Revista "MUNDO e MISSÃO"

Igreja no Brasil

Apaixonado por Cristo e pelos pobres

Por Costanzo Donegana e Paulo da Rocha Dias

Entrevistar dom Luciano Mendes de Almeida é fácil e difícil ao mesmo tempo. Fácil, pela sua extrema (até exagerada...) disponibilidade. Difícil porque, quando se entra em assuntos que tocam suas virtudes e seus méritos, não sai quase nada de sua boca.

Essa entrevista não tem um fio condutor, é uma tentativa de conhecer algo da vida de dom Luciano, de desvendar a riqueza de sua espiritualidade, de sua reflexão e de sua paixão pela Igreja e pelo homem, sobretudo o pobre. Mas o que está escrito é só um aceno que, às vezes, chega a esconder a realidade mais profunda. Ao leitor caberá captar nas entrelinhas...

Dom Luciano, comece falando da sua família

Nasci no Rio de Janeiro, em 5 de outubro de 1930, de uma família bem enraizada na própria cidade. Meu pai se dedicava à imprensa e ao ensino, dirigia uma escola. Colaborou no "Correio da Manhã", depois constituiu uma tipografia e seu trabalho principal tornaram-se as artes gráficas. Chegou também a lecionar na PUC em comunicações. Teve a originalidade de criar o primeiro suplemento intergráfico no Brasil, que chegou a sair como encarte em 60 jornais. Na época, era uma espécie de revista dentro dos jornais. Ele se dedicou muito ao ensino e à organização pedagógica, porque meu avô, Cândido Mendes, e um irmão dele tinham fundado, no Rio de Janeiro, a Academia de Comércio, uma iniciativa socialmente válida, porque oferecia ensino gratuito àqueles que trabalhavam na cidade durante o dia e que assim podiam conseguir a complementação da própria formação ou até a entrada em profissões liberais. Essa escola passou depois a ser faculdade de ciências políticas e econômicas e de direito, conhecida hoje como Universidade Cândido Mendes, pelo nome dele.

E sua mãe?

Nós éramos sete irmãos, cinco homens e duas moças; apesar disso, minha mãe consagrava uma boa parte da tarde de cada dia à formação religiosa dos alunos das escolas do Estado. Isso durante 50 anos. Ela morreu de tumor cerebral, depois de três cirurgias. Era uma pessoa de fé, de boa formação religiosa: formou-se em Paris, na Sorbonne e depois fez cursos de especialização teológica. Conduzia uma vida séria de piedade: Missa e comunhão diária, mesmo que tivesse muitas coisas a fazer e também problemas de saúde. Era isso que lhe dava força. Lembro que, uma vez, fui visitá-la durante a convalescença após uma das cirurgias. Cheguei à casa de madrugada e, sem bater à porta, entrei no quarto. Foi quando a vi de joelhos, com os braços abertos, rezando o rosário. "Mãe", disse-lhe, "por favor, descanse". Ela me olhou e, como que se desculpando, respondeu: "Meu filho, não é por mim que estou rezando, é pelos outros".

Minha família, porém, não é só esta. Hoje ela é constituída por muitas pessoas, que pertencem ao mesmo âmbito de amizade e de amor. Não só os coirmãos jesuítas, os membros da arquidiocese de São Paulo e de Mariana, mas também muitos pobres que, neste momento, tenho diante de meus olhos com seus rostos sofridos, vítimas da fome e da injustiça social, mas tão carinhosamente ligados a minha pobre vida.

Como nasceu sua vocação?

No clima de fé e de valores humanos da minha família, minha vocação desabrochou muito cedo: com seis anos de idade. Lembro que me perguntaram o que gostaria ser e respondi: "Padre, mas padre aviador". Foi no dia da minha Primeira Comunhão. Porém, depois guardei isso para mim, porque não sentia que era uma coisa a ser comunicada. Esse aspecto do aviador era uma espécie de herança do meu tio, de nome Luciano, que faleceu na Primeira Guerra Mundial, lutando como voluntário do Brasil pela França.

Mas, aos poucos, isso deu lugar a uma vontade muito maior, não só de ser padre, mas de seguir Jesus Cristo. A parte sacerdotal é antiga, mas não é primária: acho que o mais importante foi a pessoa de Cristo e o fascínio que Ele exercia e sempre exerceu na minha vida.

