Revista "MUNDO e MISSÃO"

Evangelização - Inculturação

Superando as barreiras culturais

Alberto Garuti

É possível aceitar e viver o Evangelho sem abandonar a própria cultura? Uma das dificuldades que sempre existiram na evangelização além-fronteiras é o diálogo intercultural. A seguir, apresentamos dois exemplos desse diálogo: de um sacerdote africano que exerce seu ministério pastoral na Bélgica e de um ex-budista do Camboja, que se tornou cristão e que vive numa cultura profundamente budista

Um africano, pároco na Bélgica

Um sacerdote da República Democrática do Congo, no centro da África, exerce seu sacerdócio na Bélgica, o antigo país colonizador.
"Estou aqui para continuar o trabalho de Jesus Cristo: proclamar a Boa Nova neste tempo! Eu não digo a meus paroquianos: vim para converte-los!". O padre Emery Mukulu Kabongo vive em Pecrot, uma pequena comunidade perto de Louvain-la-Neuve, na Bélgica, onde exerce a função de pároco há dez anos.
Nascido em 1948 no antigo Congo Belga (atualmente República Democrática do Congo), doze anos antes da independência, o padre Kabongo foi ordenado sacerdote em seu país, onde exerceu o ministério durante cinco anos. Depois foi à Bélgica continuar seus estudos na universidade de Louvaina, onde lhe foi pedido de colaborar com um vigário que se ocupava de duas paróquias.
"Quando esse sacerdote partiu, fiquei surpreso, conta o padre Kabongo, pois fui chamado à cúria e informado de que os paroquianos tinham sugerido meu nome para o cargo de pároco. Cer-tamente, quando cheguei aqui, não tinha pensado em ser missionário entre os brancos. Mas os caminhos do Senhor são insondáveis: quando dizemos sim para ele, não sabemos até onde nos levará..."

Uma sensibilidade diferente

O padre Kabongo conheceu os Padres Brancos (um instituto missionário fundado na França para a evangelização da África) em sua infância, antes de entrar no seminário. "Deus serviu-se deles, diz, para fazer nascer em mim a vocação. Temos o mesmo desejo de proclamar o Evangelho. A diferença é que eu não me sinto investido de nenhum poder..."
Entre seus paroquianos, alguns (uma minoria, precisa o padre Emery) estranharam sua nomeação. Outros estavam encantados com o fato de eu permanecer ali. "Eu estou consciente de ter levado comigo minha sensibilidade africana, minha visão da vida. Há uma maneira africana de viver o Evangelho com uma fé que dá esperança. Na Europa tudo é tratado com estresse, angústia e nervosismo. Os próprio paroquianos me confessam: 'você nos dá uma visão positiva da vida' ".
Emery Kabongo está contente por ter conseguido a confiança de seus paroquianos: "Os brancos se abrem menos facilmente que os negros. Nós somos mais diretos". De fato, ele é capaz de ficar muitas horas recebendo as pessoas, dialogando e analisando as situações problemáticas. "Durante o diálogo, eu quero mostrar-lhes que há sempre um jeito de resolver os problemas. É preciso tomar o tempo necessário e não ser pessimistas. Assim, freqüentemente encontramos uma solução. Mas, atenção: meus paroquianos me ensinaram muito. Por exemplo, seu compromisso com o trabalho".
Convicto deste enriquecimento mútuo, o padre Emery Kabongo gosta de organizar em sua casa refeições interculturais. "Freqüentemente, peço a amigos de vários países que preparem algum prato típico de sua terra. Um traz algo característico da Bélgica, outro do Canadá ou de algum país africano. Isso nos ajuda a superar os preconceitos".

O Sul evangeliza o Norte

Consciente do mal que a colonização (por parte da Bélgica, no caso) fez a seu país, o padre Emery não tem nenhum problema em perdoar. "Certamente, sem a colonização, a evolução africana teria sido diferente, provavelmente melhor... ou pior... Quando volto a minha terra, o povo me pergunta se os brancos me aceitam como pároco negro. Parece-me importante poder testemunhar-lhes que as coisas mudaram, que nos enriquecemos mutuamente".
Em todo caso, é bom ver que o Norte que evangelizou o Sul começa a receber evangelizadores do mesmo Sul. Como diz um provérbio africano, lembrado por Kabongo, "quando você dá algo, cedo ou tarde esse algo volta a você."

