Revista "MUNDO e MISSÃO"
Indígenas
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A PALAVRA Texto e fotos de Costanzo Donegana
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O bispo dos indígenas
Um dia, d. Leônidas Proaño estava fazendo uma reunião com um grupo de indígenas da sua diocese de Riobamba. Com ele, havia também um sacerdote amigo, estrangeiro. A um dado momento, dom Proaño fez uma pergunta. Passou um minuto, dois minutos: ninguém respondia. O sacerdote começou a ficar um pouco inquieto. Cinco minutos: nada. O sacerdote olhava para dom Proaño, que permanecia totalmente tranqüilo. Dez minutos passados, o sacerdote disse ao bispo: Mas ninguém fala!. Ficaram calados por 500 anos, respondeu dom Proaño. E acrescentou: Escute o silêncio!. O trabalho que dom Proaño fez com os indígenas acho que nunca foi feito no Equador, afirma a antropóloga equatoriana Rosângela Adoum, que foi ministra da Educação e chefiou a Secretaria do Desenvolvimento. Pela primeira vez, eu via os indígenas no Chimborazo olhando para nós brancos direto nos olhos continua ; pela primeira vez o indígena levantou a cabeça; pela primeira vez o indígena deu a mão nua e não através do poncho para não sujar quem a apertava. Pobres e explorados Dom Proaño chegou a Riobamba em 1954 e ficou muito impressionado com o estado em que se encontravam os indígenas. Numa carta do mesmo ano a um amigo professor de Ibarra, sua cidade natal, assim os descrevia: Se nos queixamos da situação do índio em outras províncias, que dizer de sua situação na província do Chimborazo? É de chorar. Vestem de preto ou de cinza. Não apresentam a cor dos índios de Imbabura. Têm o aspecto sujo, repugnante. Nunca se lavam. Os cabelos caídos diante da cara por descuido total, não lhes sobra nem meio dedo de testa. Creia-me, muitas vezes, não encontro onde fazer a unção nas crismas. Pretos e carcomidos os dentes. O acento de sua voz parece um lamento. Olham como cachorros maltratados. Vivem... Senhor! Como vivem! Em choças do tamanho de uma barraca, ou, como ratos, dentro de buracos cavados na terra. Explorados sem misericórdia pelos grandes milionários da província que, depois de vender suas colheitas, vão a Quito, a Guayaquil, às grandes cidades da América e Europa, a esbanjar o dinheiro tirado desse miserável trapo que é o índio do Chimborazo. Quando vejo isso, sinto o coração oprimido e adivinho quanto é formidável o problema de sua redenção. Dom Proaño dedicou os primeiros anos de seu ministério episcopal a conhecer a diocese, através de longas visitas pastorais, e começou a procurar as causas da situação em que se encontrava o povo, sobretudo os indígenas, e as possíveis soluções. A conclusão fundamental traduziu-se naquela que foi, felizmente, definida como a revolução do poncho, que o próprio bispo explicou: Sinto que minha tarefa principal aqui é trabalhar com os indígenas, porque, primeiro, numericamente são mais numerosos; segundo, são os mais necessitados de evangelização e, enfim, porque neles há mais fome de Deus.
Ação e inspiração Dom Proaño foi uma pessoa que lutou por seus ideais, que se dedicou totalmente a sua missão de sacerdote e de bispo, que teve idéias claras que traduziu em planos pastorais, concretizados sobretudo na formação, na organização e num compromisso radical com o homem no plano social. Porém, a raiz de tudo era uma profunda espiritualidade, cristológica e trinitária: Ele (Cristo) foi minha vida. Ao entender que Deus me amou, por meio de seu Filho, experimentei um sentimento de gratidão muito profundo e senti, sobretudo em certas ocasiões, um amor apaixonado pela própria pessoa de Cristo. Mais que nos estudos de teologia, nesta intercomunicação interior com Cristo, cheguei a adivinhar a vida comunitária existente entre Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo. A partir dessa sua experiência pessoal, dedicou-se durante toda a vida à construção da Igreja através de comunidades vivas, de reflexão, oração e ação, entre sacerdotes e leigos, das quais ele participava ativamente. Quis também construir comunidades de base, que fossem o coração da pastoral comunitária, não, porém, fechadas, e sim voltadas missionariamente para a evangelização. E encarnadas na realidade, na base do método: ver, julgar e agir, aprendido na escola da JOC (Juventude Operária Católica) e de Paulo Freire.
