| Que mundo para o ano 2000?
Plínio Arruda Sampaio
Costanzo Donegana
Dom Jacyr Braido
Pessimismo ou esperança?
O mundo no limiar do Terceiro Milênio é dilacerado por
esta tensão. O cristão é chamado a fazer brotar sementes
de solidariedade
O mal não é fundamental nem definitivo
Plínio Arruda Sampaio
Se quiséssemos resumir a situação atual do mundo
em uma única palavra, esta palavra seria transição.
É verdade que tudo está sempre em transição,
mas o que singulariza o momento atual é a velocidade das mudanças.
Em todos os rincões do planeta, tudo está mudando a uma
velocidade vertiginosa.
Capitalismo
No plano econômico, assistimos à passagem do capitalismo
industrial para o capitalismo pós-industrial. Mescladas nessa passagem
estão duas revoluções: a dos negócios, com
a globalização; e a das técnicas produtivas, com
a introdução da informática, da eletrônica
e das biotecnologias no processo produtivo. O paradigma "fordista"
de organização das fábricas, invenção
norte-americana, cedeu lugar ao paradigma "toyotista", desenvolvido
pelos japoneses; a agricultura química está sendo substituída
pela agricultura biológica e o setor de serviços adquiriu
predominância sobre os outros dois como fator de dinamização
do crescimento econômico.
As empresas transnacionais e os bancos e financistas internacionais reduziram
o poder dos Estados nacionais de fixar os parâmetros do mercado
e estão em campanha para se tornarem o único poder a comandar
essa dimensão essencial da vida humana que é a economia.
Como acontece todas as vezes em que o capitalismo muda de fase, está
em curso um nova divisão internacional do trabalho, afetando a
posição relativa de todos os países, tanto dos centros
como da periferia do sistema econômico mundial.
As principais conseqüências dessas transformações
já se fizeram sentir de forma inequívoca: a ampliação
do abismo que existe entre as nações ricas e as nações
pobres; a concentração da riqueza no interior de cada país;
o aumento da pobreza e o debilitamento do movimento operário em
todo o mundo.
Estados Unidos
No plano da política internacional, vivemos uma situação
diametralmente oposta à do período pós Segunda Guerra
Mundial. Naquele período, que durou quarenta anos, o governo do
mundo estava dividido entre duas grandes potências. Com a derrocada
da União Soviética, o bipolarismo cedeu lugar ao domínio
hegemônico dos Estados Unidos.
A política externa do novo senhor do mundo dirige-se para três
grandes objetivos: substituir a ONU por algum tipo de organismo internacional
inteiramente submetido a uma vontade; eliminar o princípio da autodeterminação
dos povos e impor a democracia parlamentar de tipo inglês como a
única forma de governo admissível. Para tanto, os Estados
Unidos pretendem estacionar tropas nas regiões que consideram estratégicas
para assegurar tais objetivos. A guerra do Golfo, a invasão da
Iugoslávia e a recente proposta de internacionalizar a guerra civil
colombiana fazem parte dessa estratégia.
Dois novos atores surgiram na cena internacional: o crime organizado e
o terrorismo. O crime organizado (narcotráfico, turismo sexual,
exploração da prostituição, venda ilegal de
órgãos humanos, lavagem de dinheiro) ultrapassou o âmbito
nacional e mostra-se resistente à ação repressiva
dos países. O terrorismo tornou-se prática de grupos religiosos,
raciais e políticos fundamentalistas, que conseguem acesso a armas
e explosivos de altíssimo poder ofensivo e inclusive artefatos
nucleares. Nem países poderosos têm hoje condições
de impedir que grupos diminutos façam explodir bombas destruidoras
em pleno centro de suas capitais.
No plano interno dos países, há duas situações
distintas. No Primeiro Mundo, evidencia-se a impotência dos governos
social-democratas para dar solução aos problemas do emprego,
da previdência social, da integração dos imigrantes,
do comportamento da juventude.
Já na Rússia e no Terceiro Mundo, o quadro é de desestruturação
dos Estados nacionais. Isto acontece sob a forma de conflitos políticos
e étnicos violentíssimos e cruentos, como vemos na África,
no Oriente Médio e em partes da Ásia, e sob a forma aparentemente
tranqüila, porém não menos cruenta, das "restaurações
democráticas" que estão acontecendo em diversos países
da América Latina. Do Segundo Mundo, restaram a China, Cuba o vietnã
e a Coréia do Norte.
