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A novela da reforma agrária
Edison Barbieri
Quem não ouviu falar dos sem-terra, de ocupações,
de assentamentos? Está em jogo o problema da reforma agrária
Reforma Agrária, por definição, é um processo
amplo, imediato drástico, de redistribuição dos direitos
de propriedade da terra.
Amplo pela magnitude do problema agrário do país onde é
executada imediato para poder beneficiar a atual geração
dos sem terra e drástico no sentido de que a agricultura "
reformada" precisa apresentar características totalmente diferentes
do antigo capitalismo latifundiário.
O que se fez até agora
Uma das primeiras reações daqueles que se opõem
às mudanças na estrutura agrária brasileira consiste
em mencionar o fracasso dos assentamentos realizados até agora
pelo governo.
Comecemos, pois, admitindo que nunca foi realizada uma verdadeira reforma
agrária no Brasil. Muitos dos assentamentos feitos pelo governo,
até agora, têm sido de caráter emergencial. Instalados
geralmente em terras com baixa fertilidade (o que não permite uma
exploração sustentável), ficaram entregues a sua
própria sorte, carecendo dos serviços necessários
(crédito, assistência técnica, armazenamento, saúde,
educação, etc.) e de estruturas modernas de processamento,
transporte e comercialização do que foi produzido.
Em alguns casos, onde os assentamentos deram certo, muitos prefeitos de
cidades onde estavam localizados, passaram a apoiar a reforma agrária
tanto pelo aumento que os novos agricultores propiciaram à arrecadação
dos municípios, como pelo dinamismo que os novos personagens trouxeram
à economia decadente dessas localidades.
O que deveria ser feito
É necessária uma decisão política, mas decisão
política não significa apenas fazer declarações
públicas e anunciar planos e metas. Decisão política,
em nível presidencial, significa acompanhamento constante, cobrança
de providencias, vigilância sobre os subordinados menos convictos,
liberação de recursos, empenho pessoal. Se o presidente
Kennedy tivesse simples mente anunciado o projeto Apolo, sem acionar constantemente
o pessoal da Nasa, o homem jamais teria chegado a Lua.
Estudos do Incra demonstram que, para começar a assentar 200 mil
famílias, seria necessária uma despesa de cerca de 2 bilhões
de dólares. Essa importância e bem menor do que o rombo do
Banco Econômico que foi coberto pelo governo federal. Portanto,
fica claro: o que falta verdadeiramente e a vontade política de
se fazer a reforma agrária, a mesma vontade política que
o governo teve quando salvou banqueiros.
A sociedade brasileira sonha, ha séculos, com uma reforma que venha
a corrigir a herança das capitanias hereditárias, das sesmarias,
da Lei de Terras de 1850 e da "propriedade improdutiva" da Constituição
de 1988.
Há muita terra a ser distribuída
Para fazer essa reforma, o poder publico tem a sua disposição
uma área imensa: mais de 115 milhões de hectares, ou seja,
quase cinco vezes a área do Estado de São Paulo e 3,4 vezes
a superfície da Itália. E claro que nem todas essas "propriedades
improdutivas" se prestam para o uso agrícola, mas se observarmos
que 43% das terras do Brasil são consideradas aproveitáveis
para a agricultura, ainda sobrara terra para abrigar assentamentos de
quase dois milhões de famílias em módulos de 30 hectares.
Esse contingente equivale a 6,78 vezes a meta de 280 mil famílias,
programada para o programa do atual governo. Essas cifras mostram claramente
que, na atual situação de penúria de recursos, a
terra e ainda uma das poucas coisas que o Brasil tem para redistribuir.
Quadro histórico
As nações modernas construíram a democracia a partir
de uma justa distribuição das terras a seus habitantes.
O Brasil, em seis momentos de sua história, deixou escapar essa
oportunidade.
0 primeiro desses momentos aconteceu no inicio do povoamento, quando o
rei de Portugal, ao invés de abrir o imenso território descoberto
pertencente a coroa, para todos os seus súditos, resolveu aplicar
aqui, com as capitanias hereditárias, um sistema de ocupação
existente no minúsculo arquipélago dos A~ores. Essas imensas
áreas, depois divididas em sesmarias, deram origem ao latifúndio.
Mais tarde, a abolição da escravatura não foi acompanhada
da oferta de uma oportunidade de os antigos escravos terem a terra própria,
como queriam alguns abolicionistas. Esse equívoco jogou milhares
de negros na mais absoluta miséria, obrigando-os a buscar sua terra
por seus próprios meios - tal como fazem hoje os sem-terra.
Já neste século, a Coluna Prestes e a Revolução
de 30 perderam a grande oportunidade de levantar também as massas
camponesas e buscar, derrubando a Republica Velha, um lugar no Novo Brasil.
Por fim, na história mais recente, mais duas tentativas sem resultado
de reforma agrária, como as Reformas de Base de João Goulart
(1962-64) e o PIano Nacional de Reforma Agrária -PNRA, (1985).
O Estatuto da Terra e a Emenda Constitucional n.10, ambos de novembro
de 1964, abriram O caminho para O desencadeamento de uma reforma agrária
de verdade, permitindo, pela primeira vez, o pagamento da desapropriação
em títulos da dívida publica. Posteriormente, Costa e Silva,
com o Decreto-Lei n. 554, de 25 de abril de 1969, tornaram operacionais
aqueles dois diplomas, estabelecendo o rito sumario (coisa que hoje também
Fernando Henrique tenta fazer) para agilizar o processo e evitar a retomada
da terra. Desapropriada pelos latifundiários. Infelizmente, também
a tentativa militar caiu no vazio, seja pela pressão do conservadorismo
(que criou o Imposto Territorial Rural em lugar das desapropriações),
seja porque Castelo Branco acabou sendo atropelado pelos "duros"
de Costa e Silva e não pode (ou aquela altura já não
queria) dedicar a reforma agrária o acompanhamento necessário
a sua implementação.
Em 1985, Sarney, dizendo honrar compromissos públicos de Tancredo
Neves com a reforma agrária, criou o Ministério da Reforma
e Desenvolvimento Agrário (MIRAD), entregando a sua direção
a Nelson Ribeiro, homem sereno e confiável, indicado pela Comissão
Pastoral da Terra, que é um setor da Igreja católica, seriamente
engajado nessa questão. Foi então elaborado um ambicioso
Plano Nacional de Reforma Agrária (PNRA), que pretendia assentar
1,4 milhão de famílias em quatro anos.
Essa meta era firmeza que a então direção do INCRA
mostrava ao pretender executa-la apavoraram os latifundiários,
que se organizaram em tomo da extinta União Democrática
Ruralista (UDR), fizeram leilões de gado para arrecadar fundos,
armaram-se e partiram para o confronto. Sarney, é claro,
recuou e arquivou a reforma agrária e o PNRA, com as desculpas
de sempre.
Na Constituição de 1988, a reforma sofreu novo revés
com a retirada do latifúndio do texto constitucional, a criação
da falácia da "propriedade produtiva" e o retorno da
obrigatoriedade do prévio pagamento das indenizações
por interesse social para fins de reforma agrária, exigência
que bloqueava o processo (tal como hoje acontece) e que havia sido retirada
da Constituição de 1967.
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