Revista "MUNDO e MISSÃO"

Igreja no Mundo - Oceania

Assim se vive na Papua-Nova Guiné

Sandy Garzarelli

Pe. Sandy Garzarelli, sacerdote americano de Philadelphia, depois de 34 anos de trabalho na América, abandona tudo e, apesar de seus 71 anos, opta por viver numa das missões mais pobres e primitivas do P.I.M.E.

Uns meses atrás, fui visitar Wasengla, uma das nossas capelas localizada bem no meio da floresta. Fiquei seis semanas e foi uma experiência inesquecível. Para chegar a Wasengla só há dois meios: por avião ou com as pernas, pois não existem estradas nem barcos. O vôo dura de 30 a 45 minutos, dependendo das condições meteorológicas. Cada capela tem ao seu redor, no meio da floresta, umas 20 pequenas aldeias com postos missionários. Wasengla é a capela principal e tem 30 pequenas aldeias a seu redor. A distância entre as aldeias e a capela varia de 3 a 7 horas de caminhada no meio da floresta.
Apesar de situada numa zona vulcânica com cordilheiras altas e íngremes e estreitos vales cobertos de densas florestas, Wasengla também tem pântanos onde reinam jacarés, serpentes e sanguessugas. A mata é rica de árvores, especialmente de uma palmeira que os nativos usam para fazer desde as cabanas até roupas, saias, bolsas e ornamentos corporais, numa engenhosa mistura das coloridas folhas. Há também uma planta, a do sago, que fornece um alimento particularmente apreciado pelos nativos. Não achei uma delícia, mas talvez tenha que aprender a apreciá-lo.
As comunicações acontecem somente através de pequenos aviões e as aldeias maiores têm um pequeno campo de pouso. A mercadoria que aí chega é transportada em caravanas até as aldeias dentro da mata, por pessoas que levam a carga nos ombros, subindo e descendo as ríspidas encostas das montanhas.
Wasengla possui um belo dispensário administrado pela irmã Ana, enfermeira, que enfrenta os homens aos gritos: no mato, com falta de mulheres, tem que se precaver com energia. Irmã Débora, é encarregada da escola profissional para moças: um curso de três anos onde se aprende a costurar, fazer pão, o inglês e a língua local. Existe um pequeno hospital com 10 camas e um enfermeiro, uma igreja com quarto para o padre de passagem, uma casa para as irmãs, salas e dormitórios - para as moças que vêm de aldeias distantes - com banheiros. Estes são uma novidade do lugar, porque quem vive no mato, arranja-se no mato mesmo.

Poligamia e machismo

Nas tribos da Papua-Nova Guiné, a poligamia é normalmente praticada e é corriqueiro ver homens, já com mais de sessenta anos, circulando ao redor da escola para olhar garotas de dez anos. Após a escolha, eles procuram os pais, compram a menina e levam-na para sua casa, onde ela fará os serviços domésticos que as outras esposas já não podem mais fazer. Não adiante a escola se opor, porque os homens ameaçam queimar suas instalações. Com isso, os jovens, que não têm dinheiro para comprar uma esposa, ficam sem mulher e as meninas acabam se casando contra sua vontade. Trata-se de um grande problema também para a Igreja porque, dificilmente, podem-se formar famílias cristãs e o governo pouco faz para proibir essa prática machista.
Entre os nativos, a tradição diz que não é conveniente que o homem faça trabalhos reservados às mulheres, como cuidar da horta e dos animais, recolher a lenha, tomar conta das crianças, cozinhar, lavar, etc. Os homens só pensam em caçar e derrubar a floresta para os seus campos: o resto fica para as mulheres. Quando viajam pela floresta, os homens andam na frente, com arco e flechas, e as mulheres, com uma criança no braço, outra nas costas, carregam a lenha para o fogo e um cesto com mantimentos presos numa faixa amarrada à sua testa. Nas aldeias, a mulher é um objeto, embora, lentamente, algum progresso esteja sendo feito. Mas ainda há muitos pais, ligados à tradição, que acham inútil mandar as meninas para a escola.
A sociedade é totalmente machista e patriarcal. Os meninos
pertencem ao clã do pai e vivem na aldeia em que este mora. Somente os homem podem possuir bens, tais como porcos, árvores e os direitos de posse das terras e controlam a vida da aldeia. As vantagens do matrimônio são somente para eles, enquanto não traz nenhuma satisfação para a mulher. Com esta mentalidade é difícil pregar o amor e o respeito conjugal.

