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O Evangelho na terra dos astecas
Alberto Garuti
O México esteve na primeira página dos jornais nestes últimos
tempos, quando pela primeira vez depois de 71 anos, um candidato da oposição,
Vicente Fox, derrotou o representante do Partido Republicano Institucional,
nas eleições presidenciais.
Do México os jornais falarão de novo quando, antes do fim
do ano, o papa João Paulo II declarar santos 25 mártires
(23 padres e dois leigos), que foram mortos durante a revolta dos "Cristeros".
Neste número, "Mundo e Missão" apresenta o trabalho
de um padre do Pime, Graziano Rota, que esteve durante 11 anos no Brasil,
realiza agora naquele país, junto a uma população
indígena da etnia mixteca e, em seguida, algumas considerações
gerais sobre a religiosidade dos mexicanos.
Evangelizando os mixtecos
Há oito anos, o Pime está presente no México, na
diocese de Acapulco. Pe. Graziano Rota vive agora numa região montanhosa
a 180 km de Acapulco, no meio de uma população indígena,
os mixtecos, com língua e cultura própria. Quase todos,
com exceção dos mais velhos, falam também o espanhol.
Entrevistado por "Mundo e Missão", ele descreve a cultura
e a religiosidade desse povo e expõe seus planos pastorais, mostrando
a intenção de respeitar os valores da cultura local em seu
trabalho de evangelização.
O local
A missão de pe. Graziano é formada por duas povoações,
Cuanacaxtitlan e Yoloxochitl, no Estado de Guerrero, no sul do México,
chamadas pelo povo de Cuana e Yolo. A maioria das casas é de adobe,
ou tijolo cru, feito com argila seca ao sol. Trata-se de habitações
pequenas, térreas, para uma só família, feitas de
um só local, quase sempre sem janelas, provavelmente para garantir
um clima mais fresco em seu interior. A ventilação é
assegurada por duas portas, em paredes opostas, que permanecem sempre
abertas.
Chuvas e secas se alternam com muita regularidade durante o ano. Entre
junho e setembro, chove muito, às vezes torrencialmente, o que
quase torna impraticável a única estrada de terra que une
as duas povoações a São Luís de Acatlán,
um centro maior onde termina a estrada de asfalto que vem da capital do
Estado, Acapulco. De outubro a maio, são oito meses de seca total.
A impressão que o visitante tem é de que a poeira está
em todos os lugares, uma poeira branca e fina que nada mais é do
que a areia da estrada que o vento leva até a copa das árvores
e até dentro das casas.
A posse da terra
Os mixtecos, como os astecas, os toltecas, os olmecas e outras, são
uma das etnias que habitavam o México, já vários
séculos antes da chegada dos espanhóis. Entre eles não
existe latifúndio, porque não existe propriedade particular
da terra, considerada um bem da comunidade. A cada família é
confiado um pedaço para cultivar. A distribuição
das terras para trabalhar é decidida por um grupo de anciãos,
chamados os principais. O responsável último é o
comissário ejidal (ejido, na língua mixteca, é todo
o terreno que pertence à comunidade).
Se um determinado terreno, confiado a uma família, mostra ter uma
finalidade para a comunidade, é retirado da família que
vai receber outro do mesmo valor. Entre os terrenos comunitários
(onde se encontram a escola e o centro de saúde por exemplo), existe
também o parque comunitário: há um projeto de transformá-lo
em escola agrícola para ensinar novas técnicas para o cultivo,
por exemplo, como tornar mais fértil o terreno sem usar inseticidas
ou herbicidas.
Pelo fato de terem seu pedaço de terra, todos têm garantido
pelo menos um prato de comida na mesa. Contudo, as oportunidades que a
sociedade oferece aos mixtecos param aqui: cultivar seu pequeno pedaço
de terra e formar sua família. Não existem possibilidades
de subir na vida ou de continuar os estudos depois do curso primário.
Os jovens, em sua maioria, saem para as cidades vizinhas e, em geral,
não voltam mais.
