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POVOS INDÍGENAS: fonte de sabedoria
Foi o tema escolhido pelo CIMI para a Semana dos Povos Indígenas
(19 a 23 de abril). Publicamos uma redução do texto que
a mesma instituição redigiu pela ocasião
A negação da identidade
Na época do chamado "descobrimento do Brasil", há
500 anos, já habitavam estas terras cerca de 5 milhões de
pessoas, a quem os europeus denominaram índios.
Hoje, os povos indígenas somam uma população de aproximadamente
330 mil habitantes, pertencentes a 215 povos e que falam 185 línguas
diferentes. Vivem no Brasil desde povos que ainda não foram contatados
e permanecem praticamente isolados da civilização ocidental,
até comunidades e/ou indivíduos indígenas urbanos
nas capitais do País. Da população indígena
brasileira, cerca de 60% vive atualmente na Amazônia legal.
Desde os tempos da invasão européia, em 1500, os povos indígenas
foram submetidos a uma relação desigual. Em nome da chamada
civilização, do progresso e da modernização
capitalista foram expostos a políticas e processos de descaracterização
sócio-cultural, de negação de sua identidade física,
de espoliação de seus territórios, dos recursos naturais
e riquezas da biodiversidade.
Os povos indígenas foram sempre colocados à margem do Estado
Nacional brasileiro que, a partir de padrões autoritários,
etnocêntricos e centralizadores, nega-lhes a cidadania legal e o
direito de ser étnica e culturalmente diferentes.
A biodiversidade e a sabedoria indígena
A biodiversidade, ou as várias formas de vida da natureza, é
hoje um tema amplamente discutido. No contexto da globalização,
estudiosos indicam que a satisfação das necessidades alimentícias
e medicinais da maioria da população mundial sustenta-se,
hoje, nos recursos da biodiversidade e no uso do conhecimento das comunidades
indígenas e tradicionais sobre conservação e utilização
de plantas, animais, insetos, micróbios e sistemas de cultivo.
Os países ricos são os que extraem, classificam e analisam
a maioria dos recursos da biodiversidade sem que os resultados das pesquisas
e seus benefícios sejam revertidos aos países de origem
dessas riquezas. Os povos indígenas, através dos séculos,
domesticaram, melhoraram e partilharam entre si, como base de sua subsistência,
alimentação e saúde, muitas espécies naturais.
No entanto, aos poucos, foram perdendo controle sobre esse material genético.
Das sementes coletadas nos países subdesenvolvidos, cerca de 60%
permanecem armazenadas nos centros de pesquisas, instituições
e laboratórios privados sediados nos países ricos.
As atuais políticas de exploração dos recursos naturais
e da biodiversidade expõem os povos indígenas a um duplo
risco: de depender cada vez mais da lógica do mercado, tal como
está organizado, e de ver desestruturados radicalmente seus padrões
tradicionais de vida, sua visão de mundo (cosmovisão) e
sua organização sócio-cultural. Estes aspectos estão
na base de seu relacionamento com o ambiente natural e da produção
de seus conhecimentos sobre ele.
A cosmovisão dos povos indígenas
Os índios se relacionam com o mundo e a natureza considerando-os
a grande família. Geralmente, não existe oposição
entre mundo sócio-cultural e mundo natural; há uma sociabilidade
entre ambos, entre seres humanos, animais e vegetais. A razão utilitarista
deve ser considerada inexistente nessa relação.
A relação com a natureza baseia-se na visão de mundo
de cada povo e é interpretada simbolicamente. Assim, a subsistência,
os roçados não são apenas fonte de alimento ou de
prestígio, mas são parte de uma realidade que é,
ao mesmo tempo, material e espiritual.
Dessa forma, a visão de mundo dos povos indígenas propõe
a unidade de relações econômicas e espirituais, celebrada
em rituais, cantos e festas. Vincula os recursos naturais e agrícolas
a seus respectivos espíritos criadores e protetores. O mundo natural
recebe vida e crescimento através da consagração
pela presença do mundo espiritual. Nessa perspectiva, habitat,
aldeia e maloca representam o centro do universo, unindo fauna e flora
num único sistema. A habitação humana simboliza,
assim, a abóbada do universo e sob seu teto se encontram todos
os recursos de subsistência. Ritos e cantos fazem do simbolismo
uma realidade: o suprimento festivo das necessidade básicas.
O xamã, neste momento, tem um papel-chave. Ele interage através
do rito, dos sonhos ou dos transes induzidos, servindo como mediador entre
os domínios humanos e extra-humanos. O xamã, que é
médico e conselheiro, é também líder espiritual
e genitor simbólico; simboliza um modo de vida distinto, com conhecimentos
e poder de cura. Representa a raiz da espiritualidade indígena
e sua força é simbólica. Leva politicamente a comunidade
para a auto-suficiência, nas atividades econômicas, políticas
e sociais. Interfere no "mundo que não se vê",
no "reino invisível".
Tudo isso tem sido um espaço de resistência e de ruptura
com as formas materiais e simbólicas de subordinação
impostas aos povos indígenas, desde a invasão de 1500. Os
povos indígenas sempre lutaram para ser sujeitos e protagonistas
de sua espiritualidade e fé, a partir das diferentes formas de
professá-las, desde sua religião tradicional ou de seus
vínculos diferenciados com as mais diversas denominações
cristãs.
A defesa da identidade
Em conseqüência da marginalização e destruição
a que foram submetidos nesses 500 anos, os povos indígenas enfrentam
problemas específicos e demandam direitos especiais entre os quais
se destacam o direito à terra, à autonomia e a uma identidade
cultural diferenciada. O fundamental desses direitos especiais é
seu caráter coletivo, já que até agora os povos indígenas,
quando foram protegidos no marco da Declaração Universal
dos Direitos Humanos de 1948, o foram apenas como indivíduos e
não enquanto povos.
Além de usurpar-lhes a base natural dessa identidade: o território,
seus recursos naturais e lugares sagrados, as classes dominantes e etnocêntricas
buscaram sempre marginalizar os povos indígenas e descaracterizá-los
enquanto coletividade culturalmente diferente. Isso tudo, em nome de uma
pretensa cultura e identidade única e homogênea. Na verdade,
a vontade das classes hegemônicas foi sempre a de que os índios
deixem de ser índios, que renunciem à sua identidade étnica
e cultural. O índio só interessa como peça de museu,
como folclore.
No entanto, os povos e comunidades indígenas têm resistido
a todas as agressões, perseguições e tentativas de
extinção física e sócio-cultural a que foram
submetidos até hoje. E muito além de uma atitude meramente
defensiva, a afirmação da identidade tem implicado para
eles em uma revitalização étnica, inclusive em termos
de crescimento populacional e de reconquista territorial, num processo
de auto-identificação perante a sociedade envolvente.
Essa revitalização conduz inevitavelmente a uma ruptura
com as raízes coloniais e neocoloniais do Estado Nacional brasileiro
com os povos indígenas, como manda a própria Constituição
Federal e estabelecem alguns instrumentos internacionais (Convênios,
Pactos, Declarações), que tratam sobre os direitos indígenas.
À sociedade envolvente cabe reconhecer os povos indígenas
não apenas como remanescentes de um "passado glorioso"
e sim como povos distintos com direito a ter uma identidade étnica
e cultural própria.
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