Onde estudou?

Quem é dom Luciano?

Ele mesmo responde

Em primeiro lugar, sinto-me cha-mado a viver o momento presente, sem perder, é claro, a visão do futuro. Sou um homem apaixonado pelo presente, enquanto sei que o presente não volta mais. O passado tem um valor, sem dúvida, na unidade da pessoa, o futuro possui a novidade da surpresa, mas o presente, o que é? É aquele momento de transparência da consciência, no qual uma pessoa é chamada a entrar em comunhão com Deus no evento, a partilhar o sofrimento e a alegria na presença de Deus. Isso me parece bonito: de um lado, porque a pessoa tem sempre algo a fazer, sendo chamada a viver o desafio do momento presente; do outro, tem um pouco de paz, porque cada momento leva consigo uma beleza especial, um pouco da graça de Deus.

Outra característica minha é que me deixo envolver mais pelo sofrimento do que pela alegria, não porque o sofrimento seja maior do que a alegria, mas porque, sabendo com certeza quanto no mundo o sofrimento esteja presente no coração dos homens, sinto vergonha de viver os momentos de alegria. Parece-me que a alegria que existe neste mundo seja um sinal daquela mais plena que um dia teremos, mas que hoje o chamado mais forte seja o de partilhar com os outros os momentos difíceis, o sofrimento, e, exatamente, no momento presente.

Partilhar com os outros o sofrimento faz crescer em nós a experiência do amor: sinto-me chamado a viver o presente e, no presente, a partilhar o sofrimento, a doença, a solidão e, depois, a consciência que uma pessoa pode ter do seu sofrimento, da sua pobreza.

Depois de um dia de trabalho, estou cansado; porém, embora saiba que no dia seguinte terei várias coisas para fazer, se encontro uma pessoa que sofre, sinto-me impulsionado a ir visitá-la à noite. Nem todos entendem o quanto seja importante para mim a vontade de conhecer a grandeza de certas situações que, talvez, segundo outras categorias humanas, parecem pequenas. Não entendem que essas coisas me dão uma força nova para enfrentar os compromissos no dia seguinte.

Outra característica da minha pessoa é uma mistura de amor por esta vida e de desejo da outra vida. Amor por esta vida, porque há muito a fazer; desejo da outra, porque é este mundo, onde há o pecado, que nos faz sofrer. É a mistura do presente com o futuro prometido que impede à vida de ser plena, enquanto a empurra para aquilo que ainda não existe: da mesma maneira, faz aparecer a verdade do seu ser e, ao mesmo tempo, sua situação incompleta.

Tirado do livro de Ernesto Olivero,
Uniti per la pace, Roma, Città Nuova.

Fiz os estudos fundamentais e médios no colégio Santo Inácio do Rio, dos jesuítas, de onde veio minha ligação particular com a Companhia de Jesus e também porque meu pai tinha sido aluno (o primeiro aluno inscrito) do colégio. A direção espiritual recebida me orientava a continuar os estudos e depois entrar no noviciado, mas tudo muito discretamente, tanto que poucas pessoas percebiam. Com menos de 17 anos, em 1947, fui para Nova Friburgo, RJ, onde era a casa de formação dos jesuítas. Fiz o noviciado, depois os estudos de retórica, a filosofia e dois anos de estágio, lecionando no seminário menor dos jesuítas, na mesma cidade: no total, nove anos. Depois me mandaram para Itália, para Roma, onde fiquei de 1955 a 1958 (ano de minha ordenação sacerdotal), estudando teologia na Gregoriana. Seguiu um ano de formação espiritual em Florença, a chamada terceira probação jesuíta. Quando terminei, pensava em voltar para o Brasil, mas me convidaram a ajudar os estudantes no Colégio Pio Brasileiro; voltei a Roma, onde fiquei até 1965. No mesmo período, estava fazendo um curso de filosofia e obtive dois anos para a redação da tese.

O senhor tem uma paixão pela filosofia. Ela marcou sua formação cultural?