Também sua escolha preferencial pelos indígenas cava fundo: Creio nos pobres e nos oprimidos. Crer nos pobres e primidos é crer nas sementes do Verbo. Creio em suas grandes capacidades, particularmente em sua capacidade de receber a mensagem de salvação, de entendê-la, acolhê-la e de colocá-la em prática. Por isso, é verdade que os pobres nos evangelizam. O evento do Concílio e das sucessivas Conferências de Medellín e de Puebla foram determinantes na vida e na atuação pastoral de dom Proaño. Em Roma, conheceu os maiores teólogos do momento e concluiu: Tenho que atualizar meus conhecimentos de teologia; estamos muito atrasados. Numa importante palestra em Medellín, afirmou: Hoje se fala muito de uma mudança radical de estruturas, e eu estou de acordo. Porém, antes da mudança de estruturas, é necessária a mudança de mentalidade, uma mudança do coração, uma profunda e continuada conversão de todo o homem, uma renovação do espírito... É necessário que todos estejamos vivificados e animados pelo único Espírito. Conflitos Sua ação evangélica causou-lhe conflitos da parte dos detentores do poder econômico e político e também de membros da Igreja. O próprio Proaño explicou serenamente: Todos sabem que na província de Chimborazo está nascendo uma Igreja comprometida com a libertação do índio e do povo oprimido. Agora, esta ousadia trouxe dificuldades. Isso é normal. Em 1973, foi enviado de Roma um visitador apostólico com a finalidade de investigar sobre a diocese de Riobamba: muitas acusações gratuitas e até absurdas estavam na origem dessa intervenção. Felizmente, o visitador era um homem de Deus, livre, que escutou muitas pessoas, também as mais humildes, e a visita não trouxe nada de negativo contra dom Proaño, embora Roma, como ele mesmo escreveu, não chegou a emitir seu veredicto, por razões que não quis explicitar. Outro momento difícil foi o conflito pela terra na comunidade de Toctezinín, pela oposição à reforma agrária por parte de uma proprietária, apoiada pelas autoridades e polícia locais. Um camponês foi morto, outro ferido, o vigário geral da diocese, um diácono, dezenas de camponeses e alguns agentes de pastoral foram presos. Foi só a intervenção pessoal de dom Proaño, junto ao governo, que conseguiu resolver pacificamente a questão. Pela força de sua autoridade moral, foi feita plenamente justiça aos camponeses.
O último acontecimento foi o mais grave: no dia 12 de agosto de 1976, 17 bispos latino-americanos, alguns sacerdotes e leigos, num total de 55 pessoas, reunidas num encontro de caráter pastoral em Santa Cruz, perto de Riobamba, foram presos pela polícia e levados à capital, Quito. Dom Proaño, considerado o organizador da reunião, foi submetido a um longo interrogatório noturno, na base de acusações de subversão até armada, às quais respondeu com firmeza e calma. Mas a notícia espalhou-se rapidamente em nível nacional e internacional, suscitando protestos, que obrigaram o governo militar a libertar os prisioneiros logo no dia seguinte. Lembrando, no final de sua vida, estas situações, dom Proaño comentou: Qualificaram-me de bispo vermelho, comunista. Foram ditas muitas coisas... Eu me confesso cristão. Um homem. Um sacerdote. Um bispo que se esforçou para ser cristão. Jesus é a Boa Notícia. Todos somos chamados a ser a Boa Notícia para os pobres. |
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Entrevista com Pe. Carlos
Vera vigário Como iniciou a Pastoral Indígena? A história da Pastoral Indígena começa com d. Leônidas Proaño, que se propôs a redenção do índio. O que ele conseguiu com seu trabalho pastoral foi que o índio se pusesse de pé, que pensasse com sua própria cabeça e caminhasse com seus próprios pés. Seu trabalho, porém, não ficou limitado só à região do Chimborazo. Este trabalho de conscientização, de educação e de evangelização se estendeu do norte ao sul do país entre os indígenas.
