Revista "MUNDO e MISSÃO"
Igreja no Brasil
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A IGREJA NO BRASIL Cristãos unidos na DEFESA DO HOMEM A celebração dos dois mil anos de nascimento de Jesus Cristo traz um grande desafio a todos os que nele se encontram na mesma fé: superar as divisões para dar ao mundo um testemunho da Boa Nova, que se traduza em compromisso para a construção de um mundo de fraternidade e de paz. Nesta luz, a tradicional Campanha da Fraternidade (CF), promovida pela Igreja católica no Brasil, desde 1963, adquiriu dimensão ecumênica neste ano de 2000. Será levada pelas Igrejas que fazem parte do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs - CONIC, que inclui sete igrejas; outras são convidadas a aderir. O tema escolhido pela Campanha é Dignidade humana e paz", com o lema "Novo Milênio sem exclusões". A dignidade humana "Na zona da Mata, Pernambuco, estima-se que haja 44 mil meninos e meninas, com idade de até 14 anos, cortando cana. Os usineiros reduziram o preço pago pela tonelada de cana cortada. Para darem conta do trabalho, que aumentou mas teve preço reduzido, as famílias são obrigadas a tirar suas crianças da escola para complementar a renda familiar" (Texto-base da CF- 2000, 104). Fatos deste tipo, citados com abundância no texto-base da Campanha, aponta com clareza para a sua finalidade concreta: fazer com que nossos olhos se encontrem com os olhos dos excluídos, para nos tirar das teorias genéricas e da indiferença diante dos dramas humanos conhecidos só pelos meios de comunicação. Mas a dignidade humana não se mede pelos números nem pelo status das pessoas: cada pessoa nasce nua e é homem ou mulher não pela conta dos pais ou pela classe social à qual pertencem nem pelo grau de cultura, mas pelo fato de ser "ser homem ou mulher". A Declaração Universal dos Direitos Humanos proclama: "Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos, são dotados de razão e consciência e devem agir em relação uns aos outros com espírito de fraternidade". São palavras escritas em 1948, diante do cenário de destruição e de profanação da dignidade humana que ofereceu o mundo nas duas Guerras Mundiais. Depois de 50 anos, a impressão é que a humanidade aprendeu pouco e continua pisoteando a pessoa humana e fazendo em pedaços a paz: Bósnia, Timor Leste, Sri Lanka, Chechênia são nomes que tornam atual, hoje, a memória dos horrores de Hitler e de Stalin. A paz é uma flor muito frágil e é ameaçada e destruída "sempre que a vida humana é violentada [...]. Quando há o desespero por causa do desemprego, da falta de pão, da saúde maltratada, da miséria, do desabrigo, da juventude drogada, da violência em casa e nas ruas, dos encarcerados sem direitos, das crianças sem escola, dos preconceitos contra o diferente... Há falta de paz, ainda, quando não respeito a mim mesmo, ao outro, à natureza, a Deus, rompendo alguma ou algumas das relações essenciais que me constroem positivamente como pessoa e constroem o outro, a sociedade, a natureza" (Texto - base, 40). A paz Esta ligação entre direitos humanos e paz abre a uma nova compreensão da paz e da guerra. Geralmente pensamos que são duas situações bem delimitadas e distintas: há guerra, quando um exercito combate contra o outro: fora disso, a situação é de paz. Com isso, porém, não enxergamos, também Aquino Brasil, as guerras não declaradas, mas bem reais, enumeradas na citação acima e muitas outras. Há guerra na discriminação dos negros e dos índios, entre a minoria rica e a maioria pobre, nos preconceitos contra a mulher, na reforma agrária negada, na corrupção política e econômica, nos salários injustos, no sistema que gera pobreza. Em uma palavra, onde existe exclusão, ai é aceso um foco de guerra, (Id., 53) Causas Há várias causas que geram tais situações e a primeira reside nas próprias pessoas que abrigam, na sua e no seu coração, idéias que levam ao desrespeito permanente da dignidade humana. "A primeira dessas idéias é a aceitação, como algo inapelável, de uma sociedade dividida em duas: a dos que têm importância e a dos que não precisam ser considerados como seres humanos. A segunda é a banalização do inaceitável: as tragédias, de tão vistas, se tornam paisagens comuns que não despertam mais reação" (Id., 278). Nosso sistema econômico adora um ídolo, o lucro, e a ele sacrifica tudo: a natureza, as instituições estatais, as leis, a religião, a arte e a cultura, os seres vivos, o espaço e própria pessoa humana. É a segunda causa do desrespeito da dignidade humana. No Brasil, os 20% mais ricos controlam mais de 64% da renda, enquanto 20% mais pobre sobrevivem com 2,5% da renda. É uma guerra organizada por um exército que dispõe de todos os meios legais e ilegais contra um povo indefeso. Enfim, nosso sistema político tem uma grande parte de responsabilidade na exclusão da maioria, porque é controlado por pessoas e grupos que não visam ao bem comum, mas à manutenção de seus interesses e privilégios e dos setores poderosos do País. As urgências sociais não são prioridades e assim a situação dos pobres piora cada vez mais. Basta pensar na reforma agrária, continuamente adiada, e nas famílias famintas acampadas à beira das estradas. Propostas Este panorama real não pode limitar-se só às sombras dramáticas que, às vezes, tentam nos tirar a esperança, fazendo-nos sentir pequenos e impotentes diante a enormidade dos desafios e da força do mal. Existe toda uma realidade de vida, de promoção da dignidade humana e da paz, muitas vezes escondida, feita de pequenos gestos de pessoas pequenas. Concretamente, o primeiro passo para a realização do objetivo da CF é a formação de cada pessoa para uma cultura dos direitos humanos, da paz, da solidariedade, da partilha, da justiça, do diálogo. É necessário formar homens novos que serão capazes de renovar a mentalidade e as estruturas da sociedade. A isso são chamadas as famílias, as escolas, as comunidades religiosas. A respeito destas, o Texto-base pergunta: "Que espaço esses objetivos têm na educação religiosa de jovens, crianças e adultos? como isso aparece nas nossas pregações no material escrito que divulgamos, nos subsídios que colocamos a disposição da comunidade?" (303). E propõe que cada comunidade levante os recursos humanos que tem e os confronte com as necessidades dos excluídos mais próximos. Sempre no âmbito da formação, são sugeridos cursos e encontros de conscientização e formação política, possivelmente ecumênicos, para desenvolver uma participação cada vez mais responsável dos cristãos na vida política em nosso País e possibilitar a escolha de candidatos comprometidos com a promoção da vida de todos e em todos os aspectos. O texto-base aponta também algumas iniciativas em nível ecumênico que tiveram e ainda estão tendo repercussão em nível social e político, como as Semanas Sociais, a Iniciativa Popular Contra a Corrupção Eleitoral, a luta pela reforma agrária, a discussão sobre a dívida externa. O homem é um valor que vai além das diferenças das Igrejas e das religiões e a promoção integral da sua dignidade e da paz será possível só através de um grande mutirão ecumênico e inter-religioso (e os homens de boa vontade), que some esforços e suscite o positivo da humanidade. A CF 2000 é um passo nesta direção. |
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