Sem dúvida. A filosofia, além de exigir uma certa ascese intelectual e um exercício reflexivo, me permitiu conhecer um pouco mais os grande sistemas, os grandes autores e mesmo aí perceber a famosa angústia do final do século, toda essa busca de uma solução para a vida, para o problema da existência humana, muito forte nas correntes filosóficas do final do século 19 e do começo do século 20. Isso suscitou em mim um questionamento teológico profundo, que era a busca de uma solução para a existência humana, para o sentido da vida.

A filosofia abriu muitos horizontes, porque ela coloca em contato não só com sistemas, mas com existências, que nem sempre tiveram a luz da fé. Isso mostra também a força da inteligência humana e também esse itinerário em busca da verdade por um lado e, ao mesmo tempo, o entrechoque das idéias, dos sistemas. Ainda hoje, continuo me preocupando com isso, porque é o caminho da humanidade, justamente a busca não só da verdade, mas do sentido profundo da vida humana. E a filosofia terá sempre uma parte notável na grande sabedoria.

Por outro lado, também me ajudou o fato de estar sempre fazendo teologia e de fazer assim uma leitura ao mesmo tempo iluminada por ela, enquanto que alguns temas da filosofia receberam um grande esclarecimento. Por exemplo, os séculos medievais projetam uma grande luz sobre a questão do conhecimento - que hoje pouco se aprofunda - especialmente a afirmação de Santo Tomás de Aquino de que não é com a simples inteligência que se conhece o homem. Aprofundei isso na tese de doutorado, "A imperfeição da inteligência humana segundo Santo Tomás", ressaltando que o amor tem uma influência muito grande no processo cognitivo, como aparece na maneira da mãe conhecer o filho, isto é, a dimensão afetiva do ato cognitivo. E ainda toda abertura para a mística no conhecimento, que não se faz apenas por um ato intelectivo, mas pela presença interna de Deus, que se comunica à pessoa humana.

Mas, depois voltou para o Brasil...

Em Roma, fiz também o curso de teologia espiritual, porque havia a perspectiva de, voltando para o Brasil, trabalhar na formação, seja no ensinamento filosófico seja na direção espiritual.

Voltando para o Brasil, lecionei por quase dez anos na Faculdade de Filosofia dos jesuítas em São Paulo e, simultaneamente, fiquei encarregado da formação de sacerdotes jesuítas. Foi aí que pude conviver um pouco com dom Helder Câmara em Recife, porque a formação dos padres era de preferência naquela cidade. Tudo isso me aproximou muito dos padres, porque entre eles havia um grande anseio de encontrar uma densidade espiritual no exercício do ministério sacerdotal. Nessa época, ajudei na CRB de São Paulo e na Congregação Geral dos jesuítas em 1974-75 (a famosa XXXII Congregação), onde tive que atuar como secretário. Foi uma experiência muito grande, pela presença do pe. Arrupe e pelo debate sobre os problemas do mundo inteiro num tempo muito difícil pela Igreja.

Nesse período, no Brasil, estávamos sob o governo militar e uma das minhas atribuições era ajudar na capelania universitária em várias faculdades. Foi uma época muito intensa, porque era o momento da perseguição, das arbitrariedades, das injustiças sociais, da tortura, infelizmente. E foi nesse clima de radicalismo do governo militar (progressivamente superado) que se deu na Igreja a vontade de aprofundar o Concílio Vaticano II com a Conferência de Medellín e, posteriormente, de Puebla.

O que significa, para o senhor, ser jesuíta?

A primeira marca é um grande amor à Igreja, é a vontade de servir na Igreja, especialmente, segundo a mística da espiritualidade inaciana, dentro de uma grande disponibilidade.

A segunda é uma espiritualidade muito forte na linha da oração. É todo o caminho inaciano: os exercícios espirituais, os retiros e, sobretudo, o discernimento que se faz na oração sobre as situações pessoais e os caminhos da história. Uma vocação contemplativa, mas também no discernimento dos sinais dos tempos.

