Revista "MUNDO e MISSÃO"
Indígenas
Anna Pozzi A estrada passa veloz ao longo do Rift Valley, cortando a árida savana marcada pelas acácias. No horizonte, as montanhas marcam a fronteira entre Quênia e Tanzânia. Ainda mais longe fica o cume do Kilimanjaro co-berto de neve. É a terra dos Massai, pátria de um povo orgulhoso e indomável, de pastores e guerreiros, terra que guarda as raízes de uma antiga tradição. Começa a alvorada.
Na aldeia da noiva fervem os preparativos: é o dia do matrimônio, data em que a moça será entregue oficialmente ao seu futuro esposo. Este vem de muito longe e espera com uma testemunha fora da cabana, entre os homens da família de sua futura esposa. Dentro da cabana, a mãe e as outras mulheres da aldeia preparam a moça seguindo um ritual secreto e inalterado no tempo. A cabana é baixa e escura, de forma retangular, feita de folhas e galhos entrelaçados, cobertos de peles de animais e de uma mistura de argila e esterco de vaca. Pela úni-ca porta, ligeiramente aberta, entram e saem mulheres, atarefadas e alegres, todas enfeitadas com suas melhores roupas e adornos. São colares, braceletes, brincos e anéis feitos com pérolas de muitas variedades. Para valorizarem seus adereços e ficarem mais atraentes, todas têm as cabeças raspadas. A vaidade dos homens não é menor. Eles se vestem com mantos de lã, nos quais prevalece a cor vermelha em diversas tonalidades. As crianças, sentadas no chão, olham silenciosas e pacientes, apesar das nuvens de moscas rodando sobre elas.
Às manadas são dedicados carinho e atenção. O gado, com vistosas corcundas e longos chifres, tem um grande valor social: a fortuna econômica é sempre medida pela quantidade de gado, que serve para manter a família, aumentar a riqueza e possuir mais mulheres e filhos. Os animais também são objeto de culto; não são mortos exclusivamente por motivos alimentares, mas somente por razões rituais. O alimento principal é o leite. Durante o casamento, é oferecido a todos os presentes na espera que a esposa esteja pronta para deixar a casa materna. O leite tem um gosto ácido e, muitas vezes, é misturado ao sangue do gado que traz vitalidade e força aos Massai.
Para que o matrimônio aconteça, as famílias passam por longas negociações. A moça prepara-se para as bodas desde a puberdade, quando sofre a excisão, abandonando o nome da infância e os velhos enfeites. A oficialização do casamento ocorre somente quando o noivo entrega ao pai da noiva o número de bois negociado. Para muitos povos africanos, o casamento não envolve simplesmente um homem e uma mulher, mas as suas famílias inteiras. A ligação que se cria por meio da entrega do gado torna-se uma nova relação de amizade, partilha, solidariedade e apoio recíproco. A esposa está quase pronta e o esposo, impaciente, após longas horas de espera. O pai e alguns anciãos entram na cabana para os ritos e a benção final. A última a sair é a noiva. Está vestida com uma longa túnica preta enfeitada com adornos coloridos. As mãos escondem o rosto de uma moça de quinze anos, emoldurado por faixas de pérolas, colares e brincos. Ela soluça e chora enquanto vai ao encontro do esposo, sem olhar atrás de si, pois causaria má sorte. As mulheres da família acompanham-na até o esposo, entoando cantos de encorajamento, misturados com gritos agudíssimos.
Ela é entregue ao esposo e à testemunha, ambos de rosto pintado de vermelho. É o momento da separação, da saída para uma nova casa e uma nova vida. A aldeia reúne-se ao redor da jovem, que soluça fortemente, sinal de tristeza e gratidão para com a família que a criou e que talvez jamais possa rever. Invisíveis trilhas de terra arenosa, que olhos estrangeiros não sabem descobrir, levam à aldeia do marido, onde tudo está pronto para acolher a esposa. As mulheres idosas, bem adornadas, acolhem-na e acompanham-na até a nova cabana, cantando e dançando ritmicamente. Seus movimentos repetem os dos pássaros e dos animais da savana. Invisíveis trilhas de terra
arenosa, que O conjunto tem algo de mágico e hipnótico, cercado por
um vale encostado nas montanhas, onde o tempo e a natureza parecem imóveis,
vítimas de uma magia que essas vozes e essas danças prolongam
ao infinito. Depois de ter acompanhado a esposa, que não sairá
da cabana pelo resto As mulheres mais jovens, em grupo e com as crianças acomodadas junto ao corpo, também participam. Durante horas e horas, debaixo do sol forte, entoam com vozes agudas hinos de alegria e de prosperidade para o novo casal. Os anciãos, os únicos no interior da pequena aldeia, bebem e discutem à sombra de uma grande árvore, e abençoam os hóspedes que a eles prestam homenagem, pondo carinhosamente a mão sobre suas cabeças. Os jovens guerreiros, ao contrário, ficam de lado. Povo temido - Os moran, como são chamados os guerreiros entre quinze e trinta anos, têm longos cabelos entrelaçados e misturados com ocra vermelha e gordura de carneiro. Em tempo de guerra estas decorações serviam para tornar mais assustador o aspecto dos guerreiros e agora, durante a cerimônia, servem para atrair a atenção, em particular das moças. O rapaz torna-se moran após a circuncisão, assumindo um compromisso militar diante da comunidade. Os guerreiros possuem o direito e o dever das armas, defendendo o território e o gado, caçando os animais predadores e, no passado, roubando gado de outros povos.
Hoje os Massai perderam a agressividade que os tornava o povo mais temido da região, mas conservaram costumes e tradições. Entre eles, as danças características, durante as quais os guerreiros mostram a habilidade pessoal e o entrosamento de grupo, acontecem ao som de um canto rítmico feito de tons agudos e graves. Nem todos os moran permanecem na aldeia. Alguns saem para a caça ao leão, antigamente um rito fundamental na consagração de um novo membro. Para os Massai a caça ao leão no dia das bodas garante boa sorte ao matrimônio. Os jovens guerreiros partem acompanhados dos anciãos, que oram para Engai, o Ser Supremo, "cujo olho é grande e a tudo observa". Ele vigia os Massai "que são os melhores e os mais fortes guerreiros". |
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