Os habitantes tiram da terra tudo o de que precisam: alimentação,
especialmente baseada no milho e no feijão, a lenha para cozinhar,
pois não têm gás, madeira e tijolos para construir
as casas. Existe pobreza, mas não miséria. Não se
vêem as diferenças gritantes entre os muito ricos e os muito
pobres, como no resto do México ou como em outros países
latino-americanos. Todos têm o mínimo indispensável
para sobreviver, embora o dinheiro seja muito curto. O comércio
entre eles é feito, geralmente, na base da troca. O dinheiro que
têm é o que o governo passa: 500 pesos (mais ou menos cem
reais), a cada dois meses, a todas as famílias que têm fi-lhos
na escola. A alimentação é escassa: geralmente tortilla
de milho, feijão e vários temperos à base de pimenta.
Eles comem carne só quando são convidados a alguma festa,
como casamentos. Quando morre alguém, mata-se um porco.
O casamento
Eles ficaram isolados durante séculos, não tiveram contatos
durante muito tempo com outras culturas. Por isso, tudo é regulado
pela tradição, nada muda. Até a própria maneira
de tocar os sinos é regulada pela tradição. Não
aceitam que se mude algo em seus costumes, nem nos aspectos mais insignificantes.
Por exemplo, a hora de verão existe, mas ninguém a segue,
também porque ninguém tem relógio. (E por que ter
relógio, se o relógio deles sempre foi o sol?).
Há algumas tradições que se mantêm com muita
força: o sentido da hie-rarquia na família e o respeito
ao ancião. O desrespeito aos pais, avós e às "pessoas
grandes" (anciãos) da comunidade é o pecado que eles
mais sentem e mais confessam. Tradição e respeito ao ancião
têm um grande peso na ocasião do casamento: são os
pais que escolhem o parceiro, é o pai que pede à outra família
a mão da esposa para o filho. Não existe namoro. Os matrimônio
são arranjados pelos pais. Os jovens chegam ao casamento quase
sem se conhecerem. Até aos encontros de noivos, os jovens chegam
acompanhados pelos pais. Quando vêm para os papéis de casamento,
são os pais que apresentam os jovens. Quando o pároco tenta
dizer que não acha certo esse comportamento, eles concordam, mas
é só da boca para fora. Essa tradição está
tão enraizada em sua cultura, que não conseguem nem imaginar
que as coisas possam se dar de maneira diferente.
É importante que o Evangelho penetre de maneira muito profunda
na cultura, para que certas expressões da mesmas possam mudar.
Estamos ainda longe desse momento. Diz o pároco que ele se esforçou
para ver algo de positivo por ocasião de um matrimônio; com
efeito, toda a comunidade se envolve, toda a cidade participa, todos oferecem
algo. E isso é bom. Mas não justifica que a escolha não
seja de livre e espontânea vontade dos noivos.
Na cultura mixteca só o homem é valorizado. A função
da mulher é dar à luz os filhos, preparar a comida, manter
a casa em ordem e responsabilizar-se pela educação da prole.
Mas é o homem quem decide e resolve tudo. A economia e o poder
em geral estão na mão dele.
A higiene
As condições de higiene e saúde são precárias,
ligadas ao problema da água e da escassa e não balanceada
alimentação (pouca carne). Na região, alternam-se
períodos de chuvas torrenciais e de seca total. Já no fim
desse período de seca, os riachos estão quase secos, sobram
algumas poças de água aqui e acolá, onde todos lavam
e se lavam, onde os animais bebem e de onde se tira a água para
levar para casa. Algumas famílias acostumaram-se a ferver a água,
outras não. Há dúvidas de que até nos mananciais
a água não seja potável. Muitos deles têm um
físico acostumado a tomar essa água. Quando um missionário,
convidado a ir a casa de alguém, toma essa água, acontecem
desastres. Contudo, mesmo entre eles, são freqüentes as doenças
por causa da água poluída.
Nesses casos, temos um centro de saúde, com um médico e
uma enfermeira. Eles atendem, receitam remédios mas não
distribuem nenhum. E o povo, que está com dinheiro curto, muitas
vezes não os compra.
Hospitalidade
É um dos grandes valores na cultura dos mixtecos. Se chega um
parente ou um amigo, ninguém vai trabalhar, para que o hóspede
não se sinta só, esquecido, e para que todas as suas exigências
possam ser satisfeitas. Se o hóspede precisar de alguma coisa e
quem o recebe não a tiver, pede ao vizinho e este, ainda que se
trate de uma televisão, não vai negá-la. Nada se
nega ao hóspede. Ainda que como amigo ele não esteja disposto
a emprestar o que o outro pede, por causa do hospede, sempre o fará.
