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A China também tem seus santos
Alberto Garuti
No dia primeiro de outubro, o papa João Paulo II canonizou 120
mártires da China, 33 missionários estrangeiros e 87 chineses,
sacerdotes e leigos. Quem são esses mártires e que significado
tem essa canonização?
Esses mártires são representativos de todos os cristãos
da Igreja da China: entre eles há bispos, padres, religiosos, catequistas,
virgens, membros de Ordens terceiras, famílias inteiras com idosos,
pais, jovens, adolescentes e crianças. Essa lista representa somente
uma pequena parte dos que deram a vida testemunhando Cristo neste país.
A lista completa compreende milhares de pessoas.
Os mártires chineses na história
Dos 120 canonizados, 86 foram mortos em 1900, durante a revolta dos boxers,
uma seita secreta que se distinguiu pelo nacionalismo radical e pelo ódio
e perseguição a todo estrangeiro, inclusive aos chineses
que tinham seguido a religião que vinha de fora, o cristianismo.
Os outros 34 foram mortos em épocas diferentes, durante o século
XIX, excetuado o primeiro, pe. Francisco Capillas, assassinado em 1648.
Mas, falando em mártires da China, não podemos esquecer
o grande número, por enquanto indefinido, dos que sofreram e morreram
nas prisões durante a revolução iniciada por Mao
Tse tung e que atingiu o auge durante a revolução cultural,
perseguição que ainda não terminou, somente abrandou.
Por que, então, houve perseguições antes da chegada
do comunismo? Durante o império chinês, pouco a pouco, soberania
nacional, ordem política e doutrina de Confúcio, interpretada
da maneira mais tradicional e conservadora, foram se confundindo. Tudo
o que não era conforme a doutrina podia ser visto como uma ameaça
à soberania: no século IX, até o budismo sofreu perseguições.
Era comum a suspeita de que uma doutrina vinda de fora pudesse ser uma
ameaça à segurança nacional. Eis, como exemplo, o
que aconteceu com um dos 120 mártires recém canonizados.
José Yuan (1766-1817), denunciado por uma cristã a quem
tinha feito algumas repreensões, assim descreve seu processo: "Fui
interrogado a respeito da oração do Pai Nosso e da frase
"venha a nós o vosso reino". Segundo o chefe de polícia,
estava claro que os europeus queriam apoderar-se do reino da China e,
por causa dessa frase do Pai Nosso, recebi 20 chicotadas. Em seguida,
me fizeram permanecer de joelho, durante muito tempo, em cima de uma corrente
de ferro e, depois, em cima de pedras pontudas". Mais tarde, José
foi estrangulado.
A partir dessas premissas, o fato de os cristãos serem perseguidos
ou deixados em paz dependia muito da tolerância dos vários
imperadores ou do zelo dos mandarins regionais, preocupados em ganhar
a simpatia do imperador.
A canonização dos mártires da China
Os cristãos da China esperavam, há bastante tempo, que
seus bem-aventurados mártires fossem canonizados. Quando o papa
foi a Seul, na Coréia do Sul, canonizou os mártires daquele
país. Em 1988, em Roma, fez a mesma coisa com os mártires
do Vietnã. O Japão e as Filipinas também já
tinham seus santos mártires. Somente a China, embora tivesse sido
o primeiro país, no Extremo Oriente, a ser evangelizado (pelo padre
Giovanni da Montecorvino em 1300) era o único a não ter
ainda seus mártires reconhecidos como santos.
Em 1996, o papa declarou santo o padre Gabriel Perboyre, missionário
que foi martirizado na China e que se tornou o primeiro santo daquele
país, mas ele era francês. Naquela ocasião, os bispos
chineses de Taiwan que estiveram em Roma pediram ao papa que declarasse
logo santos um grupos de mártires da China, que há quase
um século eram bem-aventurados. O papa garantiu que isso aconteceria
em breve, sem porém fixar a data. Finalmente, em março de
2000, essa data foi fixada para primeiro de outubro desse mesmo ano e
houve motivos para a escolha desse dia.
No ano jubilar, fez-se o balanço de 2 mil anos de história
cristã. Com a ca-nonização dos 120 bem-aventurados
mártires da China o papa quis marcar mais uma vez a característica
de universalidade da Igreja católica. Primeiro de outubro é
o dia de santa Terezinha, padroeira das missões, que se preocupou
muito com a China e cuja espiritualidade influenciou a vida de muitos
católicos chineses. Enfim, é a festa nacional da China,
o aniversário da libertação realizada por Mao Tse
Tung e da proclamação da República Popular da China.
Quem escolheu essa data pensava que os cristãos chineses teriam
a chance de manifestar, ao mesmo tempo, "seu amor pelo país
e pela religião", para usar uma expressão corriqueira
na linguagem oficial.
As reações do governo chinês
Infelizmente, as reações do governo chinês não
foram bem essas. As autoridades chinesas, não distinguindo o trabalho
dos missionários da ação dos colonizadores estrangeiros
dos séculos passados, julgaram uma ofensa ao povo a canonização
dessas pessoas que para elas estavam, sem sombra de dúvidas, ligadas
à colonização.
Conforme noticia a agência Ucan de Hong Kong, bispos e padres da
Igreja oficial, em diferentes dioceses da China, receberam pressões
para não falar em público da canonização,
durante as missas do dia primeiro de outubro. Um bispo (que pediu para
permanecer anônimo) disse que o pessoal do governo e da polícia
esteve presente durante sua missa, provavelmente para controlar o que
ele iria dizer.
Já o clero da diocese de Hong Kong recebeu orientações
para celebrar a canonização dos mártires chineses
sem ênfase e sem dar muito destaque ao fato. Conforme o jornal South
China Morning Post, da mesma cidade, o governo de Pequim opõe-se
ao papa que nomeia bispos sem sua aprovação. Mas há
sinais de que bispos e padres, mesmo entre os que pertencem à Igreja
oficial, já não suportam depender sempre das autoridades
de Pequim. O governo está consciente de que está perdendo
o controle também sobre o clero chamado patriótico e decidiu
usar a canonização como uma oportunidade para apresentar
o Vaticano como um inimigo da nação.
Um missionário, que recentemente foi à província
chinesa do Hebei para recolher algumas relíquias dos mártires
chineses e pediu para conservar o anonimato, deu esse depoimento: "No
martírio cristão, continua a vitória de Cristo sobre
a morte e sobre o pecado dos homens. Os mártires de hoje levam
a salvação de Cristo aos homens de sua geração.
O mártir, novo Cordeiro de Deus, tira os pecados do mundo, torna
atual a salvação. Cada povo, cada geração
é salva por seus mártires. Cada povo e cada geração
deve orgulhar-se de seus mártires. A China também pode gloriar-se
de seus mártires, porque eles assumiram o pecado que se manifestou
no povo chinês e, através de sua morte, abriram o caminho
à ressurreição e à vida para os chineses".
Conclusão: o sangue dos mártires é semente de novos
cristãos.
De fato, constatamos que os lugares onde se encontram hoje as comunidades
mais fervorosas, com muitos catecúmenos e vocações,
são exatamente aquelas onde os mártires derramaram seu sangue.
Na província do Hebei, justamente as paróquias onde as vítimas
dos boxers foram mais numerosas são, hoje, as regiões onde
mais cresce o número de cristãos. Isso vale também
para a província do Shanxi.
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