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"Finalmente chegou A HORA"
Roger Aubry
Neste ano de 1999, comemoramos 20 anos da Conferência Geral do
Episcopado Latino-Americano de Puebla (1979). Numa série de artigos
sobre esse evento, vamos enfocar, sobretudo, a dimensão missionária
e começamos dando a palavra a um dos protagonistas, dom Roger Aubry,
bispo da Bolívia
Esse "finalmente" do título não foi colocado
para terminar bem um capítulo, para que não lhe falte um
detalhe. É um ponto de chegada de um caminho percorrido, com vários
passos, que abre novos horizontes e que é bom lembrar.
Primeiro passo: o Sínodo de 1974
Esse sínodo sobre a evangelização no mundo contemporâneo
deu um forte impulso à missão e um fruto maduro: a exortação
apostólica "Evangelii Nuntiandi". Tomamos consciência
de que Igreja e missão vão juntas: "a missão
é a vocação própria da Igreja, a sua mais
profunda identidade, pois ela existe para evangelizar" (EN 14); anunciar
a Boa Nova de Jesus Cristo "de maneira vital, em profundidade...
até às próprias raízes da cultura" (id.
20), para "chegar a atingir e como que a modificar, pela força
do Evangelho, os critérios de julgar, os valores que contam, os
centros de interesse, as linhas de pensamento, as fontes inspiradoras
e os modelos de vida da humanidade (id.19) para "converter, ao mesmo
tempo, a consciência pessoal e coletiva dos homens" (id.18).
Igreja e Missão. E mais: Igreja e missão ad gentes. Pois,
como diz João Paulo II, "sem a missão ad gentes, a
mesma dimensão missionária da Igreja estará privada
de seu significado fundamental e de sua atuação exemplar"
(RMI 34). Sem a missão ad gentes, falta algo a uma Igreja local:
o sopro pentecostal: "Vão a todos os povos, recebam o Espírito
Santo".
A "Evangelii Nuntiandi", recolhendo com autenticidade e valentia
os aportes do Sínodo, ateou um grande fogo missionário no
mundo.
Segundo passo:
o "Panorama missionário", caminho para Puebla
Pedido ao Departamento de Missões do CELAM pelo próprio
presidente do Conselho Episcopal Latino-Americano, dom Aloísio
Lorscheider, esse Panorama, a partir do aporte dos países, foi
sintetizado e estudado nas regiões da América Latina.
Descobrimos não só "territórios de missão",
mas também "situações missionárias"
como:
· situações de debilidade eclesial;
· grupos com carência de identidade cristã e maturidade,
por falta de inculturação do Evangelho;
· grupos marginalizados da fé cristã;
· "grupos humanos... que se vão transformando de tal
maneira que se vão criando situações novas"
(AG 6).
Essas situações pedem uma atividade missionária
específica que, mais tarde, se chamará "Nova evangelização".
Analisando tais situações presentes em toda parte, chegamos
à convicção de que só a missão ad gentes
pode oferecer a nossas Igrejas o dinamismo espiritual necessário
para responder a situações internas: "Se não
abrirmos à missão universal, nossa Igreja será incapaz
de responder às exigências da evangelização
na América Latina" (um bispo do Uruguai). É preciso
abrir as portas e as janelas a novos horizontes para que passe a corrente
do Espírito Santo.
Também descobrimos uma chamada e um momento providenciais: a América
Latina está situada entre a África e a Ásia, dois
continentes em urgência missionária. Os movimentos da população,
como os grandes interesses, passaram do Mediterrâneo ao Atlântico
e agora vão para o Pacífico. A Ásia detém
60% da população mundial. Em nossos países vão
se edificando "corredores comerciais" até o Pacífico.
Através desses corredores, deverá passar a Boa Nova. E a
partir da América Latina.
O "Panorama" precisa ainda (Pan 315) que as interpelações
missionárias são maiores nesses continentes. O norte do
mundo envia sempre menos missionários, porque não os tem.
Há portas fechadas nos países ricos e portas abertas nos
países pobres. Devemos dar a partir de nossa pobreza, que libera
a missão de seus laços econômicos, culturais e políticos
e lhe dá seu verdadeiro rosto: missão de país pobre
a país pobre, para oferecer - apenas - a grande presença
e riqueza do Senhor Ressuscitado.
Nossas Igrejas encontrar-se-ão revigoradas, com um novo dinamismo
missionário em seu interior, dinamismo que suscitará "a
promoção de uma mística missionária em nossas
Igrejas locais e a formação de missionários para
esta tarefa" (id.).
Com esse "Panorama", com a reflexão que lhe deu cor e
vigor, os setores missionários da América Latina estavam
certos de trazer algo de vital a Puebla, "em seu presente e em seu
futuro". E esperavam de Puebla "um novo impulso missionário
e a agilidade que abre caminhos ao Evangelho no continente e em direção
a outros povos" (id. 316).
Terceiro passo, em Puebla
"Finalmente chegou para a América Latina a hora de intensificar
os serviços recíprocos entre as Igrejas particulares e de
estas se projetarem para além de suas próprias fronteiras,
ad gentes. É certo que nós mesmos precisamos de missionários,
mas devemos dar de nossa pobreza. Por outro lado, nossas Igrejas podem
oferecer algo de original e importante: o seu sentido de salvação
e libertação, a riqueza de sua religiosidade popular, a
experiência das Comunidade Eclesiais de Base, o florescimento de
seus ministérios, sua esperança e a alegria de sua fé.
Já se realizaram esforços missionários que se podem
aprofundar e se devem aplicar" (P 368).
"É exemplar esta declaração dos Bispos em Puebla",
diz João Paulo II (RMI 64), no sentido de que está chamada
a tornar-se norma, protótipo, molde, para todas as Igrejas.
Há de notar que esse "finalmente" é um dos três
objetivos formulados para o crescimento de uma Igreja local evangelizada
e evangelizadora. Primeiro serviço: formar uma comunidade viva
e madura; outra tarefa: atender às situações missionárias
permanentes, novas, difíceis e postergadas. E, "finalmente",
abrir-se à missão universal. São três objetivos,
internamente vinculados, com a mesma energia espiritual. Um não
vai sem o outro e se fortalecem mutuamente.
E é a missão ad gentes, "tarefa primordial da Igreja"
(RMI 34), que proporciona o oxigênio necessário para formar
essas comunidades maduras, com o dinamismo que lhes permite assumir e
atender as situações missionárias internas. Finalmente,
havia chegado a hora... Desde Puebla, a missão ad gentes vem se
desenvolvendo sempre mais e produz frutos palpáveis. Os COMLAs
colocam sempre o despertador na hora e impulsionam as Igrejas com força
e entusiasmo. Há um avanço significativo. Há um avanço
eclesial: "A América Latina, no fim do século XX, deu
uma grande contribuição à missão ad gentes"
(J. Esquerda Bifet).
O grande Jubileu da Redenção permitirá celebrar juntos
o amor de Deus Pai, manifestado em seu Filho amado, e seguir o caminho
missionário, também juntos na alegria do Espírito.
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