Revista "MUNDO e MISSÃO"
Indígenas
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O BISPO DO
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Não precisa
ter nascido no Brasil para se tornar brasileiro, no sangue e no coração. Dom Erwin Kräutler é austríaco, mas sua maneira de falar, de agir, de pensar, de amar, identifica-o totalmente com o povo e a cultura do Xingu. Atualmente, ele é também o bispo responsável da dimensão missionária na CNBB e leva para a Igreja do Brasil a realidade da Amazônia e do mundo todo. No mês missionário, apresentamos sua experiência como estímulo para a abertura missionária de todas as comunidades. |
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A prelazia na época era confiada aos Missionários do Sangue de Cristo; os dois primeiros chegaram em 1929: um deles morreu logo. Antes, o Xingu pertencia à diocese de Santarém, donde os padres vinham uma vez por ano para fazer a desobriga. Os missionários estabeleceram-se no baixo Xingu e depois foram para Altamira. A prelazia foi erigida em 1934. "Quando cheguei em 1958", conta pe. Frederico Tschol, atual vigário geral da prelazia, Altamira era uma pequena cidade com cerca de 3 mil habitantes. Agora chega a 90 mil. O grande pulo para frente foi a abertura da Transamazônica. Antes, havia poucos habitantes, na maioria nordestinos vindos para a extração da borracha e a colheita da castanha. A Transamazônica, nos anos setenta, mudou tudo. Vieram milhares de famílias com a esperança de um mundo novo, atraídas pela propaganda que aqui seria o paraíso. Só que veio muito mais gente do que foi registrada oficialmente. O pessoal com o machado nas costas se enfiou na mata quilômetros e quilômetros adentro e começaram aí uma nova vida, no abandono, no meio dos mosquitos, cobras e bichos, sem nada para comer".
A Igreja passou por todas essas transformações. Antigamente, o método ordinário era a desobriga, porque as pessoas estavam espalhadas em distâncias enormes: os missionários podiam viajar até mil quilômetros na mesma direção sem sair do território da paróquia. Ficavam viajando um, dois meses com um pequeno barco, desligados do resto do mundo. Visitavam os pequenos agrupamentos de casas, uma vez por ano, aproveitando a última parte do período das chuvas, quando as cachoeiras são mais fáceis de serem enfrentadas. BISPO O início da missão de pe. Erwin aconteceu em Altamira. Na cidade, há o grande colégio Maria de Mattias e ele, durante a semana, dava aulas. Na sexta, sábado e domingo trabalhava na pastoral, fazendo viagens para o interior, sobretudo no baixo Xingu, que ele conhece todo. Seis anos depois de sua chegada ao Xingu, seu tio Eurico foi nomeado bispo e, em 1980, pediu um coadjutor e o sobrinho foi designado. No ano seguinte, dom Erwin assumiu a missão de bispo do Xingu. "Eu nunca esperava por isso e para mim foi uma situação totalmente nova", confessa. "Cheguei a conhecer a maior diocese do Brasil, com seus 368 mil quilômetros quadrados. Fui andando e até hoje ando por toda esta prelazia e não há ano que não visito todas as paróquias".
A prelazia do Xingu tem 13 paróquias e 28 sacerdotes, dos quais 8 locais, fruto de um grande empenho dos dois bispos anteriores para ter um clero nativo, e agora a semente começou a brotar. Mas seu número, como o dos religiosos e das religiosas, permanece reduzido. Assim, a Igreja do Xingu caminha, de certa maneira, nas mãos dos leigos. Dorismeire Almeida de Vasconcelos (Doris), uma jovem, coordenadora da pastoral da prelazia, testemunha comovida: "A gente vê o grande amor com que estes leigos se oferecem para realizar o projeto do Pai dentro da prelazia. Indo nas comunidades, notamos seu engajamento, como trabalham ao serviço da Igreja. É uma pequena semente, mas dela brota todo o trabalho comunitário. Vemos senhoras que dedicam parte de seu dia aos enfermos, jovens que doam parte de seu tempo para reintegrar outros jovens à comunidade cristã, crianças que, mesmo na catequese, se preocupam em levar o Evangelho a outras crianças. E você vê toda uma Igreja reunida, buscando fazer crescer a comunidade, mas também levando a Palavra para o povo que ainda não ouviu". A pastoral é planejada de maneira participativa em Assembléias do Povo de Deus e em dois encontros anuais. COMUNHÃO E PARTICIPAÇÃO
Doris revela um nível mais profundo, que vai além da mera estrutura e atinge a dimensão da comunhão: "Quando percorro a prelazia, sempre percebo que somos uma Igreja pé no chão, que tem fé, que acredita no Senhor libertador, que evangeliza, que tem a esperança, que celebra e que sempre tem o olhar para o que está acontecendo na realidade, que está sempre perto deste povo sofrido, seja nos momentos de alegria, mas também naqueles em que ele necessita do apoio de nós, evangelizadores". E continua: "É impressionante que, apesar das imensas distâncias, conseguimos fazer a unidade e realizar o trabalho pastoral. Quando nos reunimos, é uma grande festa, porque é uma intensa troca de experiências, nos ajudamos mutuamente, partilhando as realizações e as dificuldades. É uma profunda vivência do Evangelho. Eu sinto que a força que move todos é o grande amor pela causa de Cristo".