Tradução da revista Peuples du Monde

Do budismo ao cristianismo

Chamrun é cambojano com cerca de 45 anos. Casado e pai de 5 filhos, funcionário da alfândega do porto de Phnom Penh. Foi batizado em 1995. Sua mulher é membro de uma Igreja evangélica. Desde 1996, é catequista de adultos. Leigo convertido do budismo, ele mostra que nem sempre é fácil para um cristão não ser considerado um traidor de suas tradições culturais. Mas para ele, o Evangelho completa o que disse Buda. Eis a seguir um depoimento do próprio Chamreun.

Eu sou da etnia khmer. Meus pais eram budistas, eu era budista assim como 99% das pessoas de meu povo, originário do campo, perto de uma aldeia onde viviam alguns católicos vietnamitas. Desde a adolescência, eu me perguntava algo a respeito de Deus: "será que há um Deus dos khmers e um Deus dos franceses? Há então vários deuses? E qual será o verdadeiro?".
Um Deus com muitos aspectos
Encontrei protestantes que me falaram de um "Deus verdadeiro" e católicos que me ensinaram que conhecemos só alguns aspectos do Deus único e que, como há muitos meios para se chegar a uma cidade, assim há muitos meios para se chegar a Deus. Gostei dessa explicação e acho que foi nesse momento que descobri que Jesus Cristo é o meio que nos leva mais diretamente a Deus.

Um Deus estrangeiro?

Quando me tornei cristão, muitas pessoas me criticaram e me insultaram. Diziam que eu tinha abandonado as tradições dos khmers e que era um traidor de meu povo. Alguns me perguntavam: "Por que você honra um Deus estrangeiro?". Dentro de mim eu pensava: "Mas Buda também não era khmer, não era do Camboja, era do Nepal!". Depois descobri que Jesus nos leva ao Pai e que completa o que Buda disse. Quando digo isso, os meus conterrâneos não me chamam mais de traidor da religião budista, ainda que não compreendam o que eu estou dizendo, pois é novo demais para eles. Nosso diálogo com os budistas é quotidiano.
Nossos irmãos budistas não refletem muito sobre os ritos que fazem. Eles dizem simplesmente: "É a tradição". Quando comecei a morar num certo bairro, um feiticeiro propôs-me fazer ofertas ao antepassado protetor. Respondi que não precisava, pois Deus me protegia e que os mortos não nos podem fazer nada de mal. Pelo contrário, era necessário ocupar-se dos vivos, especialmente dos pobres. Depois disso ele começou a me detestar porque não compreendeu.
A Igreja me ensinou a refletir sobre os ritos tradicionais, a não seguir cegamente a tradição. Nós celebramos o dia dos defuntos no mesmo dia que os budistas e realizamos até certos ritos que são parecidos, mas damos um sentido novo a esses ritos. Não se trata de conseguir méritos para os mortos, mas de marcar nossa solidariedade com os pobres na ocasião dessa festa. Os mortos não precisam dos méritos que podemos conseguir para eles, pois já estão na paz de Deus. Em todo caso, como os budistas, não nos esquecemos deles: pensamos neles e rezamos por eles.

Buda é sempre um sábio

Quando os evangélicos pregam a Boa Nova, dizem que Buda é o demônio, que é o inimigo. Antigamente, isso me revoltava, mas eu não sabia o que dizer. Depois, refletindo com outros cristãos, achei que ele foi um sábio que refletiu sobre os problemas do homem e que achou uma teoria pela qual os homens pudessem fugir do sofrimento e viver juntos. Portanto, ele não é o demônio, mas um "Grande Mestre" que nos ensinou um caminho.
Contudo, Buda não é o Salvador, que nos conduz ao Pai. Somente Jesus é o nosso Salvador.

Eu gosto do budismo

Eu estou convicto de que somente quem conhece profundamente a própria religião pode compreender a verdade das outras religiões. Um khmer que não ame o budismo não pode ser um bom cristão, pois não tem desejos religiosos profundos. Eu gostaria que a Igreja tivesse um aspecto mais "khmer" para que nossos irmãos budistas pudessem se tornar cristãos sem renunciar a toda sua cultura. Afinal, Jesus transformou a água da cultura khmer em vinho do Reino, mas o jarro continuou o mesmo.
Nós podemos ser budistas, judeus, muçulmanos, cristãos, todos caminhamos em busca de um só Deus. Nós, cristãos, tivemos a sorte de conhecer Jesus Cristo que nos conduz diretamente ao encontro pessoal com o Pai. Esse pensamento é como uma luz que me ajuda no diálogo com meus irmãos budistas e protestantes. Mas como dizer isso a eles? É sempre difícil achar palavras para expressar a própria fé.

