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RAÍZES de um povo religioso
Maria José de Deus
Como os antepassados, os afro-descendentes manifestam uma religiosidade
rica em símbolos e significados, comprometida com a causa do povo
negro e expressa nas festas e celebrações
Mais de um século depois de a princesa Isabel assinar a Lei Áurea,
pondo fim à abolição da escravatura, poucos negros
ocupam lugar de destaque na política e economia do país,
mesmo formando um contigente de aproximadamente 43% da população
brasileira.
Ainda se constrói uma história baseada no preconceito disfarçado
e na resistência contínua por parte da comunidade negra e
de alguns segmentos da sociedade, buscando modificar essa conjuntura que
exclui cerca de 60 milhões de afro-descendentes.
No âmbito eclesial, algumas iniciativas nesse sentido foram tomadas
a partir da década de 60, com o Concílio Vaticano II e seus
desdobramentos em Medellin (1968) e Puebla (1979), quando a Igreja passa
a adotar novas linhas de reflexão e atuação, questionando
as causas da marginalização na América latina e fazendo
uma opção preferencial pelos pobres.
"Os negros começam a se organizar quando percebem que estão
sendo contemplados com essas medidas e que a Igreja latino-americana passa
a identificar-se com eles", conta o padre José Enes da igreja
Nossa Senhora de Casaluce, no bairro do Brás, em São Paulo.
Daí se justificar, nas décadas seguintes, o aparecimento
de vários movimentos dentro da Igreja católica - que hoje
somam mais de uma dezena - voltados para a sensibilização
e preservação das raízes culturais, o resgate da
dívida social para com os negros e empenhados na educação
dos jovens para o mercado de trabalho.
Essas reflexões sobre negritude e fé têm seu ponto
alto no Encontro Nacional de Padres, Bispos e Diáconos Negros que,
a cada ano, consegue reunir cerca de 600 representantes dos Agentes de
Pastoral Negros (APNs), Instituto Mariama de Articulação
de Padres, Bispos e Diáconos Negros (IMA), Grupo de Reflexão
Negro e Indígena da Conferência dos Religiosos do Brasil
(Greni), Congadas, Irmandades e até religiosos e leigos de países
africanos.
Nesses encontros, entre outras conclusões, foi possível
constatar que de um total de 400 bispos brasileiros, cinco são
negros e de 14 mil padres, apenas 500 são afro-descendentes. Além
disso, os movimentos têm buscado uma aproximação com
os cultos africanos, favorecendo a inculturação e o diálogo
inter-religioso, incentivados por João Paulo II. O papa é
um incansável defensor do respeito e da aproximação
do cristianismo com os povos e suas respectivas culturas, com atestam
seus pronunciamentos na Conferência de São Domingo, durante
a realização dos Sínodos e na carta apostólica
Rumo ao Novo Milênio.
Outras iniciativas fora da Igreja conseguiram criar o Dia Nacional da
Consciência Negra (20 de novembro), em memória de Zumbi,
líder do Quilombo dos Palmares, destruído em 1694, na Serra
da Barriga, Alagoas, com o intuito de despertar para o exercício
da política como meio de se alcançar a cidadania, na luta
pela posse da terra com a reforma agrária e o direito às
terras remanescentes dos quilombos.
Contribuição histórica
Dentre os bispos que mais se envolveram com a causa do negro, encontra-se
dom José Maria Pires, arcebispo-emérito da Paraíba.
Ele é considerado um dos principais responsáveis, juntamente
com alguns padres, pela elaboração da proposta apresentada,
em Medellin, tratando da realidade do negro no Brasil.
Assim como dom Gílio Felício, recém-nomeado bispo-auxiliar
de Salvador por João Paulo II, o arcebispo da Paraíba incentiva
a liturgia afro, a adoção de um rito afro-brasileiro e a
criação, junto à CNBB, de um secretariado próprio.
A Missa dos Quilombos e a celebração durante o Comla (Congresso
Missionário Latino-Americano) chamaram a atenção
para a riqueza da religiosidade de um povo, inserida na Igreja desde o
tempo da escravidão e responsável pela organização
dos negros escravos e seus descendentes nas Congadas, nas Irmandades e
Confrarias de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, de São
Benedito, Santa Ifigênia e na construção de belíssimas
igrejas em São Paulo, Rio de Janeiro e Salvador, que hoje fazem
parte de nosso patrimônio histórico e cultural.
