Revista "MUNDO e MISSÃO"
Igreja no Mundo - Ásia
por Pietro Roncari
É domingo, mas aqui não se percebe nada. É tudo como ontem e como será amanhã. A vida avança como sempre; as atividades tentam acompanhá-la. O domingo desapareceu. Era um luxo burguês e foi suprimido por decreto, com a instalação do regime comunista, depois da guerra com os americanos. Só os bancos, as embaixadas, os ministérios e as agências ocidentais descansam; os demais trabalham. Também as escolas ficam abertas para atividades de integração. O Vietnã deve trabalhar sempre. Assim decidiu o partido; assim obrigam as condições modestas de vida. Mas como os cristãos vivem o domingo que não existe? Adaptam-se e sobrevivem. Às 4h10 da madrugada toca o sino da catedral para a Ave Maria habitual. Pouco depois há o rosário, seguido da Missa com muitos cantos, sermão, avisos e catequese. Numerosas pessoas se aproximam nesta manhã. Chegam a pé, de bicicleta ou de moto. Ver chegar este povo na espessa escuridão da noite, em silêncio, vê-lo fazer sua grande inclinação ao ingressar na catedral, tomar seu lugar e iniciar de joelhos a jornada dominical, é algo difícil de ser descrito.
É a força da fé. Assim iniciam seu dia os que freqüentam a primeira Missa, como sempre fizeram, sem outro tempo para a prática religiosa. Pelas 6 horas da manhã está tudo terminado: os cristãos cantaram e rezaram, confessaram-se e receberam a Comunhão; acenderam incenso para seus mortos que repousam em cinzas na pequena urna diante do altar de São José; saudaram-se; trocaram duas palavras com o padre. Depois, tchau! É hora de trabalhar. Quando chega a alvorada, aumenta o movimento nas ruas. De manhã não há mais Missa na catedral. A próxima Missa é celebrada às 16 horas. É a Missa dos jovens. A catedral se enche de novo. Os jovens ocupam os primeiros lugares e o número deles é tão grande que chegam até ao meio da igreja; em seguida ficam os adultos e as famílias. A massa é enorme, mas se move tranqüilamente e quando é preciso se ajoelhar, faz-no sem o mínimo problema. Todos rezam, cantam e, quando necessário, ficam em silêncio total, como convém a uma verdadeira comunidade. Fora, a tarde é tórrida, um formigueiro. Na catedral, a comunidade cristã reza e canta. Mas quem trabalha, não pode freqüentar a Missa da tarde. Então recorre à Missa vespertina, quando o trabalho já terminou ou está terminando. Pelas ruas está ficando escuro e a catedral se enche de uma multidão surpreendente de cristãos: trezentas motos e outro tanto de bicicletas ficam estacionadas aos lados da igreja. Quatro pessoas tomam conta dos veículos, durante a Missa toda, para que ninguém os roube, já que representam toda a riqueza da família.
Esta Missa do anoitecer é a “grande” Missa, no dizer deles, porque é a Missa pontifical do bispo. Para nós, ocidentais, a liturgia desta cerimônia não é solene. No Vietnã, não! Quando o dia terminou a pessoa volta do trabalho, e eis que se veste para a festa religiosa. As mulheres põem seu belo traje tradicional, em forma de túnica, que mostra apenas os pés e vão para a igreja, apesar de ser escuro, de amanhã ser segunda-feira, de recomeçar a luta. Continuam desta forma, sem interrupção. Assim são todas as semanas do ano, incluindo o Natal e todas as outras grandes festas do calendário litúrgico. “É muito fatigante para eles, mas nossos cristãos não perdem a Missa dominical”, diz o bispo Joseph Tran Xuan Tieu. “Eles se sacrificam, mas vêm. Entre 90 e 95% dos católicos são assíduos à Missa dominical e à prática religiosa. Aqui adquirem força para enfrentar uma vida difícil; aqui encontram a comunidade; aqui educam a fé, compartilham os desejos, rezam, fazem a experiência de Deus”. Com efeito, o encontro dominical é bem mais do que simples rito. Não há somente a Missa, mas também a experiência de oração individual e comunitária, experiência da Palavra, com breve catequese e apresentação de textos sagrados. Avisos da comunidade com informações essenciais sobre a vida da paróquia e das várias atividades formativas; preparação dos cantos e das leituras, animação de cerimônias litúrgicas. Por último, há a experiência social, ocasião para trocar opiniões, idéias e propostas sobre situações da vida cívica e seus problemas na paróquia. Há tudo isto na Missa dominical, por isso os cristãos não querem perdê-la.
“Não temos muitas ocasiões para dar uma formação cristã à nossa gente”, esclarece o bispo Tieu, “e então toda celebração se transforma para nós em valiosíssima ocasião de catequese e de educação à vida cristã e comunitária na sua totalidade. O domingo, sendo dia de trabalho como os outros, torna-se de fato o dia do Senhor, o dia da comunidade. Esta fé trabalhosa, na contra-mão, com mil obstáculos, de fato educa profundamente. Por isso, temos celebrações repletas de alegria, plenas de vida e de oração. O verdadeiro dia do Senhor”. Se lá fora a vida transcorre como sempre, se o domingo está esvaziado de sentido, é este o coração do domingo vietnamita e não há o que fazer. Mas no rosto destes cristãos, que acorrem à Missa e voltam para a escuridão depois da liturgia vespertina, está escrito: “Fica conosco, Senhor, porque já é tarde”. A alegria do encontro com o Ressuscitado fortalece esses novos discípulos de Emaús surgidos dos arrozais. E lhes dá a força necessária para viver mais uma longa semana. Semana sem domingo. |
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