Testemunho e profecia

Os evangélicos me disseram que gostariam que fizesse parte de sua Igreja, como minha mulher, mas eu lhes disse que é bom que haja um coração em cada um dos dois lados. Há muita coisa bonita, mas eles se preocupam demais em separar-se dos outros para pertencer aos puros, um pouco como os fariseus. Eu lhes digo que me orgulho de pertencer a uma Igreja que vem diretamente de Pedro e, portanto, diretamente de Jesus, sem interrupção, até hoje.
Nós cristãos devemos ser como os profetas: falamos de Deus, mas especialmente, agimos para promover a justiça ajudando os pobres, as viúvas e os órfãos, sem ficar discutindo quem está com a verdade ou quem está com o erro. Freqüentemente digo, em minhas discussões com os protestantes: "É preciso ser sinal e não somente pregador." Por exemplo: eu pergunto muitas vezes: que quer dizer salvação? É o amor que recebemos de Deus e que compartilhamos com os outros, não para conseguir méritos, como eu fazia antigamente, mas para sermos um sinal de salvação.

Respeitando a cultura

Em meu serviço na alfândega, acontece com freqüência de falarmos de religião. Há três funcionários abaixo de mim. No começo, não gostavam de mim porque sou cristão. Diziam-me: "Quem é esse Deus pregado na madeira?" Diziam com desprezo, pois isso não tinha nada a ver com a tradição khmer. Pensando comigo mesmo, achei que, de fato, tratava-se de uma tradição dos judeus que precisava ser explicada a partir da mentalidade khmer para que a entendessem. Então falei: "Quando vocês estão doentes, procuram os feiticeiros que lhes dizem de pregar uma galinha sobre uma madeira e deixá-la nas encruzilhadas para sararem ou escaparem das desgraças. Vejam: não se trata de uma galinha, pregada na madeira, mas do próprio Jesus com seu corpo. Os que acreditam nele escapam do pecado e das desgraças".
Pelo fato de ter partido das crenças deles, não sabem o que responder e deixam de fazer gozações de mim.

Uma luta para o bem de todos

Ser cristão hoje tem muitos sentidos. Por causa das dificuldades que suportamos durante 29 anos, por causa da invasão da cultura estrangeira que aproveitou do fato de o país estar tentando se reerguer de uma situação de desastre total, cada um pensa somente em tornar-se importante, esmagar os pequenos, praticar a corrupção. Nessa situação, a Palavra de Deus com meu testemunho de vida cristão, sob a influência do Espírito Santo, pode mudar, pouco a pouco, o jeito de viver dos khmers e da sociedade. Cada um aprende a partilhar, a buscar o interesse co-mum, o interesse dos fracos. Como cristão cercado por budistas, o que posso fazer é ser modelo de moralidade, de seriedade no trabalho, honestidade. É o meu jeito de reclamar justiça para os pobres, para os que são esmagados porque não têm apoio. Agora, depois do período comunista, adora-se o deus dólar, o Deus poder. Não há mais receio de praticar a corrupção, de se matar um a outro. Desse jeito, o papel do cristão é ser testemunha do valor e da dignidade da pessoa.
Às vezes, para esconder suas faltas, os outros funcionários me acusam de praticar uma religião estrangeira, de ser como um "osso entalado na garganta deles", de não ser khmer, de ser um traidor da nação, um agente secreto. Sou acusado de crimes políticos como, antigamente, acusavam Jesus. Quando fui batizado, recebi o nome de Estevão. Na época não sabia por que, mas, hoje, vejo que isso pode ser providencial, porque ele foi o primeiro mártir.

Presença humilde

Em nossa Igreja, existem projetos para cuidar dos doentes, ajudar as crianças a freqüentarem a escola, programas de alfabetização, de ajuda aos estudantes universitários, aos trabalhadores nas fábricas. É muito pouco, não podemos, certamente, falar de participação na reconstrução do país. Por enquanto, contudo, nossa Igreja é somente um sinal do Reino que está para vir.
Nossa Igreja é ainda muito pequena, muito fraca, pode-se ainda destrui-la como no passado. Seria suficiente que cheguem um dia ao poder pessoas que se opõem à religião cristã. Mas eu não tenho medo. Jesus Cristo ressuscitado estará sempre conosco.

Tradução e adaptação de Spiritus, n.º 158, março de 2000.

Visite as outras páginas

[P.I.M.E.] [MUNDO e MISSÃO] [MISSÃO JOVEM] [P.I.M.E. - Missio] [Noticias] [Seminários] [Animação] [Biblioteca] [Links]

Voltar