Revista "MUNDO e MISSÃO"

Igreja no Brasil

PESQUISA sobre os missionários
além-fronteiras

Cristina Maria Galvão, leiga de São Paulo, foi quem acompanhou mais de perto o trabalho do Cadastro Nacional dos Missionários e Missionárias Além-fronteiras.

De março de 2001 até março de 2002, ela dedicou parte do seu serviço profissional aos contatos e à coleta de dados sobre os missionários.

Qual foi sua impressão a respeito das missionárias e dos missionários brasileiros, contatando as entidades que enviam além-fronteiras?

Cristina Maria Galvão: Contatamos quase mil comunidades religiosas para saber a respeito das missionárias e dos missionários brasileiros que trabalham no exterior. Geralmente, fomos muito bem recebidos, a colaboração foi generosa e a disposição dos superiores foi das melhores.

Contudo, esses contatos revelaram que, às vezes, não há uma grande atenção para com os missionários que estão lá fora. Algumas congregações, mesmo tendo poucos membros no exterior, falavam com um certo entusiasmo e consideração da presença e do trabalho de seus irmãos e de suas irmãs além-fronteiras. Outras, porém, tinham dificuldades em fornecer informações, não porque não as quisessem dar, mas, provavelmente, porque não as achavam em seus arquivos. Outras ainda, poucas felizmente, falavam de seus missionários e missionárias vagamente, com frases do tipo "Ah! Deve ter alguma coisa...", "Não me lembro, faz muitos anos...", "A gente não tem muito contato...", etc.

Os missionários e as missionárias além-fronteiras andam meio esquecidos?

- É triste, mas é preciso dizer que, em alguns casos, andam mesmo. Isso, porém, é um reflexo do esquecimento de toda a Igreja, de nós, católicos e católicas, com um olhar um pouco míope em relação ao mundo e à missão.

Você acha que este trabalho do cadastro ajudou a uma tomada de consciência sobre o valor da missão além-fronteiras?

- Sem dúvida. De imediato, ajudou algumas congregações a pensarem mais em seus próprios missionários. Aa vezes, fomos até insistentes com os institutos para obter informações sobre as pessoas que trabalham no exterior. Ligamos várias vezes, enviamos cartas, sedex, e-mails. De certa forma, isso provocou um despertar. Talvez nunca teriam pensado que, um dia, alguém pudesse se interessar tanto por quem foi enviado além-fronteiras.

Um fato curioso é que muitas congregações que não têm missionários e missionárias fora do país, sobretudo as ordens contemplativas, demonstraram um profundo interesse pelo cadastro e queriam, de alguma forma, contribuir com a missão além-fronteiras através das orações. O que não é pouco. Aliás, precisamos mais delas que de tantas "ações".

De que maneira o cadastro pode tornar-se útil às comunidades espalhadas no Brasil inteiro?

- Através do cadastro a gente fornece os endereços de todas as missionárias e de todos os missionários brasileiros espalhados pelo mundo afora. É muito importante que as comunidades comecem a conhecer os missionários que estão lá fora para participarem, de alguma forma, de sua missão e se solidarizarem com sua presença no meio do povo do qual eles são hóspedes. É uma forma para viver nossa catolicidade: estender o amor ao mundo inteiro.

Os nossos missionários e missionárias além-fronteiras adoram receber cartas e ser lembrado por suas Igrejas. Muitas vezes, o trabalho é difícil, os desafios são muitos, o ambiente é tão diferente, às vezes, hostil, outras vezes, inóspito. Uma carta de solidariedade transmite ânimo muito mais do que se imagina.
Recebemos respostas de missionários e missionárias realmente comoventes, agradecendo as lembranças e falando com entusiasmo de sua missão. Pudemos perceber que a vontade de comunicar está à flor da pele.

Qual foi o fato que mais lhe impressionou na coleta de dados das missionárias e dos missionários além- fronteiras?

- Às vezes, entrávamos em contato com uma ou outra congregação para saber notícias de um ou outro missionário que já constava em lista anteriores. O responsável da entidade nos comunicava que a pessoa tinha falecido em algum tipo de acidente ou de alguma doença na missão. Estas notícias não deixam de causar um certo impacto na gente. Estamos lidando com mulheres e homens que doam a vida de verdade pelo Reino.

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