A primeira passa por transformações profundas de rumo ainda
indefinido; a segunda resiste heroicamente a um bloqueio desumano e revoltante.
Sociedade desestruturada
A contrapartida de processos tão drásticos e tão
rápidos nos planos econômicos e políticos é
um quadro de desestruturação do tecido social.
O aspecto mais importante desse quadro é a fratura social causada
basicamente pela ampliação do fosso entre ricos e pobres.
Em todos os países, os ricos procuram isolar-se em "bunkes"
urbanos, protegidos por milícias privadas, totalmente preservados
de qualquer contato com a população pobre. Esse "apartheid"
ao inverso imuniza-os contra qualquer sentimento de solidariedade para
com a pobreza. Executivos de bancos e empresas, dirigentes políticos,
acadêmicos, ídolos de massa (artistas e azes do esporte)
vivem no "mundo dos grandes negócios" e dos "grandes
eventos", adquirindo o que Christopher Lasch chamou de "visão
turística" do seu próprio país. Essa elite,
responsável pelas decisões que afetam a vida da maioria
dos habitantes do planeta, desertaram das suas obrigações
cívicas e renunciaram a qualquer prurido de ética. A conseqüência
disso é que a humanidade está sendo governada por pessoas
sem escrúpulos e sem laços de afetividade com as comunidades
onde nasceram e onde vivem.
Outro aspecto importante da conjuntura social que estamos vivendo é
a insegurança causada pelo desemprego. Esta afeta de vários
modos as pessoas maduras, os velhos e, principalmente, a juventude. Milhões
de jovens sabem que não têm e não terão empregos
estáveis durante toda sua vida. Sofrem ainda a evidente deterioração
da vida familiar em sociedades urbanas, onde tudo, desde as habitações,
é hostil ao desenvolvimento dos laços familiares. A tentação
de escapar pela violência, pela droga, pelo sexo desregrado é
muito grande. As gangs juvenis que aterrorizam os moradores do bairro
e transformam os estádios esportivos em campos de batalha são,
na verdade, formas de protesto contra uma sociedade que não lhes
oferece lugar e nem valores éticos, estéticos, morais e
religiosos.
O terceiro impacto das transformações da economia e da política
na vida social é o impasse do consumismo. O consumismo, sustentáculo
do desenvolvimento do capitalismo fordista, está chegando a um
ponto crítico: por um lado, com-promete gravemente o e-quilíbrio
ecológico do planeta; por outro, exacerba comportamentos extremamente
anti-sociais, como o individualismo, o desperdício, a mediocridade
intelectual, a deterioração dos padrões éticos.
Outro elemento do quadro social é a manipulação da
opinião pública pela mídia. Na sociedade moderna,
a mídia está usurpando o papel da família, da escola
e da Igreja como agências de socialização do ser humano.
Através da mídia, uma legião de publicitários,
relações públicas, autores de novelas de televisão,
pesquisadores de opinião pública filtram a realidade e difundem
os falsos valores que sustentam o consumismo, o individualismo, o conformismo
e outras atitudes que convém à manutenção
do poder econômico e do poder político das elites.
Como chegamos a este ponto?
Eric Hobsbawm sustenta que essa situação de verdadeiro descalabro
explica-se pela incapacidade das ideologias seculares (liberalismo, comunismo,
social-democracia) e das grandes religiões de dar respostas eficazes
às angústias da humanidade.
Os templos estão vazios e os que se enchem veneram o bezerro de
ouro do escapismo esotérico. Sem qualquer referência ao espírito
e à ética, o capitalismo, de mãos livres para transformar
tudo em mercadoria, tudo submete à lógica da acumulação
do capital. Nessa voragem, nada do que a humanidade construiu para fazer
a vida dos homens mais feliz e equilibrada - família, Igreja, escola,
comunidade nacional, ordem internacional - resiste.
Esperança
Numa antecipação profética à situação
do mundo no final do século, João Paulo II, ao assumir o
papado, em 1978, adotou com seu lema, esta palavra de Jesus: "não
tenham medo".
Como não ter medo diante de perspectivas tão sombrias?
