos.

Na diocese de Yokohama, 40% dos cristãos são brasileiros. Mas os que participam dos sacramentos não chegam a 10%. Alguns alegam que não sabem onde está a igreja. Outros sabem, mas não freqüentam a comunidade, devido ao trabalho, por falta de tempo ou de fé. No segundo ano, a pedido do bispo da sede regional, iniciei o trabalho com brasileiros. Ficava dois finais de semana na paróquia, com japoneses e filipinos, porque já conhecia melhor a língua japonesa, e outros dois com os dekassegui de quatro paróquias, em três províncias da diocese de Yokohama.

AÇÃO PASTORAL

Não é só rezar a Missa. Sem o apoio de catequistas e de outros, você tem que fazer o trabalho completo:

- preparar para o batismo, para o matrimônio, atender confissões, celebrar a Missa e os demais sacramentos... Algumas comunidades têm até cento e cinqüenta pessoas e você tem que dar assistência pessoal e contínua a cada uma delas. Então, formamos uma equipe para preparar lideranças dekassegui: eu, o Pe. Higa, salesiano, com mais de dez anos na diocese, o padre Carlos Botura, sacerdote diocesano fidei donum, de Mato Grosso, em contrato de três anos com a diocese, e Tereza, freira carmelita, que, apesar da ordem, pertence às Irmãs Franciscanas de São José.


Pe. José Francisco com o pároco e jovens participantes da comunidade

A religiosa é japonesa, mas viveu mais de quarenta anos no Brasil, onde cresceu, descobriu sua vocação, tornou-se freira, para retornar posteriormente ao Japão. A equipe forma lideranças e catequistas dekassegui. Cada membro se responsabiliza por um setor, no qual desenvolve temas. Eu ensino sobre os sacramentos; Pe. Carlos, preocupa-se com a formação bíblica; irmã Tereza, responde pela espiritualidade e pastoral, e assim por diante. Nós nos reunimos com catequistas e líderes das comunidades de várias paróquias das dioceses de Tóquio, Saitama e Yokohama, em todos os meses que têm o quinto domingo, ou seja: de três em três meses. O pessoal já começa a nos ajudar na preparação para o batismo, na catequese de primeira comunhão, crisma...

COMUNIDADE ITINERANTE

O dekassegui vai ao Japão em busca de trabalho. São descendentes de japoneses, ou pessoas casadas com japoneses, ou – ainda – brasileiros contratados por firmas japonesas. Com o dinheiro ganho, a maioria volta ao Brasil e monta o próprio negócio, compra casa própria, adquire carro ou investe em alguma atividade no país. O problema é que, como são itinerantes, muitos não estudam a língua japonesa, que poderia ajudá-los na sociedade ou na vida comunitária, na vida paroquial. Não sabendo a língua, têm problemas para relacionar-se com os nativos e participar das Missas dominicais, celebradas em japonês.

Há também os que vão e vêm, mas voltam de novo, porque perderam o investimento feito no Brasil. Formam família no Japão. Nem sempre falam o japonês, mas seus filhos nascem lá, sem ser brasileiros ou japoneses. As crianças não aprendem direito nenhuma das línguas e perdem o referencial cultural. Para ajudar seus pais nesse problema social a presença missionária também é importante. Os sacerdotes japoneses bem que poderiam ajudá-los, ... se soubessem falar português ou espanhol. Se não são os missionários, os brasileiros ficam lá como ovelhas sem pastor, meio abandonadas.

Aí vêm as seitas, que já invadem o país com universidades para formar pastores, como a Igreja Universal do Reino de Deus, por exemplo, e fazem o seu eficiente trabalho proselitista. Na diocese de Yokohama somos somente três padres brasileiros, que já citei. Nas dioceses do centro (Tóquio, Saitama, Osaka, Kyoto e Nagoia) existem outros padres brasileiros e não-brasileiros, por exemplo, peruanos e japoneses que estão fazendo esse trabalho. A gente que trabalha com estrangeiros, sobretudo com brasileiros, peruanos e filipinos, se encontra uma vez por ano, durante três dias, para discutir, partilhar experiências, ver as dificuldades...

Isso tem dado muito resultado. Esse trabalho já absorve todo o tempo do missionário... Mas não é suficiente. Todo missionário deve dominar a língua japonesa, cuja estrutura é – de fato – muito difícil para os ocidentais. Há mais de dois mil ideogramas oficiais. Um missionário que não conhece a língua do povo é um missionário pela metade, porque o testemunho é importante, mas também o anúncio, feito de palavras, é essencial. Eu, por exemplo, depois de ter freqüentado dois anos de escola, para aprender a língua, tive duas aulas particulares por semana, durante quase meio ano.

A PREOCUPAÇÃO DO EPISCOPADO


Pe. José Francisco com alguns dekassegui

Os bispos estão preocupados porque vêem, agora que o Japão sai de mais uma crise econômica (mas entra em crise política com a China), que aumentam estrangeiros e que podem ficar sem pastor, absorvidos por seitas locais ou pelos evangélicos. Na diocese de Saitama, 80% dos habitantes são estrangeiros. O seu bispo, Marcelino Tani, criou a “Igreja multicultural”, formada por japoneses, filipinos, brasileiros, peruanos... Ele quer um novo modelo de Igreja e ainda não sabe como ela será no futuro, mas já deu os primeiros passos.

Apresentou um questionário aos padres a respeito dos estrangeiros. Responsável pelos estrangeiros perante a Conferência Episcopal Japonesa, ele veio ao Brasil e ao Peru, em outubro do ano passado, em busca de padres. Além disso, enviou sacerdotes da diocese ao Brasil, para estudar o português. O padre Yamaguti, com quem trabalhei, estudou português no Brasil, por dois anos, e retornou ao Japão para trabalhar com os dekassegui. Na diocese, há também uma open house (casa aberta), onde uma freira ou um padre acompanham cada grupo estrangeiro.

AS CELEBRAÇÕES EM AMBIENTE MULTICULTURAL

Nas pequenas paróquias, celebra-se mensalmente uma Missa em português e inglês. Em paróquias maiores celebra-se, uma ou duas vezes por mês, a Missa Internacional, em que se reza em japonês, inglês, português e espanhol. Eu fazia a homilia em japonês, inglês e português na paróquia de Mokas, onde as leituras também são feitas em várias línguas. Na paróquia, os católicos japoneses são 15; os brasileiros, mais de 60. No Natal e Páscoa, são mais de 90. No entanto, 1.400 brasileiros estão registrados na prefeitura. Cinco famílias de filipinos, duas de coreanos e alguns peruanos completam a comunidade.

Pe. José Francisco Gomes (gomesjf@yahoo.com)

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