"Os problemas do povo do Xingu estão se agravando cada vez mais. O número de desempregados na cidade de Altamira, no início do ano, era de 5 mil; agora, os dados falam de 20 mil. Eles chegaram à cidade atrás do sonho da construção da hidroelétrica de Belo Monte (ver artigo A hidrelétrica contra o povo), da pavimentação e asfaltamento da Transamazônica".
Quem nos ajuda nesta leitura da realidade social do Xingu é Leônidas Martins, um maranhense, que migrou para o Pará há trinta anos e agora é coordenador da Comissão da Pastoral da Terra (CPT) na prelazia. Ele denuncia a contradição do governo, que apresenta projetos bem estruturados no papel e nos discursos, mas que na realidade não são realizados. Os municípios não estão gerando oportunidades para as pessoas ficarem no campo; ao contrário, elas estão saindo. "Assim", reflete Leônidas, "está havendo uma inversão na economia de Altamira, porque a base estrutural do município é o comércio e o funcionalismo público, de forma que na cidade circula dinheiro no comércio só nos primeiros dias do mês, quando os funcionários públicos e os aposentados recebem". NA TRANSAMAZÔNICA "Na área da Transamazônica", é sempre Leônidas que explica, "tem cerca de 40 mil pequenas e médias propriedades: 30 mil estão sendo exploradas. Agora, caso a hipótese da construção da usina de Belo Monte se realize, é provável que não fiquem mais de 10 mil famílias no campo. Porque haverá uma oferta muito grande de emprego na construção da barragem e, sobretudo a população jovem que não encontra mais futuro no campo (estudo, lazer, etc) será atraída. Na medida em que esta categoria de pessoas for deixando suas famílias, elas vão se desestruturar aos poucos. Porque são compostas de membros de idade avançada, que não têm mais condições físicas de levar para frente uma propriedade com um trabalho que ainda se realiza com enxada e com facão. As pessoas que deixarem suas terras, que as venderem, dificilmente irão voltar, porque não terão mais condição, sendo que agora o valor da terra está crescendo pela forte especulação imobiliária. Os pequenos latifundiários começam a comprar muitas propriedades, não para aumentar sua fazenda, mas para ganhar dinheiro na especulação imobiliária". Com isso, vai aumentar a concentração de terra. "Terminados os cinco anos da construção da barragem", prevê Leônidas, "vão cessar os postos de emprego, ficando só os qualificados, isto é, os trabalhos de manutenção, que exigem especialização. A mão-de-obra não qualificada será descartada e o saldo final negativo ficará nas costas desta cidade e das outras nos arredores". Outro problema da região são os conflitos fundiários. Leônidas relata que, há dez anos, na região praticamente não existiam.
"Mas agora se tornaram um problema também entre nós", afirma. "Na prelazia, há cerca de 2.500 famílias envolvidas em conflitos fundiários, com mais de um milhão de hectares de terra disputada. Considerando que cada família é composta, em média, de cinco membros, temos cerca de 12 mil pessoas envolvidas". A disputa pela posse da terra acontece entre os pequenos e médios agricultores, de um lado, e os grandes latifundiários, do outro. A ajuda do governo acaba claramente favorecendo estes últimos: enquanto, de 1991 a 2000, 10 mil famílias conseguiram 125 milhões de reais de investimento do governo federal para o financiamento de suas atividades agrícolas, do outro lado, 45 famílias, de 1997 a 2000, receberam 400 milhões. De outro lado, as terras públicas, que poderiam ser objeto de distribuição nos programas de reforma agrária do governo, já foram todas ocupadas pelas madeireiras, pelas fazendas e pelas mineradoras. A tudo isso acrescente-se o descaso em que é deixada a formação no campo. Também os que têm acesso ao estudo recebem uma formação escolar de baixa qualidade, que não condiz com a realidade do País. A Igreja do Xingu, sobretudo através da CPT, realiza uma presença profética no sentido de alimentar a esperança dos que estão no campo, e trabalha para a educação, a conscientização, a politização e a formação das pessoas à cidadania, para que saibam reivindicar seus direitos. De concreto, existe uma experiência muito interessante, as "Casas Familiares Rurais", que nasceram na França e na Itália, e que dão aos alunos uma formação (correspondente à faixa entre a 5.ª e 8.ª série) que, além do conhecimento de base, os especializa na área agrária e os torna cidadãos conscientes e responsáveis. Até agora, as quatro casas formaram cerca de 200 jovens e atualmente quase 500 estão estudando.