A resposta resume-se na palavra esperança. Esperança não
é previsão do futuro, mas certeza que vem da fé.
Há sinais de esperança, para quem tem fé suficiente
para per-cebê-los: crescem, em todo o mundo, os movimentos pelos
direitos humanos; ativistas do movimento ecológico denunciam as
agressões à natureza; na África do Sul, a Comissão
da Conciliação inaugura procedimento inédito para
curar as feridas provocadas pelos conflitos políticos, sociais
e religiosos; na Polinésia, o Timor Leste torna-se a referência
mundial dos que lutam pela autodeterminação dos povos; no
México, os índios de Chiapas sustentam uma guerrilha de
estilo novo: não querem tomar o poder pela força, mas regenerá-lo
pela via do diálogo democrático; Cuba não se entrega.
Aqui, no Brasil, o MST discute, em milhares de assembléias populares,
um projeto para o Brasil enquanto grupos comunitários, espalhados
por todos os cantos, mantém viva a fé do povo na possibilidade
de mudar a realidade.
São sinais ainda débeis, mas, se formos capazes de ler o
Apocalipse de São João, seremos capazes de entender esta
frase de João Paulo II: "o mal não é nem fundamental
nem definitivo".
A vida acima da dívida
Costanzo Donegana
Entre 1982 e 1990, da América Latina e da África foram
transferidos para os bancos e os governos dos países industrializados
1.345 bilhões de dólares. Voltaram 927: exatamente 418 bilhões
de dólares a menos.
Vejamos o exemplo do Brasil. Neste ano, chegaram 41 bilhões de
dólares da segunda parcela do "plano de salvamento".
Mas o Brasil não viu nem de longe esse dinheiro, porque foi transferido
de um banco para o outro do Primeiro Mundo. Praticamente, ele continua
com aqueles 41 bilhões de dívida, mais 2,5-3 bilhões
de taxas bancárias da operação. Há quase 20
anos acontece assim.
Os petrodólares
O problema da dívida é complexo e envolve aspectos diferentes:
econômico, financeiro, político, social, ético e responsabilidades
dos dois lados. Mas não é permitido colocar tudo no mesmo
plano ou até privilegiar aspectos técnicos à custa
dos aspectos humanos: há prioridades que nunca podem ser deixadas
em segundo plano, porque envolvem valores inalienáveis e pessoas
concretas.
A história da dívida externa é antiga, mas conhece
uma etapa determinante no ano de 1973, quando a OPEP (Organização
dos países exportadores de petróleo) aumentou o preço
do petróleo de 1 a 4 dólares por barril. Os bancos se encontraram
saturados por enormes quantidades de dinheiro (os petrodólares),
que emprestaram com facilidade aos países em desenvolvimento, sem
avaliar suficientemente os governos com que tratavam nem suas capacidades
de reembolso. Foi uma irresponsabilidade dos dois lados, porque a maioria
do dinheiro emprestado foi destinado a programas que não favoreceram
em nada a população: compra de armas, projetos megalômanos
e insustentáveis de desenvolvimento ou projetos particulares em
vantagem das elites, desvio de dinheiro nas contas dos governantes no
exterior.
Outro aumento do petróleo (1979) conjugado com as políticas
monetárias rigorosas dos Estados Unidos para reduzir a inflação
levou a um aumento unilateral das taxas de juros da dívida, que
passaram de 6-7% a 18-22% em termos nominais, mas superiores ainda em
termos reais e com poder retroativo sobre a dívida anterior. Nos
mesmos anos, sempre por decisões unilaterais dos países
do Norte do mundo, em execução de suas políticas
econômicas protecionistas, os preços das matérias-primas
dos países do Sul caiu 70%, enquanto os produtos do Primeiro Mundo
subiam 60%. Os países pobres, que confiavam na venda das matérias
primas para pagar a dívida, tiveram que continuar pedindo empréstimos.
Nessa conjuntura, o México anunciou que não podia mais pagar
suas dívidas e outros países o seguiram. Foi um susto geral,
porque os principais grupos bancários encontravam-se à beira
da quebra.