E se, nesse caso, algo do que foi emprestado se estragar, ninguém
vai exigir o conserto. Por que esse grande valor atribuído à
hospitalidade?
Pe. Luciano Ghezzi, que já foi missionário nas Filipinas
e agora é pároco em Acapulco, mas também já
foi pároco em Cuanacaxtitlán, acha que, antigamente, o hóspede
era alguém que trazia notícias, era o elo de união
entre as várias povoações. Ele, que vinha de longe,
fazia, de certa forma, o papel que hoje exerce a imprensa. Era muito útil
para eles. Esse ser muito útil foi, aos poucos, tornando-se sagrado,
para que as gerações futuras mantivessem as tradições.
Aos poucos, o hóspede foi sendo sacralizado e institucionalizado.
O apego às antigas tradições é tão
forte entre os mixtecos, que mesmo as novas gerações, apesar
de deixarem sua terra em busca de trabalho na cidade grande, como Acapulco,
o carregam sempre consigo. Quando voltam, mergulham de novo no modelo
cultural no qual eles cresceram. Não se reconhecem mais nas tradições
da cidade grande, e sim na própria, mesmo que temporariamente a
tenham abandonado.
Religiosidade
Eles foram todos evangelizados, primeiro pelos dominicanos, depois pelos
agostinianos. Esses eram monges itinerantes, que permaneciam no lugar
durante um certo período, mas não se fixavam. Somente há
vinte anos, começou uma presença religiosa contínua:
antes uma comunidade de irmãs, depois os padres do Pime. Até
agora, foi uma evangelização epidérmica, superficial,
que ainda não penetrou na cultura. A fé se mistura com as
tradições. Por exemplo, na Semana Santa, houve a presença
de algumas figuras típicas, uma espécie de benzedores que
eles chamam de cantores. O povo acha que eles têm o poder especial
de curar os doentes. Durante a última Semana Santa, excetuadas
as cerimônias estritamente litúrgicas, todas as outras foram
organizadas por esses cantores.
Eles se julgam muito católicos. Se você lhes fizer algumas
perguntas sobre sua fé, não têm nenhuma dúvida
em afirmar sua catolicidade, mas, na prática, é outra coisa.
Por exemplo, a participação na Eucaristia é escassa.
Poucos vão à missa e menos ainda recebem a Eucaristia. Outras
celebrações para eles são mais importantes, como
por exemplo, as que fazem para seus santos particulares: santo Agostinho,
padroeiro da paróquia, as várias Nossa Senhoras (de Guadalupe
e outras regionais), são Judas e são Marcos, o santo que
eles invocam para conseguirem chuva.
Uma tradição muito seguida é a de colaborar com a
Igreja: todo ano são eleitas seis pessoas, chamadas tupiles, que
deverão prestar seus serviços voluntários (três
numa semana e três na outra), trabalhando e ajudando em tudo o de
que o pároco necessita.
Preocupações pastorais
De início, pe. Graziano sentiu que deveria dedicar logo sua atenção
ao problema social, procurando, em primeiro lugar, oferecer boas condições
de higiene e saúde ao povo. O problema da água pareceu o
mais urgente, pois até o reservatório, que serve só
metade da cidade, pega a água de um riacho e distribui água
contaminada nas casas. Alimentação escassa e água
poluída não garantem boas condições de saúde
à população. Infelizmente, até agora, não
conseguiu sensibilizar as autoridades para a construção
de um novo reservatório com sistema de depuração
da água.
Outro problema que se apresentou como urgente foi o da assistência
médica. Durante dois anos, a paróquia pagou um médico
que vinha dois ou três dias por semana. Através de um convênio
com uma sociedade da Cidade do México, conseguiu também
remédios. Era pedida uma contribuição irrisória
ao povo: um real para cada consulta e um real para cada remédio.
Mas, entre os mixtecos, o dinheiro é tão curto que ninguém
pagou na hora. Agora a dívida se acumulou a tal ponto que nem a
paróquia consegue pagar. Não foi mais possível pagar
o médico nem mandar vir os remédios.