Em terceiro lugar, a missão. A vocação do jesuíta não é de pároco ou de abrir um colégio sem mais, mas é a disponibilidade para servir indo para qualquer lugar aonde seja mais necessário. Por si, os jesuítas não têm obras, eles devem estar disponíveis. Disso eu vejo uma conseqüência na minha vida: quando estava em Roma, pensei em trabalhar na África, em Madagascar; e cheguei a mostrar essa inclinação. Depois, vindo para o Brasil, me prontifiquei para as missões no Mato Grosso, que naquela época eram difíceis. Mas queria também ir para o Japão, tanto que cheguei a aprender um pouco de japonês. A dimensão missionária sempre foi muito forte em mim.

Quando foi ordenado bispo?

Alguns meses depois de terminada a Congregação Geral, dom Paulo Evaristo Arns convocou mais auxiliares para a arquidiocese de São Paulo e eu fui escolhido, em fevereiro de 1976. A ordenação aconteceu em 2 de maio. Naquela oportunidade, dom Paulo me dirigiu uma palavra clara que me influenciou muito. Disse que ele achava que eu havia estudado muito, tinha-me formado, era professor, sacerdote, formador e rezava. Faltava-me uma coisa, o povo de Deus, e a vida de ministério episcopal me daria a presença do povo, o amor pelo povo.

Trabalhei na periferia, no Belém. Foi um tempo muito bonito de ação pastoral na cidade, especialmente na vivência da fraternidade episcopal com dom Paulo e os outros auxiliares. Nós nos ajudávamos, nos estimávamos, nos encontrávamos e tínhamos um vínculo muito forte de fraternidade, coisa que me ajudou muito na vida toda.

Em relação ao trabalho desenvolvido, uma pequena especialidade foi receber não só uma área geográfica, que era a Região Leste, mas também o setor. Foi aí que nasceu a Pastoral do Menor com a irmã Maria do Rosário Cintra, o pe. Júlio Lancelotti e a dona Ruth Pistori. Eu trazia uma experiência de trabalho numa prisão de menores em Roma, durante o período da teologia, que me tinha ajudado muito: mudou minha oração, o sentido da dedicação e, sobretudo, me fez entender que o sacerdote é ordenado, antes de mais nada, para aqueles que têm uma necessidade maior da presença de Deus, de descobri-lo como Pai, apesar de terem passado pelas experiências mais negativas, como aqueles jovens cujo pai era alcoólatra, batia neles e na mulher e os mandava roubar.

O senhor trabalhou muito também fora do Brasil?

A dimensão sul-americana da Igreja surgiu com Medellín, cresceu na preparação de Puebla e se firmou numa estabilidade maior do CELAM (Conselho Episcopal Latino-Americano). Também o Brasil se abriu para essa convivência de América Latina e, nos últimos anos, de América. Pessoalmente, foi em Puebla que entrei nessa dimensão, porque participei da comissão de coordenação, que tinha cinco representantes das várias partes do continente. Foi uma experiência muito forte, um trabalho novo, exigente. Nos anos 90, fui vice-presidente do CELAM e, na Conferência de Santo Domingo, fui nomeado presidente da comissão de redação, trabalhando sobretudo na segunda parte do Documento final (promoção humana) e na extensão das Linhas Pastorais Prioritárias e da oração.

O senhor se tornou conhecido sobretudo como presidente da CNBB!

Na Assembléia da CNBB de 1979, fui eleito como secretário e fiquei oito anos; depois fui nomeado presidente e foram mais oito anos. Esse período cobre um tempo especial da história do Brasil, bastante árduo pela perseguição dura dos militares contra a Igreja. Nessa época, começaram também a serem assumidos com mais consciência e determinação os grandes desafios do nosso país: o empobrecimento forte e rápido do nosso povo, o problema das populações indígenas, das culturas afro-brasileiras e, conseqüentemente, todas as grandes questões da justiça social, da inculturação e também a progressiva abertura ecológica.

Entre os fatores que caracterizaram esse período da CNBB, em primeiro lugar, devemos constatar uma grande união entre os bispos, e com os padres, religiosos e leigos, como uma das marcas da Igreja do Brasil. Na prática, temos sempre tido reuniões entre os responsáveis das várias áreas da vida do povo de Deus. Isso foi, e é uma experiência positiva de união, comunhão, participação e permitiu uma ação conjunta da Igreja, não raro frente ao governo militar.