Estrangulamento
Entram em cena o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco
Mundial (BC) que se convertem nos atores principais da crise. Sua política
consiste essencialmente na imposição das famosas PAE (Políticas
de Ajuste Estrutural), que prevêem a estabilização
e o crescimento das economias dos países devedores, através
de medidas que implicam desvalorização da moeda, produção
voltada para a exportação, aumento da imposição
fiscal, liberalização do comércio para o exterior,
corte nos empregos e salários do funcionalismo público e
nos gastos da saúde, educação e serviços sociais.
Ao lado de alguns aspectos positivos, as PAE provocam conseqüências
negativas, que pioram gravemente a vida das populações dos
países pobres (da América Latina, mas agora sobretudo da
África).
Diante desse quadro, afirma uma jornalista portuguesa: "A situação
da dívida externa acaba sendo um círculo vicioso auto-sustentado:
· os países do Sul não têm capacidade para
pagar as dívidas;
· os países e instituições credoras, receando
a ruptura do sistema financeiro internacional, concedem os empréstimos,
condicionados pelos seus próprios critérios;
· devido a esses critérios, os países devedores acabam
por utilizar parte desses empréstimos para pagar o serviço
da dívida acumulada, continuando assim a necessitar de financiamento
para enfrentar as necessidades internas e a continuação
do pagamento do serviço da dívida, a qual, entretanto, aumentou
com o último financiamento" (P. Duarte Lopes, em Mensageiro
de Santo Antônio, 1997/1, p.7).
O que fazer?
O papa, na carta Tertio Millennio Adveniente sobre o Jubileu do ano 2000,
pede: "Os cristãos deverão fazer-se voz de todos os
pobres do mundo, propondo o Jubileu como um tempo oportuno para pensar
[...] numa consistente redução, se não mesmo no perdão
total da dívida internacional" (n.51). Os técnicos
dirão que ele é irrealista e que o problema não se
resolve com as boas intenções. João Paulo II conhece
muito bem tudo isso como o conhecem os vários grupos e movimentos
que, no mundo todo, estão se mobilizando para que a dívida
acabe de esmagar os pobres. Temos que reconhecer que algo está
se mexendo: algumas nações do Primeiro Mundo cancelaram
ou reduziram seus créditos; o FMI e o Banco Mundial elaboraram
uma lista dos HIPC (Países pobres fortemente endividados) que,
sob determinadas condições, conseguiriam a redução
da dívida. Mas a iniciativa, por enquanto, mostrou-se insuficiente
pelo número reduzido de países beneficiados e pelas condições
difíceis a serem cumpridas.
É necessária uma mudança cultural nas relações
entre os povos que coloque os pobres em primeiro lugar (apesar dos erros
de seus governantes que eles, porém, não devem pagar), com
o envolvimento das forças representativas da sociedade nas negociações,
até agora reservadas entre o FMI e os Ministérios da Fazenda
e a revisão do sistema das relações financeiras internacionais
que mantêm uma situação profundamente injusta no processo
entre devedores e credores, jogando a responsabilidade do peso da dívida
quase exclusivamente sobre os países do Sul e atribuindo aos países
do Norte o duplo papel de parte em causa e juiz.
Um documento conjunto da Caritas Internacional e do CIDSE definiu incisivamente
o problema: "A vida acima da dívida". Mais de dois trilhões
de dólares de dívida não podem continuar ameaçando
e até tirando a vida de milhões de pobres.
Um olhar missionário sobre o mundo
Dom Jacyr Braido
Um olhar missionário sobre o mundo implica contemplá-lo
a partir do Pai que o ama a ponto de lhe enviar o Filho que, sob a força
do Espírito, inaugura o Reino. É um visão de fé,
impregnada de amor e marcada pela esperança. Este olhar tem uma
atualidade grande, se partirmos do apelo do COMLA 6: aceitar "Jesus
Cristo, como vida e esperança para todos os povos".
Este enfoque, longe de ser intimista, é extremamente provocador
na linha de Gaudium et Spes: os cristãos devem desempenhar fielmente
as tarefas terrestres e estão mais obrigados a cumpri-las por causa
da própria fé, pois se neglicenciarem os deveres temporais,
negligenciarão também os deveres para com o próximo
e o próprio Deus, colocando em perigo a salvação
eterna (cfr. GS, 43).