Essas festas ainda podem ser vistas, enriquecendo a Igreja e fazendo parte
da tradição católica. Assim como as celebrações
atuais, elas retratam o gosto e estilo dos afro-descendentes que, como
os antepassados, expressam uma religiosidade festiva, irmanados na defesa
e preservação de seus direitos.
Celebração diferente
Nem sempre essas celebrações são compreendidas e
assimiladas por fiéis e religiosos, porque agregam símbolos
considerados estranhos à liturgia tradicional. "Existe um
significado para a utilização do atabaque, do berimbau,
para as vestes dos padres e dos trajes de um colorido vivo usado por mulheres
e crianças durante as procissões da Palavra e do ofertório",
explica o padre Enes.
Segundo o padre, esse ritual expressa a universalidade dos símbolos
pertencentes à cultura africana que transcende o domínio
das religiões. É por isso que a missa afro não é
celebrada freqüentemente, só em ocasiões especiais
e preparada com zelo pelos Agentes de Pastoral Negros para o Dia Nacional
da Consciência Negra e nas ordenações como a do diácono
Devanil Ferreira, da Congregação dos Oblatos de São
José, presidida por dom Gílio Felício, em fevereiro,
na cidade de Apucarana (PR).
"É um rito católico inculturado. Não fazemos
sincretismo, isto é, misturar elementos dos cultos africanos à
celebração", acrescenta o diácono, que coordena
a Pastoral Afro no Santuário Santa Edwiges, no bairro do Sacomã,
São Paulo, e há quatro anos vem organizando celebrações
desse tipo para a comunidade e representantes de vários movimentos
negros.
Durante o ofertório, por exemplo, não são mais apresentados
os símbolos do sofrimento e tortura lembrados durante a Campanha
da Fraternidade de 1988, cujo tema -"Ouvi o clamor desse povo"
- denunciou a marginalização do negro. Agora são
levadas ao altar as vitórias e perspectivas representadas num livro
pelo acesso à educação ou nas atividades de um profissional
liberal, assim como elementos da natureza como a terra, a água,
o fogo representando as origens da vida e os frutos do trabalho do homem.
ANSEIOS DE LIBERTAÇÃO
Proibidos de prestar culto às divindades africanas e freqüentar
as mesmas igrejas dos senhores, os negros resolveram fundar as Confrarias
e as Irmandades do Senhor do Bonfim, de Nossa Senhora do Rosário,
de São Benedito, de Santa Ifigênia, de São Jorge,
de Santo Elesbão, de Santo Antônio de Categeró, de
São Gonçalo, que se expandiram pelo Brasil.
Nessas devoções foram inseridos festejos populares como
a coroação do rei e da rainha congos, as cheganças
e seus almirantes, capoeira e batuques, tudo incrementado com cantoria
e rituais que lembravam a África. O povo bantu é considerado
responsável por trazer ao Brasil às devoções
a Nossa Senhora do Rosário e São Benedito levadas ao Congo
por missionários portugue-ses. Nessas ocasiões, podia ocorrer
também uma maior aproximação entre brancos e negros
que se divertiam nos folguedos, fazendo da rua um espaço democrático,
ignorando - ainda que por um certo tempo - as diferenças sociais.
TUDO EM COMUM
Além do aspecto religioso, as irmandades e confrarias tinham objetivos
humanitários e de fraternidade, onde todos se irmanavam na luta
e defesa dos escravos, fortalecendo a religiosidade, o culto aos mortos,
o desejo de ser alforriado e a consciência dos princípios
de liberdade.
"Existem algumas experiências muito bonitas neste período.
Os negros que conseguiam carta de alforria trabalhavam como biscateiros
e ajuntavam suas economias. Na festa de Nossa Senhora do Rosário
ou São Benedito, eles abriam o caixa comum e resgatavam a liberdade
de outros escravos. Isso demonstra um cristianismo forte, comprometido
com a solidariedade", revela o padre Enes. Também as irmandades
mantinham nos terrenos próximos às igrejas pequenas casas
habitadas por africanos livres, muito pobres, que chegavam a montar quitandas
onde vendiam doces, geléias, frutas, legumes e hortaliças.
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