Revista "MUNDO e MISSÃO"

Igreja no Brasil

Radicalmente pelo evangelho

"Mundo e Missão" pediu ao bispo missionário d. Máximo Beinnés, TOR, que entrevistasse um missionária leiga que, há quase 28 anos, ele convidou para trabalhar na diocese de Cáceres, MT. Do diálogo entre dois grandes amigos, brotaram as memórias de fé e vida de Marta Maria da Silva, cheias de humildade e total confiança na Palavra que é "luz para o caminho"

Se me perguntassem como conheci minha mãe, meu pai, minha pequena terra natal, não saberia responder, mas o reconheço e diferencio, sem perigo de me equivocar. Da mesma forma não sei bem explicar como a "Boa Nova" tornou-se para mim um fonte. Depois do Vaticano II, sem alardes e sem manchetes, acontecia, também no interior de Minas, uma pratica de formação cristã para adultos que se fazia em pequenos grupos de reflexão bíblica: as comunidades profundamente devotas e piedosas se renovaram, secularizaram-se com a Bíblia na mão.

Esse era o método, essa era a pedagogia da Boa Nova" que conscientemente se delineava: nós chegaremos ao político- socioeconômico, pela fé, iluminados pela Palavra de Deus. Respirando esse ar e escolhendo esta vivência, pude ver muita luz de Deus nos caminhos. Nessa Igreja fui crescendo, com ajuda de muita gente que foi puxando o "trenzinho das comunidades", sendo fermento, sal e luz pelos campos e cidades deste Brasil , ajudando nesta "escola da integração fé e vida".

O convite para um ano no Mato Grosso

Participando de um mundo tão religioso, não era de se estranhar que eu tendesse para radicalizar uma prática onde a Boa Nova se tornasse "Lâmpada para meus passos e Luz para meus caminhos." E foi assim: estávamos Alcina e eu num curso para liderar grupos de "Boa Nova", em Caratinga, Minas, quando conhecemos d. Máximo, bispo de Cáceres/MT, que nos falou de sua diocese.

Aquelas palavras chegaram com brilho de luz aos nossos corações de 21 anos de idade, atraindo, seduzindo, apaixonando. Depois de um diálogo e recíprocas apresentações de ideais e planos, combinamos nossa a Cáceres, para dali 15 dias. Nas combinações da viagem, frisamos que a missão era para um ano. E como no dia que passou ontem, lá vivemos 22 anos. só pode ter sido muito bom mesmo...

Alcina e eu chegamos a Cáceres, em 71. Era mundo não surpreendente crescimento populacional que recebia migração de todas as partes do Brasil. Havia um média de 20 comunidades eclesiais, muito distante entre si: era preciso fazer 250Km para chegar a uma delas, sem contar as dificuldades nas estradas, sendo que as vezes, levamos três horas para percorrer 40 Km...

Em 1974, nos fixamos em Rio Branco, uma das Glebas. Na região, havia umas 15 comunidades -eclesiais e, sob a orientação da diocese, nos dedicávamos à formação de catequistas, equipes de liturgia, lideranças da "Boa Nova", ajudando na formação das comunidades existentes e a nuclear outras comunidades -eclesias. Era um trabalho muito eficaz e gratificante: reunia boa vontade, fé e as necessidades do povo à coragem e à ardorosa da Igreja.

Como também estava no centro de nossa opção a contribuição social e transformadora, assumimos com entusiasmo o processo educacional de jovens e crianças que chegavam e já nasciam naquelas terras desmatadas. Foram longos tempos como professoras ou na direção: ora regularizando escolas ora iniciando cursos de Educação Infantil ou profissionalizantes, para atender a demanda populacional e às necessidades locais e regionais.

Era a experiência do "crer com as mãos"! Em 1983, chega Eliane, médica: mais uma companheira de missão. Na sua opção para viver e conviver com este povo, têm preferência pelos carentes e empobrecidos, por isso inicia um atendimento médico com a mediação do Sindicato dos Trabalhadores Rurais, depois organizado pelas comunidades eclesiais de base.

A isso acrescentou-se a formação e a orientação de agentes de Pastoral de Saúde, que transmitiam, nas Cebs, informações e cuidados com a saúde, mediando o atendimento de consultas e as vacinas. Um grande mutirão de solidariedade, de gratuidade, de fé, de esperanças, de cidadania para todos.

A transformação da realidade

Quando as comunidades/ Igrejas se tomam agentes de formação, transformação e prática, é como diz o profeta Isaías: "A Palavra que sai da minha boca è como a chuva, não volta sem reproduzir os seus frutos". A crescente conscientização -sobretudo nos grupos de reflexão bíblica- da realidade opressora, do empobrecimento e a inquietação iluminada pela fé, fez com que nascessem com força projetos alternativos-comunitários, cujo objetivo era a formação ministrados pela equipe dos Direitos Humanos da diocese, ensinando a sondar a realidade social e econômica para planejar, realizar e avaliar meios de produção para sobrevivência das famílias. Na construção civil , havia um grupo de adolescentes que, com alguns mutirões de adultos, construíram uma pequena granja de galinhas, onde posteriormente criavam poedeiras e frangos de corte. E também tinha um salão de corte e costura, onde senhoras ensinavam os jovens e outras mães aprendiam uma profissão.

Destino Itaguaí

O livro do Eclesiástico diz: "Há tempo para chegar e há tempo para partir". Alguns fatos assinalaram esta hora, sobretudo a saúde e a idade de nossos pais que nos atraíram mais perto deles. Cáceres distante de nossas famílias um média de 2.500Km. Então fomos para o Rio de Janeiro Itaguaí é uma cidade da Baixada Fluminense. Não há aparentes paralelos entre a realidade que vivíamos e a que agora assumimos.

Escolhemos um bairro da periferia, onde mais tarde viemos morar na Pastoral dos quatro pequenos bairros vizinhos. As entranhas de nossa fé nos enviavam de casa em casa, buscando o coração da vida das pessoas. E começamos a falar de círculos bíblicos. E, aparece nosso anjo: Terezinha, percebendo nossa inexperiência na realidade da Baixada Fluminense, se propôs a nos acompanhar para que pudéssemos alcançar as pessoas.

Ia nos orientando sobre os horários, costumes de pessoas, perigos, atalhos nos caminhos, pequenos e importantes sinais e símbolos no relacionamento. Ela era nosso consolo nas inúmeras vezes que batíamos a uma porta e não ouvíamos a resposta de acolhimento. Nas idas e vindas, a sua companhia era a estrela que nos acompanhou generosamente, durante um ano. Nos seis anos que estamos em Itaguaí, recebemos muita proteção e ajuda, especialmente de frei Carlos Mesters, um presente para Igreja católica, para o povo de Deus e para compreensão e vivência da Bíblia. Sua presença aqui na Igreja de Itaguaí é carregada dessa riqueza.

Ardor e fidelidade

Deus nos agraciou benignamente com o dom da fé, depois nos conduziu para viver numa Igreja missionária, cuja administração pastoral tem o olho no Evangelho e outro no povo com sua história, suas fragilidades e capacidade, que nunca se amedrontou em considerar o povo das Cebs como protagonista na missão da Igreja junto á sociedade e agente de transformação que, semeando esperança, construiria "uma nova terra e novos céus".

Eu poderia continuar falando de acontecimentos, testemunhos de fidelidade, confirmados na fé numa Igreja de base... Não existe hiato entre os 22 anos de Mato Grosso e os seis em Itaguaí, mas um renovado ardor, comprometido com a vida e a fé deste povo com quem Jesus se identifica.

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