Há outras pastorais em Riobamba? Na diocese, temos a Pastoral Indígena, a Pastoral Mestiça e a Pastoral Urbana. Mas aquela que tem mais caracterização é a indígena. Porque a cultura indígena é muito mais definida; os mestiços têm sua cultura, mas é um pouco perdida ou desconhecida. Quando dom Proaño se retirou aos 75 anos, foi nomeado presidente da Pastoral Indígena em nível nacional. Nasceu o Sicnie (Servidores da Igreja Católica das nacionalidades indígenas do Equador). Esta organização é pioneira na inculturação do Evangelho, em nível de liturgia, de cantos e ajudou para que, em muitas dioceses, exista hoje a Pastoral Indígena e se apóiem os centros de formação indígena. Nasceu também o Inpi (Instituto Nacional de Pastoral Indígena) para que os indígenas, que já completaram sua formação em nível diocesano, possam conseguir a especialização. E depois de dom Proaño? Quando dom Victor Corral sucedeu a dom Proaño, impulsionou a Pastoral
Indígena, já posta em caminho anteriormente. A primeira coisa que fez foi criar, com o próprio dom Proaño, o Centro de formação indígena e, aos poucos, criou o Vicariato de Pastoral Indígena, que deu muito mais força a essa pastoral. Com o Centro de formação indígena nasceram alguns ministérios, como llacta michic (pároco indígena, leigo, que é responsável de um setor pastoral). A unidade da Igreja, para os indígenas, é a comunidade cristã; porém, a unidade administrativa é realizada através dos setores pastorais, presididos por um llacta michic. Mons. Corral criou também os Iglesia Ta pusac, pessoas encarregadas de animar os ministros da Igreja. Há os ministérios de missionário no campo, da organização, dos trabalhos comunitários, da educação, da saúde. Com dom Corral, os ministérios se diversificaram e tomam conta de todo o mundo indígena, em todos os aspectos da vida, não só a dimensão religiosa. O último passo que o bispo deu foi nomear um indígena como co-vigário de pastoral indígena, dando sua autoridade a um leigo casado indígena, Delfín Tenesaca, que organiza a Pastoral Indígena em nível diocesano e também administra os sacramentos próprios do leigo. Como se harmoniza, se articula a Pastoral Indígena com todo o conjunto das outras pastorais? Na diocese de Riobamba, formamos uma só Igreja que, porém,
se concretiza em cada um dos lugares.
A forma como os indígenas entendem o Evangelho, como eles fazem suas celebrações é um aporte muito importante para a Igreja católica e para a Igreja de Riobamba. Eles nos ajudam a entender com maior profundidade o Evangelho a partir de sua ótica, de sua cultura, dado que sua cultura também tem muito a ver com a cultura oriental. Eles sabem entender melhor o Evangelho. Suas celebrações duram duas horas, duas horas e meia, a mais curta uma hora e meia. Enquanto nós, mestiços, fazemos celebrações
de meia hora. Eles nos ajudam a viver e aprofundar mais nossa fé.
O indígena não recusa o mestiço, aprecia o bispo,
os sacerdotes, aprecia os ministros mestiços, os recebe com carinho.
Há uma comunhão grande do indígena com o mestiço.
Enquanto, do nosso lado, dos mestiços, desde a Colônia vem
o desprezo, a pouca valorização do indígena.