Dom Erwin experimentou, na própria pele o drama dos trabalhadores no campo. Conta: "Em fevereiro de 1982, dois lavradores, Antônio e Manoel, foram assassinados no km 94 da Transamazônica, por altos funcionários da firma proprietária da usina de açúcar "Abraham Lincoln", a CONAN. Os pedidos de justiça, encaminhados através da Igreja até as autoridades de Belém e Brasília, foram totalmente ignorados. Em setembro do mesmo ano, a CONAN mudou a tática: decidiu condenar o povo à morte lenta, retendo os pagamentos. Em fevereiro de 1983, fui para a Transamazônica, visitei as comunidades de Medicilândia e vi a situação dos canavieiros que há meses não estavam recebendo o pagamento; também os funcionários da usina se encontravam na mesma situação. Tinham tentado tudo para conseguir o pagamento: nada! A Igreja do Xingu emitiu uma nota de denúncia e repúdio a todas essas atrocidades e injustiças, que, infelizmente, a grande imprensa negou-se a publicar. Então, os canavieiros, no dia de Pentecostes, 22 de maio de 1983, decidiram bloquear a Transamazônica.
Eu estava em Altamira e, quando soube, fui até lá. Não discuti a legalidade da iniciativa do povo. Todo mundo sabia que era "ilegal e inconstitucional" obstruir uma rodovia. Porém, todo mundo também sabia que era ilegal, inconstitucional o crime cometido por aqueles que não atendiam aos direitos do povo e lhe negavam o fruto do seu suor. Houve tentativas de diálogo, mas as autoridades se limitaram a fazer promessas vagas. Depois de sete dias, fiquei doente com quase 40 graus de febre e voltei a Altamira. No dia 1.º de junho ligaram para mim, dizendo que a polícia chegaria para abrir a estrada. Pedi a um empregado nosso que me levasse no Fusca para o km 92. Encontrei o povo muito animado, porque parecia que, dentro de poucas horas, seria assinado um acordo entre a comissão que representava os trabalhadores e uma que tinha vindo de Brasília e assim a Transamazônica seria desobstruída. Infelizmente, porém, tudo fracassou na última hora, porque Brasília desautorizou seus representantes a assinarem o documento elaborado em conjunto. Falei aos manifestantes, dizendo a verdade sobre o fracasso das negociações, expressando minha mais profunda tristeza, porque outra vez o povo era vítima do descaso das autoridades, mas convidando-os, ao mesmo tempo, a evitar qualquer tipo de violência. Todos, naquele momento, pouco a pouco, começaram a sentar-se no leito poeirento da estrada. Eu também me sentei. De repente, se ouviu o ruído de passos em cadência: um contingente da Polícia militar, seguido por um outro, empunhando fuzis, chegaram próximos dos manifestantes. Estes ergueram as mãos para o alto e começaram a gritar alternadamente: "Queremos paz!", "Queremos justiça!". Os PM's começaram a lançar granadas de efeito moral e bombas de gás lacrimogêneo. O pânico tomou conta do lugar. Eu fiquei deitado no meio da estrada. Quando a fumaça se dissolveu, um soldado me agarrou pela camisa, me atirou violentamente ao chão e me chutou nas costas; em seguida, me torceu o braço para trás e me levantou do solo. Eu lhe disse: 'Acho que é a primeira vez que você prende um bispo!'. Respondeu que estava cumprindo ordens. Junto com o presidente da associação dos canavieiros, fui levado dentro de um ônibus e ficamos presos durante 45 minutos. Depois fomos liberados e levados de volta ao povo. O Major nos apresentou como agitadores, que não mereciam a confiança e a consideração do povo. Pedi que nos respeitasse e protestei por aquela crueldade e covardia contra o povo indefeso. O Major ameaçou me prender de novo. Muitos choravam. Finalmente, o Major resolveu nos colocar em liberdade. Uma semana depois, a CONAN efetuou o pagamento tanto aos canavieiros como aos funcionários da usina".
