Revista "MUNDO e MISSÃO"

Igreja no Brasil

Uma igreja feita povo

50 anos da CNBB: um balanço muito positivo
da presença da Igreja no nosso País

Costanzo Donegana

Quando o Vaticano II propôs as conferências episcopais como instrumento de comunhão entre os bispos, já tinha sido precedido, dez anos antes, pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). A iniciativa foi sobretudo de dom Helder Câmara, então padre, em 1951, no Rio de Janeiro. A intuição de dom Helder, que caracterizou a Conferência, desde o início até agora, baseia-se em dois pontos fundamentais: a comunhão episcopal e a resposta aos desafios da realidade.

Comunhão e participação

"A CNBB teve como segredo de sua atuação extraordinária, reconhecida até pelos sociólogos como instituição mais aderente à história e mais ágil, o saber trabalhar colegialmente, a presidência não se isolando, não assumindo posturas autoritárias, mas de serviço, valorizando os dons existentes": quem fala é o bispo de Jales, SP, dom Luís Demétrio Valentini, por oito anos responsável pela dimensão social da CNBB. Através de órgãos ágeis e continuamente atentos a realizar uma reflexão conjunta sobre a realidade à luz do Evangelho, os bispos do Brasil acompanharam a história do País nesses cinqüenta anos, guiando com inteligência e coragem o povo a eles confiado.

Através dos Planos Pastorais, no início, e, depois, das Diretrizes Gerais da Ação Pastoral e Evangelizadora da Igreja, toda a Igreja do Brasil caminhou unida. Isso criou uma consciência de Igreja que dificilmente se encontra em outros países: "Apesar de pontos de vista diferentes, que podemos chamar, às vezes, de 'pequenas discórdias', a Igreja do Brasil foi sempre crescendo sob o influxo da CNBB. Podemos dizer que a Igreja se identificou com a CNBB ou que a CNBB se identificava com a Igreja", comenta o card. Aloísio Lorscheider, que já foi seu presidente.

"A CNBB realizou o papel de dinamizar a pastoral do Brasil", afirma dom Bernardino Marchió, bispo de Pesqueira, PE. "Cada ano lança novas idéias, novas propostas com o desejo de fazer com que a Palavra de Deus chegue a todos os recantos. Isso estimula a criatividade de nós, bispos, de nossas comunidades, de maneira que possamos concretizar essas inspirações junto com o nosso povo".

Voz dos sem voz

Ao longo dos 50 anos de sua história, a CNBB foi sinal e instrumento da fraternidade que brota da comunhão; por isso esteve muitas vezes no topo das pesquisas de opinião como a instituição mais confiável do País. Foi sobretudo sua atuação na época escura da ditadura que lhe mereceu essa simpatia. Em tempos nos quais todas as vozes da dissensão eram caladas, só os bispos, em nível nacional e local, falaram com força para reivindicar a liberdade, a justiça e para denunciar a repressão dos direitos humanos. A Igreja, através deles e de muitos sacerdotes e leigos, que pagaram até com a própria vida sua coragem evangélica, tornou-se abrigo dos dissidentes políticos, apoio e esperança para as famílias dos presos, educadora do povo para os valores da democracia.

Há quem acuse a CNBB de sair do âmbito religioso, que lhe compete, para se aventurar no terreno ambíguo e tentador da política. São vozes que, às vezes, se ouvem também dentro da Igreja. Mas a grande intuição do episcopado brasileiro - fiel ao espírito do Concílio - foi "perceber que a evangelização não tem uma dimensão única, mas muitas", responde dom João Braz de Aviz, bispo de Ponta Grossa, PR. "A CNBB me fez descobrir uma visão global da evangelização, que deve cuidar da unidade da Igreja, do anúncio e do aspecto missionário, do aprofundamento da fé através da catequese, da dimensão social, do diálogo ecumênico, etc. Foi uma preocupação nunca deixada de lado, que deu equilíbrio ao conjunto. Dentro disso", continua dom João, "há bispos que têm uma sensibilidade maior para o social, também porque, às vezes, vivem numa realidade local desafiadora, onde, se eles não de-rem um acento maior ao compromisso no mundo, trairiam o próprio Evangelho. Outros estão em realidades diferentes, onde é preciso acentuar a dimensão mais espiritual. E também os próprios bispos têm sensibilidades bastante diferentes; porém, no conjunto, existe um acordo fundamental".

Novos desafios

Quais os desafios da Igreja do Brasil neste início de milênio? "Continua a preocupação pelos problemas sociais", responde pe. Alberto Antoniazzi, teólogo e assessor da CNBB, "que ainda são muito graves e que, em certos aspectos, pioraram, devido à tendência à concentração da riqueza nas mãos dos ricos com o conseqüente empobrecimento dos pobres. O governo renunciou a intervir em muitas partes do social, jogando sobre a Igreja uma responsabilidade grave e inevitável. Os bispos estão substancialmente unidos na crítica ao neoliberalismo, às políticas do atual governo federal e na defesa bastante empenhada dos pobres".

Na dimensão religiosa, pe. Alberto lembra a preocupação pelas "seitas" e as Igrejas pentecostais, que afligiu bastante os bispos nos últimos dois decênios. Ela, porém, parece agora menos forte, sobretudo "porque há um certo renascimento católico nos últimos anos, com maior presença nos meios de comunicação, que dá a impressão que também os católicos são uma realidade que se faz presente e é visível". Há também a difusão de diversos movimentos (entre os quais a Renovação Carismática ocupa um espaço grande e evidente), pastorais e grupos empenhados, nos quais os católicos, sobretudo nas cidades, se agrupam e assumem compromissos pastorais. "O mundo pentecostal é instável, há muita mudança de Igrejas entre eles", comenta o teólogo, "enquanto o mundo católico parece mais estável e neste momento até mais otimista, mais confiante, mais cheio de iniciativas".

Globalmente, o grande desafio para a Igreja no Brasil, como no mundo todo, é a modernidade e a CNBB está consciente disso. Provam-no as últimas Diretrizes Gerais, a partir do ano de 1991, dedicadas totalmente a esse problema. Pe. Alberto reconhece honestamente que os bispos estão dando algumas respostas, embora não todas. Ainda é fraca a consciência da presença do leigo no mundo como tal. Por exemplo, um profissional católico prefere ajudar a paróquia ou seu grupo católico em lugar de assumir um compromisso de presença, testemunho e diálogo no mundo profissional e intelectual. "Enfraqueceu-se a presença da Igreja junto aos leigos, particularmente os mais cultos", continua o assessor. "É verdade que as universidades católicas têm ainda um potencial bastante interessante, mas precisaria, por parte do episcopado e da Igreja em geral, valorizar mais o mundo intelectual e profissional e abrir um diálogo mais sério com ele".

Nesta nova fronteira, mais difícil que o mundo da exclusão social, a CNBB será chamada, no futuro, a marcar sua presença, estimulando o povo de Deus a se lançar pelas estradas ainda pouco percorridas da nova evangelização.

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