Há uma reflexão teológica indígena? Os indígenas têm sua própria teologia, que nasce de sua cosmovisão, de sua experiência de Deus. Eles refletem sobre sua experiência de Deus e nós, no Centro de formação, vamos recolhendo esta reflexão teológica, convertendo-a em textos de estudo. Assim temos um texto sobre o Espírito Santo: como se revela nos lugares sagrados, como está presente em uma minga (mutirão), como está presente na organização comunitária, na partilha, nas suas celebrações próprias e também nos levantamentos. Tudo isso vamos recolhendo, sistematizando e é proposto para que o estudem, não para que o repitam, mas para que exerçam sua criatividade, expressando o que têm na sua vida, na sua experiência. Outro material que recolhemos é sobre a Eucaristia. Eles dizem que a Eucaristia é como uma minga e que a minga é como uma Eucaristia. A minga, para eles, é sagrada, onde se trabalha juntos, dando-se as mãos, é um elemento de libertação, nela se come comunitariamente. Recolhemos todos os elementos da minga para refletir e aprofundar sobre a Eucaristia.
Existe uma preparação específica para sacerdotes indígenas? O seminário indígena é também o resultado do processo e da caminhada da Pastoral Indígena em nível nacional. Os bispos acham que é importante que o Evangelho seja inculturado na liturgia e em outros aspectos e que a própria Igreja deva ser inculturada. Quando o papa veio ao Equador, pediu não só que haja catequistas indígenas, mas também sacerdotes indígenas. Por isso os bispos viram que era necessário que no Equador se criasse um seminário para os indígenas. Isso não é só da diocese de Riobamba, mas no âmbito nacional. Os seminaristas distribuem os estudos em dois momentos: um na sua diocese, em sua comunidade; o outro, juntos, em Quito. Já temos sacerdotes indígenas de todas as dioceses e são eles, sobretudo, que vão apoiar a Pastoral Indígena. |
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A expressão mais significa tiva e forte das organizações indígenas é a Conaie (Confederação de Nacionalidades Indígenas do Equador). É um fruto amadurecido da semente plantada por dom Leônidas Proaño. Dela fala Mario Bustos, responsável pela comunicação da Conaie. Mario Bustos
O processo organizativo da Conaie tem como ponto de partida a primeira reforma agrária (1964), através da qual se eliminaram as grandes fazendas, sem que isso significasse que indígenas e camponeses tivessem conseguido a posse da terra. A terra que foi entregue a eles pertencia ao Estado ou à Igreja: por exemplo, dom Proaño repartiu entre os camponeses as fazendas da diocese. Mas a terra nas mãos dos latifundiários não foi repartida e os terrenos entregues aos camponeses e indígenas foram os de menor valor. A luta e a demanda pela terra foi crescendo durante os anos 70 e 80; aumentaram as organizações locais, que foram gerando unidade em nível zonal, cantonal, provincial e regional a fim de poder se posicionar com força política frente ao Estado e organizar ações de solidariedade na luta pela terra. Os indígenas existem! Foi assim crescendo o processo de agregação das organizações indígenas, até que, em novembro de 1986, chegou-se a constituir a atual Conaie. Depois disso, determinaram-se várias demandas de caráter histórico: começamos a nos dar conta de que o Equador é um Estado diferente, plurinacional, que somos povos com direitos, mas excluídos e começa-se a falar na demanda da reconstituição ou refundação do Estado equatoriano, que leve em conta toda essa parte da população que, historicamente, foi esquecida. Em 1988, partiu a demanda da educação intercultural bilíngüe, que se conseguiu por decreto do governo. Porém a luta pela terra crescia: havia conflitos não resolvidos há 15-25 anos. Em janeiro de 1990, começou-se a planejar, com seis meses de antecedência, um levantamiento nacional indígena: paralisa-se o país, sacodem-se as consciências de muitos funcionários, políticos, dos meios de comunicação e das classes políticas e sociais, que nem se davam conta de que existiam indígenas. Toma-se consciência de que, junto com a existência dos povos indígenas, há problemas sociais e políticos não atendidos. Começa-se, também, a questionar a estrutura do Estado. Levantamento O levantamento não é uma simples mobilização, porque é como um leque de ações de vário tipo. Primeiro, que intervêm todos, famílias inteiras, toda a comunidade. Durante esses dias acontecem ações culturais (música, dança...), que caracterizam