Um segundo aspecto a ser salientado é que a Igreja sofreu a incompreensão e a perseguição, basta lembrar os padres Ezequiel Ramin, Josimo, João Bosco Burnier...: são pessoas que têm valor de símbolo porque mostram uma época de injustiça social para com os posseiros, com os indígenas, os trabalhadores, a desigualdade econômica muito grande, a falta de presença administrativa nos lugares mais distantes.

Por outro lado, houve uma abertura de programação pastoral e de diretrizes gerais e de vivacidade no ambiente de vida comunitária. É bom chamar a atenção sobre isso, porque nos meios de comunicação fala-se mais dos aspectos externos, mas é preciso também ver quanto a Igreja se comprometeu mais seja com orientações de tipo moral, seja na afirmação de princípios de promoção do bem comum.

É importante compreender que a história, a cada momento, põe desafios e, portanto, à nossa geração também. Não creio que nos devamos intimidar, mas, pelo contrário, enfrentar esses desafios, pelo menos alguns. Nós tivemos uma passagem do governo militar à recuperação da liberdade de expressão, de voto, mas não chegamos a uma experiência plena de democracia participativa, à elaboração de um projeto político abrangente que pudesse também envolver as grandes questões da terra, da habitação, da saúde e tudo mais. Agora fica também cada vez mais claro que o Brasil não é uma ilha a dar sozinha a razão do seu caminho, mas que entrou numa situação de dependência dos grandes mercados internacionais, o que desequilibrou bastante a economia nacional.

Quais são os desafios para a evangelização no nosso país?

A Igreja teve que se comprometer logo com a situação de injustiça social, não só com a asfixia da liberdade, como na época da ditadura, mas enfrentando sobretudo o desafio que o exercício da cidadania põe à fé, porque esta não pode ficar ausente desse processo. Por outro lado, a fé pode oferecer motivos para criar condições dignas de vida para a maior parte da população. A Igreja do Brasil fez disso não numa chave de prioridade política, mas de coerência evangélica, que evidentemente chega até o nível político.

Outra questão é o posicionamento ético da Igreja diante das grandes dúvidas e angústias por causa do avanço das ciências e da ingerência da ciência naquilo que seria a própria vida humana. Da parte da Igreja existe estudo sério e discernimento.

Do ponto de vista do desafio religioso, no Brasil, que era um país em altíssima proporção só católico, atualmente há muitos grupos religiosos independentes, e não só pluralismo, e sim muita diversidade no posicionamento religioso. Isso trouxe para o exercício da evangelização na Igreja católica um confronto com uma série de outras Igrejas, que embora possa ser superado com uma atitude ecumênica abrangente, mostra claramente como estamos longe do dia da unidade e que precisamos de um diálogo muito respeitoso e produtivo para dirimir questões que surgiram no decorrer do tempo.

Ao contrário de 50 anos atrás, parece que agora, no mundo todo, estão faltando intelectuais católicos que sabem fazer cultura na sociedade.

Os anos da guerra no mundo inteiro foram anos de grande reflexão. As pessoas entristecidas, acabrunhadas, muitas vezes obrigadas a uma vida bastante fechada, sem as aberturas todas que o progresso podia oferecer, tiveram um tempo de estudo, de reflexão muito grande. Isso também no campo da fé. Quando houve depois a superação da guerra e a abertura de outras áreas, por exemplo, a maior facilidade tecnológica, a mobilidade humana sob forma de turismo, os campeonatos internacionais... boa parte do tempo, que era consagrado à leitura e à reflexão, foi usado de modo dispersivo e muitas atividades sem uma grande transcendência ocuparam o espaço.

O período militar no Brasil restringiu o florescer da presença dos leigos católicos na sociedade e na cultura. Se não tivéssemos passado pelo período militar, haveria muitas outras lideranças políticas e culturais e eu creio que o País teria tomado outro rumo. Depois, o Brasil teve que se aplicar ao processo de democratização e a um enfrentamento das injustiças sociais e talvez desenvolvemos menos o grande problema do sentido da vida, do diálogo ecumênico, as grande reflexões sobre as teorias científicas.