Para entrar no Reino de Deus, o cristão deve fazer sua "lição
de casa", ou melhor, sua lição de caminhada. Uma caminhada
que se parece com a dos discípulos de Emaús que vão
se interrogando sobre o que aconteceu em Jerusalém e acabam "reconhecendo"
no Peregrino Desconhecido que a eles se juntou no caminho, e os interrogava,
iluminava e com eles "partia o pão", o próprio
Senhor!
Na caminhada para o novo milênio, os cristãos se interrogam
a partir dos desafios de hoje e se perguntam: que novo milênio queremos?
Que século XXI desejamos? Como vamos agir, concretamente, a partir
de 2001? Nessas mesmas interrogações, está o Senhor
presente, iluminando a partir de Moisés, dos Profetas e do Evangelho.
As interrogações na caminhada
Os homens e as mulheres de hoje, ao se prepararem para celebrar o jubileu,
interrogam-se sobre vários acontecimentos que afetam sua vida pessoal,
comunitária e social. Como se apresenta a sociedade atual?
Antes de mais nada, a sociedade está sob a decisiva influência
da economia. O mercado e o lucro estão erigidos em árbitros
das decisões da produção e da distribuição.
Ao colocar a economia como centro, inverte-se a hierarquia de valores.
Há grandes avanços na tecnologia, com descobertas e aplicações
práticas que trazem grandes vantagens, mas, ao mesmo tempo, preocupam
pelas conseqüências não só do ponto de vista
ético, como também antropológico.
A partir de 1990, avança a globalização, neoliberal
quanto à forma, panacéia para tudo, desculpa até
para manter privilégios. É um fato. Tem significações
altamente positivas como também negativas. Os mercados financeiros
passam a se interligar. Caem as barreiras comerciais. Novos conhecimentos
e valores se disseminam pelo planeta.
Na economia globalizada, os fluxos de capitais sãos extremamente
instáveis. As aplicações financeiras visam ao lucro
especulativo que gera lucros mais imediatos do que as atividades produtivas.
Não favorece o emprego da mão-de-obra, que tende a migrar
da indústria para o setor de serviços. Ou penar no desemprego.
Nos países emergentes, a abertura indiscriminada às exportações
compete com as micro e pequenas empresas nacionais. Gera-se a recessão
por causa dos juros elevados para atrair recursos de fora.
O chamado Consenso de Washington propugna um conjunto de políticas
neoliberais propostas pelos Estados Unidos, organismos internacionais
e países sob influência ocidental. Por este consenso, favorecem-se
as exportações e o mercado internacional; redimensiona-se
o papel do Estado, reduzindo-o ao mínimo; concede-se ampla liberdade
à movimentação dos capitais internacionais; prioriza-se
o cumprimento dos contratos e o pagamento das dívidas, mesmo deixando
em segundo plano as necessidades vitais de amplas faixas da população
que acabam ficando "excluídas" dos benefícios
da globalização; o FMI controla as economias dos países
"em crise" que, para cumprir suas metas, acabam muitas vezes
retirando recursos das áreas sociais; propõe-se, entre outras
reformas, a flexibilização da legislação trabalhista.
Produz-se um excessivo comprometimento das economias dos países
pobres. Aprofunda-se a desigualdade social, uma vez que a renda tende
a se concentrar em favor de um número cada vez menor de pessoas
e grupos que podem usufruir dos bens dia a dia mais sofisticados e caros,
em prejuízo de amplas camadas populacionais que mais e mais se
vêem privadas dos serviços necessários à vida
em dignidade como educação, saúde, emprego e moradia.
Se, em nossas interrogações na caminhada, quiséssemos
dar um juízo ético sobe a globalização, certamente
a resposta não seria fácil. Entretanto, por alguns sinais
que mais aparecem, ele seria bastante severo, pois basicamente a aplicação
radical das leis do mercado fere a dignidade da pessoa humana, passa por
cima de uma solidariedade para com as camadas mais sofridas da sociedade
e torna as pessoas mais individualistas e a sociedade mais egoísta
e injusta. No que se refere à globalização cultural,
o poder dos meios de comunicação social divulga conhecimentos
e informações em níveis jamais vistos anteriormente.