e identificam esta ação. Um outro elemento significativo é a reciprocidade e a solidariedade: não há ninguém que financia. Eu tenho um carro, vamos; eu tenho este material, vamos bloquear a estrada. O levantamento implica também ações espirituais, a força física da mobilização, a vontade inquebrantável de resistir vários dias a situações climáticas de chuva, de frio, de fome, de formar barricadas humanas nas estradas. Há também tomada de igrejas, de prédios públicos. Em 1992, foram seis dias de mobilização, que não alcançou o caráter de levantamiento. Nesta ocasião, começou-se a questionar, de maneira definitiva, a estrutura do Estado, pedindo a constituição de uma Constituinte. Nossas demandas foram submetidas a um questionamento terrível por parte dos governantes e das classes políticas, através dos meios de comunicação. Acusavam-nos de querer formar vários Estados dentro do Estado, que queríamos gerar o caos, o terrorismo. A partir daqueles anos, os povos indígenas começam a ser um problema de segurança nacional: contra eles se desenvolvem ações de controle social no campo, de todo tipo de divisão. Os problemas da terra não foram resolvidos e, em 1993, começa-se a implementar uma nova reforma agrária sob o controle do Banco Mundial, que foi, na realidade, uma modernização do campo para liberalizar a propriedade da terra. Nestas circunstâncias, nós apresentamos ao Congresso Nacional um projeto de lei de reforma agrária discutido desde as organizações de base até o nível nacional. O Congresso respondeu, aprovando uma lei, que se identificava com o projeto dos latifundiários. A Conaie apelou à desobediência civil a essa lei e convocou um levantamento nacional; depois de 14 dias de paralisação, conseguimos que o governo, os congressistas e os latifundiários discutissem conosco o projeto de lei que era conveniente ao país. A conclusão desse processo foi uma lei que, se não respondia às expectativas dos dois grupos, foi, porém, resultado de um consenso.
Pachacutic Em 1996, iniciamos um processo de reflexão sobre se devíamos participar ou não da vida política. Depois de uma reflexão longa e, sob alguns aspectos, contraditória, foi decidido que entraríamos no processo eleitoral em nível local. Com um preparo insuficiente e em condições absolutamente desfavoráveis, conseguimos eleger 72 companheiros, em nível de poder local, num total de 260 lugares disputados. Com o passar dos anos, crescemos sempre mais. Agora temos oito deputados no Congresso Nacional, vários prefeitos, chefes de prefeitura, muitos assessores. Nosso movimento político chama-se Movimento da Unidade Plurinacional Pachacutic Novo País. (Pachatutic é palavra quíchua, que significa dar uma dimensão nova, mudar o curso da história, n.d.r.) O importante disso é que se começam a desenvolver novos critérios do exercício do poder, com a participação da população, formando o povo para prática política e conseguindo fazer mais obras com menos recursos, mas bem administrados e controlados pela própria população. Em 1997, com marchas que vinham até Quito dos lugares mais distantes do país e iam crescendo, pressionamos os poderes a convocar uma Assembléia Nacional para a elaboração da nova Constituição. Conseguimos gerar uma participação política da população para a elaboração da Constituição: foram envolvidos os vários setores e fundamentalmente os povo indígenas. Do outro lado, entramos numa prática de negociação, de conversação com todos os setores políticos: começamos a falar até com a direita econômica, cultural, religiosa, explicando nosso projeto, conseguindo desfazer muitos preconceitos sobre os indígenas entre as pessoas da classe no poder. Não que estivessem de acordo totalmente, porque nós aspiramos à constituição de um Estado plurinacional, que é a proposta de uma nova sociedade, muito mais justa, equitativa, plural, fundamentalmente democrática. Isso não foi totalmente recebido na nova Constituição. Porém, de outro lado, conseguimos que fossem reconhecidos os direitos coletivos e vários direitos civis. Hoje, a Conaie tem uma grande pre-sença política em nível nacional e di-zem também internacional. Porém, temos que ir avançando no processo de construção do Estado plurinacional, porque nossas propostas, na medida em que se limitassem a uma dimensão exclusivamente reivindicativa ou eleitoral, nos levariam a uma situação desastrosa, porque perderíamos nossa especificidade. |
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