Revista "MUNDO e MISSÃO"

Igreja no Brasil


Congresso Missionário do Estado de São Paulo

Giorgio Paleari

Entre as Instituições e os grupos missionários no Brasil,
está sendo gerado um novo sentido para o caminho
da missão. Fala-se em missão como parceria

A parceria pode representar um avanço qualitativo na questão missionária. O Conselho Missionário Nacional (Comina) articula-se com o Conselho Indigenista Missionário (Cimi), com a Conferência dos Religiosos do Brasil (CRB). Pede-se aos Conselhos Missionários Regionais (Comires) que componham as forças com outros grupos, de maneira a não encapsularem a missão, tornando-a um dinamismo de todas as forças vivas da Igreja.

Um pouco mais difícil é a definição do termo. Anne Reissner, missióloga norte-americana, usa a metáfora da dança para visualizar o que vem a ser a missão no século XXI. Paulo Suess, renomado missiólogo, fala que “a comunidade missionária deve articular redes e desarticular pirâmides”. A renovada teologia da missão, por sua vez, afirmando a iniciativa de Deus na missão (missio Dei), aprofunda o sentido de que a missão é “a sinfonia coral” de todo o povo de Deus.

A metáfora da dança

Foi Ana Reissner (Missiology, XXIX, 1, 2000) a primeira a usar a me-táfora da dança para visualizar o que vem a ser a missão no século XXI.

Deverá ser uma parceria em que os missionários partilharão com os que os hospedam as próprias experiências e todos empreenderão uma busca comum. Os dois, enviado e destinatário, trilharão os mesmos caminhos e Deus será encontrado no ponto de intersecção entre os dois parceiros (indwelling).

Nesse intercâmbio não haverá uma direção única, mas, numa atitude de reciprocidade, permitir-se-á a gratuidade da relação. Ao mesmo tempo, um ensina e aprende; o outro oferece e recebe os dons (indirection).

Na busca empreendida, as expectativas fragmentam-se, os pontos de vista são reformulados e aprofundados. Há necessidade de trilhar novos caminhos e abrir novos horizontes. Este processo de re-criação permitirá que nos percebamos em rede na construção do Reino. Mesmo situados em planos diferentes e, às vezes, assimétricos, a parceria torna-se um caminho a ser percorrido com encontros e desencontros, crises e reformulações (imagination).

Diarmunid O’ Murchu (Quantum Theology, New York: Crossroad, 1997), usa a metáfora da dança:

Meu par, quer dançar comigo?
Eu envolvo minhas
mãos com as suas,
Antes o pé direito,
Depois o esquerdo,
Movimentando-se ao redor,
de novo, outra vez.

Esta imagem revela a iniciativa de Deus, uno e trino, que precede, acompanha e dirige o caminho dos missionários. É no caminho da missão e da parceria que Deus se revela na inter-relação com o outro.

Articulação de redes e alianças

Paulo Suess (Contextualidade, gratuidade, universalidade, mímeo) prefere usar os termos “articulação e alianças”, em vez de “parceria”. Escreve: “As articulações não são meras ‘parcerias’. São alianças de causas e movimentos afins”. Efetivamente, o termo ‘parceria’ pode indicar uma junção de elementos díspares que poderiam dificultar o processo de alcançar objetivos comuns. Os termos “alianças” e “articulação”, por sua vez, pressupõem um ponto de partida comum a começar do qual se convidam os sujeitos a in-teragirem entre si. O ponto de partida, para Suess, é o fato de “a missão articular os sonhos dos pobres e desmanchar o ‘grande relato’ da desigualdade natural do neoliberalismo”. A missão, nesse sentido, ‘articula uma rede de esperanças’. As alianças empreendidas visam construir uma rede alternativa de projetos, na perspectiva de conseguirem se opor à globalização excludente.

Toda essa abordagem quer distinguir o caminho missionário na ótica dos pobres e do profetismo. Fazer parceria, neste caso, não significa juntar num mesmo caldeirão todo e qualquer tipo de ingredientes, fazendo uma mistura sem sabor e sem identidades que só contribui para reforçar a exclusão e atenuar o discurso. Tecer alianças permite articular e tornar efetivo o sonho dos pobres. Não é necessário juntar as forças a qualquer custo, é preciso entrelaçar redes para um mundo alternativo, mais justo e solidário.

O caminho em parceria

A teologia da missão, hoje mais do que nunca, reafirma o primado de Deus e seu protagonismo no caminho missionário. A expressão “missio Dei”, na lín-gua latina, significa que a missão tem como sujeito principal o próprio Deus. Todos os cristãos tornam-se colaboradores e parceiros de Deus na atividade missionária. “Como o Pai me enviou, eu também vos envio” (Jo 20,21).

Além disso, a missão foi confiada à Igreja toda. Cabe a ela ser servidora do Reino de Deus. A missão, nesse sentido, é uma “sinfonia coral” de todo o povo de Deus. Ninguém e nenhum grupo pode reter para si a missão, mas todos vivem e devem se envolver no dinamismo missionário. A missão não é propriedade de ninguém, mas um sopro e um ardor confiado a toda Igreja. Todos são colaboradores e parceiros da atividade missionária.

Trilhando o caminho

O que está emergindo de novo na Igreja do Brasil é o caminho da parceria na animação e atividade missionária. É interessante ver como o COMINA e os COMIREs, depois de um período de sedimentação, estão resgatando o sentido de alianças com as forças mais vivas da Igreja. A CRB está reforçando e abastecendo seu caminho na junção de forças com as instâncias missionárias específicas. O CIMI, organismo missionário presente no meio dos povos indígenas, está junto ao COMINA, nos seminários de formação e nas celebrações dos 30 anos de sua existência. O fato de as forças estarem se juntando exige, no entanto, uma maior clareza de objetivos e de métodos. Suess alerta para que a ótica dos pobres e do profetismo não seja colocada em segundo plano. O ponto de base sobre o qual articular as alianças é o compromisso de uma Igreja pobre, itinerante e pascal. Há outras forças vivas que devem ser incluídas no caminho da missão.

Uma experiência de destaque é a articulação entre a CRB de São Paulo e o COMIRE SUL 1, em vista de um serviço maior aos missionários brasileiros além-fronteiras. Encontros e iniciativas estão marcadas para receber e acolher os missionários, a fim de torná-los forças vivas de animação missionária da Igreja. Um outro fato, não menos importante, é a junção das revistas missionárias, entre as quais Mundo e Missão, para preparar um material de primeira qualidade para o mês missionário. São todos caminhos de parceria visando à causa maior da missão.

O COMIRE Norte 1, reunido em Manaus, viu a presença ativa de representantes do clero, bispos e religiosos no aprofundamento da espiritualidade missionária. O encontro dos assessores da Infância Missionária do Estado do Paraná, em Cornélio Procópio, conseguiu entrelaçar a parceria com os Conselhos Missionários Diocesanos, os catequistas e os líderes da Pastoral da Juventude.

É tempo rico de amadurecimento missionário da Igreja no Brasil. O caminho da maturidade passa, neste momento histórico, através da parceria, da articulação e de novas alianças. “Meu par, quer dançar comigo?”.

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