Percebe-se o grande valor positivo que isso tem. Entretanto, essa circulação
tende a nivelar as expressões culturais, prejudicando a sadia diversidade
e o intercâmbio das riquezas culturais de cada povo. O que cria
problemas na globalização cultural é, quase sempre,
o sentido único desse processo, a circulação indiscriminada
de valores e pseudovalores e os interesses econômicos que estão
por trás. Por vezes, torna-se difícil para os jovens, sobretudo,
assimilar e avaliar tal volume de informações. O fenômeno
do zapping - passar de um canal a outro na TV, através do controle
remoto - pode gerar na pessoa um sentido de relativismo - "tudo é
igual, tudo é a mesma coisa" -, além de acentuar o
individualismo.
Ele está presente nas interrogações e indica a solidariedade
Na caminho de Emaús, o Peregrino Desconhecido escutava, interrogava,
iluminava, a partir da Escritura, o fato do acontecimento primordial que
é sua ressurreição dos mortos - e por tanto, a verdade
de sua missão, de seus ensinamentos sobre Reino de Deus e de seus
gestos salvíficos. Hoje, reafirmando sua presença ("Estarei
convosco todos os dias até o fim dos tempos"), os homens e
as mulheres se interrogam sobre a própria fé e sobre os
valores que esta mesma fé propõe para a Igreja e para a
sociedade. E se sentem interpelados a dar a própria contribuição
para que a sociedade seja mais justa, fraterna e solidária.
Uma sociedade solidária: que raízes profundas ela tem no
Evangelho! Como não lembrar as bem aventuranças, a nova
lei do amor, o lava-pés e o serviço, a Eucaristia que é
mesa de partilha? Jesus se identifica com o pobre e o pequeno. E afirma:
"Eu vim para que todos tenham vida e vida em abundância"
(Jo 10,10). É o verdadeiro Bom Samaritano. Procura a ovelha perdida.
Tem compaixão: "vendo a multidão, teve compaixão
porque estava cansada e abatida" (Mt 9,36).
A exemplo de Jesus, o amor fraterno e solidário é gratuito,
é capaz de partilha, estende-se a todos e começa pelos mais
necessitados. É preciso tornar-se "próximo".
O papa João Paulo II, diante da economia globalizada, diz que a
visão da Igreja se apóia sobre os três alicerces fundamentais
da Dignidade Humana, da Solidariedade e da Subsidiariedade (EA, 55). Indica
o caminho da Justiça Social: "A economia globalizada deve
ser analisada à luz dos princípios da justiça social,
respeitando a opção preferencial pelos pobres, que devem
ser colocados em condições de defender-se" (EA, 55).
Depois de tocar nos pecados sociais (comércio de drogas, reciclagem
de lucros ilícitos, corrupção em qualquer ambiente,
o terror da violência, a corrida aos armamentos, a discriminação
racial, as desigualdades entre os grupos sociais, a destruição
irracional da natureza); depois de falar do "neoliberalismo"
("sistema este que, apoiado na concepção economicista
do homem, considera o lucro e as leis do mercado como parâmetros
absolutos com prejuízo da dignidade e do respeito da pessoa e do
povo; tornou-se uma ideologia que provoca no campo político e social
a marginalização dos mais fracos"), João Paulo
II conclui:
"A melhor resposta, a partir do Evangelho, para esta dramática
situação é a promoção da solidariedade
e da paz, em vista da realização da justiça... Deve-se
apoiar o processo de democratização que se está realizando
na América, pois num sistema democrático são maiores
as possibilidades de controle que permitem evitar abusos" (EA, 56).
Propõe uma cultura da solidariedade: "A partir do Evangelho,
é necessário promover uma cultura da solidariedade que incentive
oportunas iniciativas de apoio aos pobres e marginalizados (EA, 52).
Olhando para a América, o papa amplia o sentido da globalização.
Ele deve incluir a solidariedade: "A Igreja na América é
chamada não só a promover uma maior integração
entre as nações, contribuindo assim para criar uma autêntica
cultura globalizada da solidariedade, mas também a colaborar com
todos os meios legítimos para a redução dos efeitos
negativos da globalização, tais como o domínio dos
mais poderosos sobre os mais fracos, especialmente no campo econômico,
e a perda dos valores das culturas locais a favor de uma mal-entendida
homogeneização" (EA, 55).
D. Jacyr F. Braido, Bispo Coadjutor de Santos e Responsável pela
Pastoral Social da CNBB
|