Visita a Wasengla

A visita a Wasengla devia passar por Holosa, umas das trinta aldeias que constituem a missão. A minha visita já estava marcada uma semana antes, mas uma torção no pé não me deixava caminhar. Os homens de Holosa se ofereceram para me transportar numa espécie de padiola, e assim fui carregado (peso setenta e cinco quilos), durante quase quatro horas, através de subidas e descidas, com um guarda-sol para me proteger. Eu me sentia como um verdadeiro marajá!
Eram doze homens que se alternavam no transporte da padiola, cheios de atenções e respeito em relação a mim. Só paramos uma vez: de repente, eles se puseram a gritar, mas era de alegria, porque um deles havia matado uma grande serpente. Atravessando os pântanos, eles afundavam até a metade da perna e uma cobra representava um verdadeiro perigo. Só eu estava tranqüilo.
Chegando perto da aldeia, os homens começaram a assobiar e gritar para avisar que estávamos chegando, a fim de que preparassem o comitê de recepção. Após quinze minutos, chegamos à entrada da aldeia: no meio do rufar de tambores, tentei me levantar da padiola e dois homens me seguraram para que não escorregasse no terreno lamacento. A entrada da aldeia estava decorada com folhas de bambu e casca de árvores; os homens estavam em costume local, isto é, nus com algumas cordas e conchas cobrindo o corpo e uma concha maior escondendo o sexo. Na cabeça, tinham uma espécie de chapéu feito de plumas de ave-do-paraíso, símbolo do país. As mulheres vestiam apenas uma espécie de saiote de folhas entrelaçadas, as crianças estavam todas nuas. Os homens dançavam ao meu redor e depois um dos anciãos deu as boas-vindas à irmã que me acompanhava e a mim, dizendo que apreciavam nossa presença em sua aldeia.
Em seguida, me fizeram sentar numa espécie de assento de madeira e dois homens bem idosos, após terem tirado os meus sapatões, me lavaram os pés. Este é seu costume e recusar seria uma grave ofensa a toda a aldeia. Depois, vieram com presentes: plumas de ave-do-paraíso, sinal de amor; uma guirlanda, sinal de amizade, um dente canino de javali, que era o mais importante, pois quem o recebe deve guardá-lo com cuidado e deixá-lo de herança aos filhos, como se fosse uma relíquia.

A chuva estraga tudo

Terminado todo esse cerimonial, pudemos nos alimentar e toda a aldeia participou da refeição. Como alojamento, uma pessoa me cedeu sua cabana e construiu uma outra pequena com palmeiras e bambu para se alojar .
No dia seguinte, celebrei a missa, mas somente com as cerimônias indispensáveis por causa da chuva: quando chove, tudo se torna escorregadio e as crianças se divertem na barro como se fosse um tobogã, enquanto os adultos ficam em casa.
Na aldeia, não existem empórios nem vendas, portanto, enquanto fiquei por lá, foi verdura e arroz no café, no almoço e no jantar. Achei tudo delicioso! Lá também não existe eletricidade e tudo funciona com querosene, mesmo assim, quando cai a noite, a escuridão é enorme.
Também houve um enterro, mas nos limitamos à benção, sem ir ao lugar da sepultura, devido à chuva e à lama escorregadia.
Durante o dia, houve muita conversa na cabana com os adultos da aldeia. Havia um vinte jovens de 18 a 32 anos solteiros, mas nenhuma moça, a não ser algumas com menos de dez anos. Culpa do machismo e da poligamia que só permite que os ricos tenham várias esposas.
Ainda bem que algo já começa a melhorar. Confiamos muito no papel da escola para a formação das crianças e dos adolescentes: com paciência, veremos que eles vão mudar muita coisa.

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