Revista "MUNDO e MISSÃO"

Indígenas

O vermelho do
DFDFD PETRÓLEO

Eles são apenas seis mil, mas compraram briga com a todo-poderosa Oxy Corporation, petroleira estadunidense e uma das maiores do mundo. Os U'wa buscam apoio nessa luta pela terra de seus ancestrais

Maurizio Passagliotti

"Este é o coração do mundo", diz com ar profético o cacique Berito. Ele tem um olhar profundo de líder espiritual, fortes traços u'was e os olhos que penetram até a alma.

Como todos os corações, também "o coração do mundo" bombeia sangue. Sangue vital para a vida dos U'wa e para a floresta, onde vivem no norte da Colômbia. Seus ancestrais habitavam essas terras há cerca de 3.000 anos. Antes da chegada dos conquistadores espanhóis, somavam centenas de milhares. Hoje, a população está reduzida a 6 mil índios.

O sangue u'wa chama-se ruiria. Não tem dono nem preço. Se a Mãe Terra fosse es-vaziada dele, morreria, como qualquer outro ser vivente privado de seu sangue. Para o ocidental, ao contrário, esse sangue tem nome diferente. Chama-se petróleo. Esse sangue tem um preço que varia a cada dia nas bolsas do mundo inteiro.

Homem contra homem, lucro contra meio ambiente, guerra contra paz, mercado contra sabedoria, morte contra vida. Querendo, tudo pode ser reconduzido a duas palavras: progresso e desenvolvimento. Palavras que perderam qualquer sentido original, abafadas por um conceito decididamente mais sedutor, o dinheiro.

A história é muito simples. O subsolo do território u'wa é rico em petróleo. Acontece que o governo colombiano apóia a exploração desse combustível. Em fevereiro de 1995, concedeu a licença à multinacional petroleira estadunidense Occidental Petroleum, mais conhecida como Oxy Corporation.

Suicídio em massa

"O Pai do Céu deu a eles esta história verdadeira: não podemos entregar isso nas mãos da Morte. Por isso, o cacique disse: 'Não ficarei aqui. Entregarei o meu espírito nas mãos da Mãe Terra junto à comunidade'. Permaneceram apenas algumas mulheres grávidas, com a tarefa de perpetuar a descendência. Os outros se lançaram do precipício da montanha."

Esse é parte do relato histórico e também da lenda que narra o suicídio em massa feito pelos U'wa em meados de 1600. O motivo: protestar contra a colonização violenta à qual foram submetidos. Em Guican é muito visível o "peñón de los muertos" (o penhasco dos mortos). Foi uma atitude extrema contra o avanço dos conquistadores.

Um povo que em toda a sua história nunca conheceu o jugo do invasor, nem por parte do império inca. "O rio se encheu de corpos de homens, mulheres e crianças. Eram tantos que o curso das águas mudou o seu percurso desde aquele dia", contam os velhos sábios. Corre um boato de que os U'wa estariam pensando em suicídio em massa como forma de protestar contra a ação da multinacional estadunidense Occidental Petroleum.

Para os U'wa, extrair o petróleo é profanar um lugar sagrado. É sangrar a Mãe Terra, geradora de todas as formas de vida das quais depende a sobrevivência humana.

Não poderia existir catástrofe maior. A retorção contra a humanidade seria devastadora. O terror pela vingança de Sira, a Mãe Terra, permeia toda a comunidade.

Com a construção do primeiro poço, os índios passaram a fazer jejum de purificação. Já foram muitos para abrandar a ira dos deuses. A atual escassez de chuvas vem sendo vivida como uma culpa, algo a ser descontado pela gravíssima afronta. Talvez, os U'wa nem possam imaginar que tipo de catástrofe irá realmente abalar suas vidas.

O território sofrerá com uma poluição generalizada e irreversível. Os rios se transformarão em depósitos de lixo tóxico que matará todos os peixes. A floresta será der-rubada para dar lugar a poços de petróleo, oleodutos, pistas asfaltadas, novas invasões de colonos. A prostituição e o alcoolismo se espalharão entre os novos habitantes vindos de longe. Os U'wa rebeldes serão assassinados por esquadrões da morte, treinados para fazer o "trabalho sujo" que o Exército regular não pode fazer.


Crianças u'wa: futuro ameaçado pela ação da multinacional petrolífera que atua na Colômbia

Onde agora reina a paz, teremos apenas destruição e morte. A Laguna de Lipa, na região de Arauca, é um exemplo do que pode acontecer no futuro com os U'wa. Os indígenas ghuahabis que ali viviam, depois de serem transferidos para bairros populares de Saravena, transformaram-se num bando de mendigos. Viraram viciados em bebidas, sombras ambulantes que imploram por uma moedinha de 50 pesos.

