Revista "MUNDO e MISSÃO"

Indígenas

Em terras
INDONÉSIAS

Missionário xaveriano fala do que viu e ouviu em visita
ao povo sulawesi das ilhas Mentawai, na Indonésia

Ednilson Turozi

 

Logo nos primeiros meses da minha chegada à Indonésia, país do sudeste da Ásia, estive visitando o povo sulawesi, nas ilhas Mentawai. Ainda estava atordoado pelo novo ritmo de vida, pelo que os especialistas no assunto costumam chamar de inculturação. Uma semana de muita aprendizagem, de descobertas cotidianas e valiosas. Nesse período também pude ver e ouvir de perto o trabalho de muitos missionários que procuram ajudar, de alguma forma, os povos da floresta, sobretudo os indígenas.

As ilhas Mentawai localizam-se em Sumatra. Os xaverianos desenvolvem um trabalho missionário há mais de quarenta anos nesse arquipélago. Foi nas ilhas Mentawai, aliás, que a congregação investiu grande parte de seu contingente missionário.

A ilha que visitei foi a de Sikabaluan. Apesar de estar geograficamente perto de Sumatra, o barco levou dez horas para chegar lá. Logo que atracamos, eu e alguns companheiros fomos recebidos com cantos e uma hospitalidade de primeira. Pude ver uma ilha muito bonita e propícia para uma belíssima pesca debaixo d'água. Nas demais ilhas o surfe é o esporte mais praticado.

Numa das celebrações, fiquei encantado com um coral de jovens. Um detalhe: durante as orações eles usavam flores presas ao cabelo. Informaram-me que esse costume era típico da cultura local. Lembro-me também que o nome de um dos jovens que dirigia o coral era Samseri, cuja tradução aproximada seria: "o brilho da lua", porque ele nasceu numa noite enluarada.

Constatei que as atividades dos missionários demonstravam respeito pelos costumes culturais e um esforço para se adaptar às condições de vida do povo. Creio que os missionários tiveram uma postura um tanto diferente da política vigente do ex-ditador indonésio Suharto, que preferia impor um projeto de desenvolvimento a esses povos a procurar entender e respeitar sua cultura.

Pelo visto, os missionários que atuam em Sikabaluan aprenderam a língua local muito bem. Também tive a sorte de participar da ordenação do primeiro sacerdote diocesano do lugar.

Outra coisa inesquecível foi ter comido o sago (um tipo de farofa feita de frutos de uma árvore típica da região) e ter bebido água das chuvas que estavam represadas em reservatórios. Não dispondo de água encanada, bebe-se água das chuvas mesmo. O sago é um dos principais alimentos para os habitantes das ilhas Mentawai e os animais. Sago é a árvore da vida.

Um grupo de leigos aventurou-se a seguir o padre Pio Framarin no meio da floresta ao encontro de algumas comunidades. Num mundo em que, graças a Deus, existe a vontade de respeitar as diferenças, o indígena é visto como o outro que desvela sua face diante de nós. É um outro diferente de nós, mas que exige reconhecimento e respeito. A sua própria existência evoca em todos nós a responsabilidade para com a sua continuidade e a preservação de sua cultura.

Como diz o Evangelho, não se trata somente de procurar o que é melhor para mim mesmo, mas também o que é melhor para os outros. O melhor para to-dos é que a vida humana seja respeitada onde quer que seja.


Um dos principais alimentos dos habitantes das ilhas Mentawai é o sago, também considerado como árvores da vida. Acima preparação da farofa de sago

Num mundo em que existe a vontade de
respeitar as diferenças, o indígena é visto como
o outro que desvela sua face diante de nós

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