Dom Erwin continua a narração de sua vida: "Logo em seguida teve a assembléia do Conselho Missionário Indigenista (CIMI) e me pediram se, dado que defendia os canavieiros, aceitava defender também os índios. Aconselhado por dom Aloísio Lorscheider, aceitei. Fiquei no mandato por oito anos, até 1991. Aprendi muito a respeito da causa indígena, sobretudo nas reuniões nacionais. Porém, aprendi mais no contato com os povos indígenas aqui, e em modo especial, com os kayapó. Embora não tenha possibilidade de ficar muito tempo com eles, porque minha agenda é carregada de compromissos, faço questão de ir às aldeias. O relacionamento com eles é muito amistoso: inicialmente me chamavam de parente, mas, a última vez que estive lá, a mulher do cacique disse que era seu filho. Os políticos não entendem o trabalho da Igreja com os povos indígenas. Em 1965, um deles me disse: "A questão indígena estará resolvida dentro de 20 anos", entendendo que, para ele, os índios iriam desaparecer. Mas, graças a Deus, aquela profecia não se realizou; ao contrário, os índios hoje aumentaram e se tornaram mais fortes. No Xingu, os índios aldeados são quase 4 mil. Mas, podemos calcular outros 2 mil ou mais, que moram na cidade. São, no total, 9 etnias". SOMBRAS E LUZES Sobre a situação dos povos indígenas, fala Petronila
Almeida de Vasconcelos, do CIMI: 1. Educação. É muito difícil se realizar
uma educação diferenciada, porque custa encontrar professores
para essa tarefa, muitos deles não conseguem se adaptar, as aldeias
estão longe e as viagens são dificultosas, falta material
didático. 2. Saúde. Há uma equipe multidisciplinar que atende as aldeias, mas fica ainda muito a se fazer. Os enfermeiros contratados não são preparados, a medicina tradicional dos índios, muitas vezes, é deixada de lado, ainda acontecem surtos de verminose, de varíola, que matam crianças e adultos; a malária está se expandindo por descuido. 3. Terra. Nas demarcações, onde existem, às vezes, foi destinado aos povos indígenas um território pequeno. Em outros casos, a terra não é nem demarcada nem homologada. Junto com isso, há invasões de garimpeiros e madeireiros, que é o maior problema que enfrentamos aqui. 4. Violência. Acontece a todo momento contra o povo indígena, como apareceu nos três pontos precedentes. No passado, tivemos casos de violência física e, atualmente, um cacique está sendo ameaçado de morte. Mas existe também violência devida aos preconceitos: por exemplo, os índios são xingados, especialmente nas escolas. Nós do CIMI procuramos lutar com os povos indígenas, ajudando-os a se organizarem, para que busquem seus direitos e consigam a melhoria das suas condições, em todos os níveis. Na Campanha da Fraternidade deste ano, apresentamos a realidade dos índios nas paróquias, escolas e na universidade: muitas pessoas despertaram para esta realidade". DIÁLOGO Petronila explica também como a Igreja, através do CIMI, trabalha a dimensão religiosa dos povos indígenas: "As realidades aqui são diversificadas. Encontram-se povos, como os jurunas, que perderam quase toda sua cultura e se integraram na nossa; eles solicitam catequese, sacramentos e nos atendemos a seus pedidos. Há outras aldeias onde a crença tradicional é ainda forte; nós fazemos acompanhamento e estamos ali sem pretender levar nossa religião. Promovemos o diálogo inter-religioso, tentando sempre verificar a convicção do povo indígena e respeitando-o acima de tudo. Tentamos, por exemplo, trazer para nossa realidade um mito deles, procurando ver o Evangelho dentro daquele mito, mas sem jamais interferir na sua cultura". No dia 16 de outubro de 1987, dom Erwin sofreu um acidente de carro, nunca elucidado, no qual perdeu a vida o pe. Tore Deiana, xaveriano italiano de 31 anos. O bispo sobreviveu por milagre e teve que ficar seis meses no hospital de Belém. Eram os dias nos quais, em Brasília, na Assembléia Constituinte, se discutia a causa indígena e o CIMI, com seu presidente na frente, lutava para que os direitos daqueles povos fossem reconhecidos. Muitas calúnias e difamações foram levantadas contra o CIMI. No momento do acidente, dom Erwin estava esperando ser chamado a depor no Congresso como presidente do CIMI. No final, todos reconheceram que foi, sobretudo por mérito do CIMI, que os direitos dos indígenas foram inscritos na Constituição, através do artigo n.º 231. |
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