Parece que o tempo de reflexão sumiu: é muito difícil uma discussão, um fórum com uma boa preparação. Todo mundo se interessa, mas as soluções não são assim tão brilhantes. Também a vida universitária no Brasil está mais voltada para o avanço tecnológico do que para as grandes sínteses do saber.

Temos um campo a recuperar e talvez faltem pessoas com uma visão sapiencial, de integração, de interdisciplinaridade. Esse tipo de pensar humano no tempo de Alceu Amoroso Lima, por exemplo, era muito procurado, era uma sabedoria que integrava a consciência da cidadania e da pertença a tudo aquilo que era a iluminação da fé e a abertura criativa para o futuro. Esse tipo de pensar tem sido mais raro e talvez nós tenhamos que questionar também o sistema educacional, todo um tipo de prioridades que buscamos às vezes nas comunidades católicas, sem termos aberto suficiente espaço para o estudo, a análise, o aprofundamento, digamos a capacidade da pessoa de se situar.

Não há no Brasil de hoje alguém que tenha a envergadura de Tristão de Athayde, ou melhor, sua presença e influência. Mas há lideranças que vão surgindo, há pessoas que vão se firmando e afirmando, só que isso é lento. Talvez esta época represente a preparação de uma fase em que mais pessoas ocuparão a liderança. É impossível hoje que uma pessoa só resuma nela todo o saber e é difícil harmonizar sistemas diferentes, mentes diferentes, mas aí está o caminho da humanidade.

Qual é o sentido da missão além-fronteiras para a Igreja do Brasil?

Entendo a missão como ato de amor, porque à luz da teologia sabemos que Deus tem a providência sobre todos os seres humanos e a todos oferece condições de uma vida plena de salvação, que essa salvação se dá em Cristo e sempre com a colaboração da Igreja, que reza e se oferece por todas as pessoas humanas. É vontade do próprio Cristo que aquilo que nós recebemos possamos oferecê-lo aos outros, como também que saibamos nos abrir àquilo que Deus nos comunica por meio dos outros.

Então, a ação missionária hoje encontra a sua correta inserção: ela é um ato de amor, porque é um ato de partilha, de doação gratuita dos valores mais altos que nós possuímos, a saber, a significação da vida humana e do sentido da revelação divina e de tudo o que isso inclui. A missão não é feita de proselitismo, mas de partilha: trata-se de oferecer ao outro, na liberdade, o que nós já possuímos.

E assim entendo que a Igreja é uma comunidade missionária, isto é, uma comunhão sempre aberta, para que outros dela participem, e uma comunhão dinâmica, porque oferece aos outros aquilo que eles ainda não têm. E isso dentro de uma grande compreensão do diálogo inter-religioso que tem como ponto de referência a infinita misericórdia de Deus, que dispõe de caminhos que nem sempre nós conhecemos.

Que lugar ocupa a inculturação nessa visão?

A inculturação também é um ato de amor. Partilhar a vida, aliás, identificar-se com os outros para transmitir a Palavra é um ato de amor. É o amor que cria a aproximação: para se tornar como os outros, o missionário deve aprender a viver aceitando mudanças de atitudes, de hábitos, de facilidades. Quem se identifica com o outro, lhe diz quanto lhe quer bem, quanto deseja lhe comunicar a mensagem que tem por parte de Jesus.

A partilha que leva à identidade mais difícil é aquela com os pobres, que é símbolo da identidade com todos os homens. Se me identifico com aqueles que mais têm necessidade de mim, significa que eu, se for necessário, me identificaria também com os outros.

Isso inclui também o respeito a cada pessoa humana, seja no diálogo inter-religioso e ecumênico, seja na estima pelo modo com que nosso povo vive a sua fé nas suas expressões, que devem ser sempre mais compreendidas e assumidas nos seus valores profundos. Foi essa fé que me conquistou na visita às comunidades da Arquidiocese de Mariana. Eu colocaria em destaque a capacidade que o nosso povo tem de olhar para o Cristo crucificado e compreender não tanto a força do sofrimento, quanto a entrega da vida, o dom de si ao outro, que é uma grande lição para a humanidade. A mesma coisa é a devoção mariana, no que ela tem de compreensão dos caminhos de Deus para a humanidade, da ternura, da solicitude de Deus, da união familiar.

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