Mas pe. Graziano não desistiu da idéia. Foi terminada a
construção de um novo e bem equipado consultório,
perto da igreja, e está sendo estudado um jeito de ajudar o povo
a pagar suas dívidas. Iniciou-se a fundação de uma
espécie de Banco do Povo, para acostumar as pessoas a pouparem
seu dinheiro sem gastá-lo logo, como têm feito até
agora. Esse banco é formado por uma sociedade de pessoas com um
representante da diocese, inclusive. Eles recebem os pequenos depósitos
do povo e, de acordo com esses, concedem empréstimos de até
200% sobre o que foi depositado, que as pessoas poderão pagar com
juros mínimos. E assim, quando precisarem, podem comprar um burro,
uma vaca, um arado e, inclusive, pagar as despesas médicas.
O projeto parece bom, só que até agora poucos aderiram.
Até que eles consigam assimilar uma idéia nova, passa muito
tempo. A força da tradição é tanta, que eles
dizem: "Se até agora agimos assim, por que temos que mudar?"
Por enquanto, somente 50 pessoas aceitaram a idéia do Banco do
Povo e depositaram ali suas minguadas poupanças. Poucas, para que
o Banco possa funcionar.
Até agora, as preocupações maiores foram com planos
de desenvolvimento social e foram deixados um pouco de lado os aspectos
catequéticos e litúrgicos da pastoral. Faltou um trabalho
em profundidade na formação dos líderes. É
verdade que ainda há poucas pessoas dispostas e preparadas para
a catequese. O pároco gostaria de trabalhar mais nesse campo e
formar um grupo de pessoas que se tornem evangelizadoras de seus bairros.
A importância de uma formação profunda não
penetrou ainda na mentalidade mixteca. Eles vêm para batizar uma
criança e não compreendem por que se fazem tantas exigências,
como pedir que façam o curso.
Esse é um desafio que se nos apresenta: formar pessoas, além
de trabalhar muito no campo social. Felizmente, os crentes ainda não
chegaram. Se chegarem, pode ser que levem muitas pessoas, vista a superficialidade
da formação religiosa.
A religiosidade dos mexicanos
Pe. Luciano Ghezzi, Pime, falou da religiosidade dos mexicanos como algo
de extraordinário. "Eu fiquei muito impressionado, quando
trabalhei nas Filipinas, pela religiosidade oriental. Mas tão profunda,
tão enraizada no coração das pessoas, como no México,
nunca vi. Quando digo religiosidade, falo do cristianismo. Se você
mexer nos valores que eles acham mais importantes, (N. Sra de Guadalupe,
a Igreja, a figura do padre) e lhes impedir de viver de acordo com esses
valores, ele são capazes até de pegar em armas, declarar
guerra e combater até o fim".
A rebelião dos cristeros
Entre 1926 e 1929, aconteceu uma rebelião chamada "Cristiada".
Em 1926, o presidente Plutarco E. Calles promulgou uma lei que visava
a acabar de vez com a Igreja católica, privando-a de todos os seus
direitos. Os padres e os religiosos não podiam sair às ruas
com os hábitos que eram um distintivos de seu estado de vida, nenhuma
manifestação religiosa podia ser realizada fora das igrejas.
Até o fato de freqüentar a igreja tinha se tornado perigoso.
O governo maçom queria extirpar a religião católica
do México, considerada antipatriótica, uma ameaça
à independência do país, pois prestava obediência
ao papa de Roma.
Em alguns lugares do país, foram emitidas leis ainda mais severas
contra a Igreja católica. Em Guadalajara, os empregados católicos
viam-se colocados frente a uma opção; ou renunciar a Cristo
ou perder o emprego: 389 professores primários daquela cidade preferiram
perder o emprego, mas não renegaram a própria fé.
Em 23 de dezembro de 1927, o general Gonçales, comandante da região
de Michoacan, publicou este decreto, em aplicação da lei
Calles: "Todo aquele que levar seus filhos para serem batizados,
quem contrair matrimônio religioso ou se confessar, será
tratado como rebelde e fuzilado".
Mas o presidente Calles não tinha calculado a reação
dos católicos simples, os camponeses. Eles se recusaram a aceitar
essa lei injusta e, ao grito de "Viva Cristo Rei", começaram
a enfrentar o exército regular. Foi uma rebelião iniciada
pelos camponeses aos quais se acrescentaram depois intelectuais e ideólogos.