A laguna perdeu para sempre a beleza original, e hoje se encontra em condições ecologicamente desastrosas, similar a um brejo de lixo tóxico. O mercado global, en-tendido como seleção darwinista (onde o mais forte ganha, e o mais fraco é jogado para fora do sistema), se voltará como um vendaval sobre a vida do povo u'wa.

Para muitos, os povos indígenas representam uma cultura e um modo de vida que "já era". Comunidades que rejeitam os conceitos de propriedade privada e de intercâmbio comercial não cabem no conceito ocidental de civilização.


Comunidade u'wa prepara refeição coletiva com produtos extraídos da floresta

"Para a mentalidade moderna, o fato de entrincheirar-se atrás de um valor não comerciável do território representa algo de defasado e contrário à civilização, que merece qualquer forma de repressão voltada a neutralizar pretensões tão absurdas", sentenciou o jornalista Plinio Apuleyo Mendoza, durante um programa de televisão dedicado ao conflito entre os U'wa e a multinacional.

Um pensamento para lá de grosseiro, mas bem conhecido no Brasil. Uma mistura de racismo, idolatria do mercado e ignorância. Cega por uma onipotência delirante, a civilização do consumo e da técnica ignora a destruição do meio ambiente e a sobrevivência de povos e culturas espalhados pelo mundo inteiro.

Uma cultura como a dos U'wa, que coloca o chamado "homem tecnológico" diante das próprias responsabilidades, atrapalha e merece todo tipo de repressão. Para defender os interesses da Occidental Petroleum, o presidente colombiano Andrés Pastrana deslocou, em janeiro deste ano, o Exército e a polícia para a região dos U'wa.


Segundo mito da comunidade, mulheres e crianças também tomaram parte do suicídio coletivo em 1.600

Em várias manobras militares, que resultaram no desaparecimento de nove pessoas, os índios foram desalojados de parte de seu território. O site da companhia estadunidense na internet (a rede mundial de computadores) não faz menção ao conflito. Informa apenas que a produção de sua área de exploração de Caño Limón vem caindo e, por isso, está se preparando agora para explorar outra área.

como as petroleiras subornam os índios

Os Huaorani concederam à multinacional italiana Agip Oil a autorização para construir uma plataforma petroleira e um ramal de oleoduto em suas terras, em Pastaza, na região da selva amazônica, segundo um contrato assinado em março de 2001.


Miguel Lluco, coordenador nacional do Movimento Indígena de Unidade Plurinacional, Pachakutik

Em troca, a empresa se comprometeu a entregar a cada uma das seis comunidades indígenas do lugar, entre outras coisas, 50 quilos de arroz e 50 quilos de açúcar, dois galões de óleo, um saco de sal, um apito e duas bolas de futebol, 15 pratos, 15 copos e um armário com 200 dólares em medicamentos.

Ainda segundo esse acordo, a petroleira garantiria aos indígenas um curso para promotores de saúde e um rádio, uma bateria, um painel solar e 3.500 dólares para construir uma sala de aula. O contrato foi assinado por lideranças das seis comunidades, pela Organização da Nacionalidade Huaorani da Amazônia Equatoriana e pela Agip Oil.

O coordenador nacional do Movimento Indígena de Unidade Plurinacional Pachakutik (Novo País), Miguel Lluco, assegurou que o convênio entre a petroleira italiana e os Huaorani viola a Constituição do Equador e a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho.

"Segundo o contrato, a empresa Agip consultou as comunidades depois que o governo lhe concedeu a permissão para exploração e exportação, quando isso devia ter sido feito antes", afirmou Lluco.

O contrato estabelece que os Huaorani "reconhecem e aceitam" sua responsabilidade por qualquer omissão na execução do acordo, assim como por acidentes, danos a terceiros e danos ambientais. Também deixa a companhia "livre de qualquer responsabilidade relacionada às atividades descritas nesse acordo".

"Dessa forma os contaminadores da Amazônia passam a responsabilidade às vítimas da contaminação. Parece uma piada, mas não é. É muito triste", afirmou o dirigente indígena.

A história que o cacique Berito conta, valendo-se de amplos percursos de pensamentos e com referências aos mitos tradicionais, são verdades incontestáveis. Até cientificamente. É o que dizem os estudos do Painel Inter-governamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), publicados em 2001. Esse material está disponível no site: www.ipcc.ch/ e contém repetidas advertências à humanidade sobre o fenômeno do aquecimento rápido do planeta, devido, em parte relevante, à utilização de combustíveis fósseis.

"Por que o homem branco nunca está satisfeito com aquilo que tem?", pergunta uma jovem indígena com olhar angustiado. Impossível responder a essa questão. Talvez porque, diferentemente dos U'wa, decidimos substituir os valores espirituais por aqueles materiais. Talvez porque o amor verdadeiro seja difícil de ser perseguido e, portanto, é mais simples comprar algo que traz um pouco de satisfação momentânea.

Para muitos, os povos indígenas representam
uma cultura e um modo de vida que "já era"

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