As armas eram capturadas em emboscadas nas quais eram assaltadas patrulhas
do exército regular. Os "Cristeros" (como eram chamados
esses revolucionários que não aceitavam as imposições
do governo nacional) tinham o apoio da população civil.
A revolução durou três anos, de 1926 a 1929 e, durante
esse tempo, muitas pessoas foram mortas porque não renunciaram
a sua fé. Fala-se de milhares de mártires, mas nem todos
podem ser documentados, porque quando os soldados do governo chegavam,
matavam e destruíam tudo, até arquivos paroquiais e qualquer
tipo de documentação. Morreram mais de cem padres. Dentre
eles, se destaca o padre jesuíta Miguel Austin Pro, declarado beato
pelo papa João Paulo II. Ele, na fase mais aguda da perseguição,
quando era suficiente ser descoberto administrando os sacramentos para
ser fuzilado, visitava os cristãos da Cidade do México,
em suas casa, celebrava a Eucaristia com eles, levava ajuda, exortando-os
a não desanimar. Descoberto pela polícia e levado diante
do pelotão de fuzilamento, abriu os braços em forma de cruz
e assim, lembrando com seu gesto a crucifixão, foi morto ao grito
de "Viva Cristo Rei".
A rebelião terminou em 1929, quando os bispos fizeram um acordo
com o governo que abrandou sua legislação anticristã.
Os Cristeros depuseram as armas e saíram da clandestinidade. Apesar
do acordo feito com os bispos, muitos foram perseguidos, presos e fuzilados.
Nossa Senhora de Guadalupe:
Num exemplo de evangelização perfeitamente inculturada
Se a religião católica está profundamente en- raizada
na alma mexicana, deve-se também à presença, praticamente
desde o início da colonização, da imagem de Nossa
Senhora de Guadalupe. Quando Miguel Hidalgo iniciou o movimento de independência
da Espanha, pegou o estandarte de Nossa Senhora de Guadalupe e atraiu
os camponeses atrás de si.
Nossa Senhora de Guadalupe é considerada a principal evangelizadora
do México. O sentimento de pertença à Igreja católica
é fortíssimo em cada mexicano, especialmente por causa da
"Virgem Morenita". O milagre, que foge a toda explicação
natural, está presente e bem documentado na história da
aparição de N.Sra. de Guadalupe:
as flores que brotaram, em pleno inverno, no lugar da aparição
e que João Diego, o indígena a quem N.Sra. apareceu, levou
ao bispo, já tem em si algo de milagroso;
a túnica de João Diego, na qual ficou impressa a imagem
de Nossa Senhora também: feita de um tecido muito barato, tão
ralo que através dele se pode enxergar quem está na igreja,
conservou-se, não se sabe como, durante cinco séculos, sem
apresentar nenhum sinal de desgaste;
um laboratório alemão examinou as cores da pintura e achou
que semelhantes a elas não se encontram em nenhuma outra parte
do mundo, nem no reino animal nem no reino vegetal ou mineral; é
a única pintura no mundo em que as cores não se desgastaram
depois de 500 anos;
nas pupilas dos olhos de Nossa Senhora foram descobertas - através
de aparelhos especiais fornecidos pela NASA - as imagens das doze pessoas
que estavam presentes na casa do bispo, quando se realizou o milagre,
isto é, o aparecimento da imagem da Virgem no manto de João
Diego.
Mas não são esses fatos milagrosos que explicam a grande
influência que N. Senhora teve e tem sobre todos os mexicanos. O
que mais impressiona é o fato de Nossa Senhora ter-se manifestado
a João Diego, usando unicamente símbolos da cultura asteca.
De fato, ela apareceu, em 1531, no monte Tepeyac, perto da Cidade do México,
onde se venerava Tonantzin, deusa que representava a mãe-terra.
O rosto de Nossa Senhora não é branco, e sim moreno, simbolizando
a síntese entre o povo índio e o espanhol, isto é,
o povo mexicano. Ela não falou castelhano e sim nahuatl, a língua
de João Diego. Ela está grávida e tem em sua roupa
todos os símbolos que as mulheres astecas usavam para indicar a
gestação: duas fitas negras caída ao longo do corpo
e sobre elas uma cruz indígena que indicava o encontro entre o
humano e o divino. Seu manto verde e azul tem as cores das divindades
astecas do céu e da terra; sua túnica é de um tom
vermelho pálido que é a cor do deus supremo dos astecas;
as flores que ornamentam a túnica são as que se encontram
no monte Tepeyac, o monte da deusa-mãe Tonantzin. Nossa Senhora
de Guadalupe falou diretamente ao coração dos mexicanos.
A linguagem que usou para falar com João Diego foi uma linguagem
que toda mãe carinhosa usaria com seus filhos. As mulheres mexicanas
consideram-na como uma delas.
Como disse João Paulo II na homilia pronunciada na basílica
de N. Senhora na Cidade do México: "Desde que o índio
Juan Diego falara da doce senhora de Tepeyac, tu, Mãe de Guadalupe,
entras de modo determinante na vida cristã do povo do México."
Entrou porque falou a língua deles e se expressou com os símbolos
deles. Foi um exemplo perfeito de inculturação, antes que
concílios, sínodos e teólogos começassem a
usar esse termo.
A festa comemorativa de sua história
Os mixtecos gostam de comemorar os principais momentos de sua história,
através de danças e cantos que começam na festa do
padroeiro (santo Agostinho), pela tarde, e se prolongam por toda a noite.
Eles se sentem mestiços (um pouco mexicanos, um pouco mixtecos);
sua história, portanto, começa com a invasão espanhola
e vai até os dia de hoje. Eles não criticam a conquista
do México por parte do homem branco: são coisas acontecidas
e não são postas em discussão. São os fatos
que fizeram deles o que são agora e não se discutem. Eles
devem penetrar, pouco a pouco, dentro do povo, dizem. Todo ano os fatos
são revividos, através de danças e cantos que duram
a noite toda. O povo não se cansa de assistir: todo ano é
sempre a mesma coisa, sem mudar nem uma vírgula. Eles sabem de
cor o que vai ser dito, mas estão aí todos, não somente
no dia da festa, mas também durante os ensaios, nos dias que precedem
a festa.
Eles sentam durante horas a fio e, no fim, dão sua aprovação,
somente se puderem dizer que tudo foi feito conforme o esquema seguido
nos anos anteriores. Na representação, há personagens
históricas (Cortez, Montezuma, Alvarado) e outros inventados que
fazem o papel de narradores. O conteúdo dessas representações
é formado pela conquista espanhola e pelas relações
que se estabeleceram entre as duas raças. Tudo isso diz ao mixteco
de hoje: "você é feito a partir desses dois povos, você
é metade espanhol e metade mixteco". E eles aceitam. A representação
é feita na praça da igreja. Hoje, existe um script que eles
seguem religiosamente. Mas, até poucos anos atrás, durante
séculos, tudo foi decorado e transmitido assim de pai para filho,
sem que se mudasse nada.
O casamento e a vida da aldeia
Muitas pessoas da aldeia se envolvem na festa de casamento: as famílias
dos noivos, os parentes em geral e muitos conhecidos. Uma vez que os pais
e os interessados estiverem de acordo, faz-se o "pedimento"
(pedido) oficial. O noivo e seus parentes, levando pão, cigarros
e licores, dirigem-se à casa da noiva, onde ela e os parentes os
esperam. Ali é feito o "pedimento".
Às vezes, os pais da noiva exigem um dote. Uma vez, pediram 42
caixas de um pão doce que é comido no dia da festa. Nessa
ocasião, fixam-se os tempos do casamento e se discutem as eventuais
heranças.
Os festejos começam dois dias antes e terminam três dias
depois da celebração. Há pessoas encarregadas de
entrar na mata e cortar galhos para fazer a cobertura do lugar onde os
festejos serão realizados (São los padrinos de la ramada).
Os pais dos noivos estão encarregados de comprar um boi ou dois
porcos para a festa; outros devem comprar os fogos, outros devem arranjar
as bandas para tocar durante a festa.
Há os padrinhos das alianças, os padrinhos das velas (eles
devem acender as velas a um certo momento da cerimônia), há
o padrinho que carrega o buquê da noiva, dois padrinhos que devem
colocar uma espécie de laço (que significa a unidade, a
indissolubilidade do matrimônio) no pescoço dos noivos, uma
vez terminada a cerimônia, Praticamente, todos os habitantes da
aldeia participam da festa, mesmo que não tenham sido convidados.
O casamento é um dia de festa para a aldeia toda.
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