Revista "MUNDO e MISSÃO"
Justiça Social
A reconciliação Que
argumento convenceria os outros a se reconciliarem com o por Giorgio Bernardelli
O coração partido de Rami, israelense “Depois de lutar na guerra do Yom Kippur e de ter perdido alguns de meus amigos mais caros, eu decidi: de ora em diante vou me ocupar apenas da minha vida. Mas, em 4 de setembro de 1997, dois atentados suicidas palestinos estouraram improvisamente a bolha de sabão em que eu me escondia. Na explosão, morreu minha filha de catorze anos, Madah”. Quem fala é Rami Elhanam, um gráfico israelense de 54 anos. Já vimos a cena nos noticiários: ambulâncias, a corrida desesperada de um hospital a outro, e a confirmação da terrível notícia que, de improviso, rasga a sua carne.
“Voltei para casa – continua Rami – e vivi sete dias de luto durante os quais muitas pessoas vieram prestar solidariedade. Mas, no oitavo dia, fiquei sozinho. Devia decidir que coisa faria com essa dor terrível que trazia dentro; por onde deveria ir. E havia apenas duas estradas: a primeira é a mais óbvia e natural, é a estrada do ódio, da vingança. Porque, quando matam sua filha de catorze anos, você fica de fato explodindo de raiva. Mas somos pessoas, não animais, e então podemos também assumir um novo modo de pensar. Matar outra pessoa vai me trazer de volta a minha menininha? Daria paz para minha dor? Com esforço, comecei a descobrir outra estrada. Aquela que me fez perguntar: por que acontecem estas coisas terríveis e, o mais importante ainda, o que posso fazer pessoalmente para que não aconteça a mais ninguém, o que aconteceu comigo?” Para Rami, o estímulo nasceu no encontro com o Parent‘s Circle, o fórum das famílias feridas, nascido por iniciativa de Yitzhak Frankenthal, outro pai que, em 1994, havia perdido no conflito o próprio filho Arik, raptado e morto com 19 anos pelos homens do Hamas. O coração partido de Adel, palestino Através do Parent’s Circle, Rami pode conhecer a dor também de quem está no outro lado. Histórias como a do palestino Adel Misk. “Sou médico, neurologista – conta ele – e tive a sorte, rara nesta terra, de trabalhar em dois hospitais, um hospital palestino, em Ramallah e outro, israelense, na parte oeste de Jerusalém. Durante a primeira Intifada, como voluntário, curei milhares de palestinos feridos nos embates e israelenses atingidos por pedras”. Ele também conheceu, em seguida, inesperada e imensa dor. “Era um entardecer de 1993 – continua Adel – e eu voltava para casa na parte leste de Jerusalém, quando vi um enorme grupo de pessoas próximo à minha casa. Disseram-me que havia alguém ferido. Corro para ajudar e me vejo diante de papai, Juma, com o rosto ensangüentado e a cabeça fraturada por um colono israelense. Tentei, por quarenta minutos, reanimá-lo. Inútil”. Adel recorre à polícia israelense, que captura, processa e condena o homicida a quatro anos de cadeia; dois outros, em prisão semi-aberta. “Aquilo não me surpreendeu – comenta o médico. É normal, para o israelense que mata um palestino, quatro anos de prisão. Se fosse o contrário, o palestino teria prisão perpétua”. Nova dor, então. E novas perguntas: “Quero saber! Por que meu pai? Justo eu que socorri tanta gente? Concluí que meu pai, assim como milhares de palestinos e israelenses, morreu simplesmente porque não existe paz. Jamais teremos paz nos nossos territórios porque eles foram ocupados. E enquanto isso existir, não haverá paz. As estatísticas provavelmente dirão que a maioria das vítimas é palestina, mas esta não é uma competição. Sabemos que nosso grupo pagou um preço altíssimo; que nossa dor é igual à deles”. Sem reconciliação não haverá paz! Perto de quinhentas famílias, israelenses e palestinas, participam das atividades do Parent’s Circle. Todas golpeadas pela perda de pessoa querida, vítima de violência. Andam de um lado para outro, juntas, nas escolas, de ambas as partes da barricada, para dizer uma “simples e banal verdade: se nós, os que pagamos um preço altíssimo nesse conflito, podemos nos falar reciprocamente, então qualquer pessoa pode fazer o mesmo. É a mensagem que enviamos a nossos líderes: se nos entendemos, então vocês podem fazer o mesmo. E a nossa voz é, de fato, a mesma. É a única voz sensata que vocês podem ouvir hoje, nesta região. Porque há um muro muito alto de ódio e de medo que divide as duas nações. Estamos consertando o prejuízo definitivo”. É a voz de gente para os quais as feridas ainda não estão fechadas. “Eu não perdôo aquele que matou minha filha – explica Rami. Porém, no estado de espírito que vai do ódio ao perdão, há uma fase intermediária, a da reconciliação. Posso entender e me envolver com a dor alheia. Sei que minhas mãos de israelense estão cheias de sangue. E então a única estrada é seguir adiante, não para trás”. “O nosso sonho é de não ver mais ninguém inscrito no grupo – emenda Adel. Gostaria de dizer que outros iriam sofrer como nós. Ao contrário, nós tudo faremos para impedir qualquer outra violência dos dois lados, procurando convencer a todos, de ambas as partes, que um Tratado reconhece um Estado aos palestinos, ao lado do Estado de Israel. Espera-se que ele seja logo assinado. Mais cedo ou mais tarde certamente surgirá uma solução para o conflito. Não somos um partido político, somos apenas pessoas que estão querendo que chegue aos nossos líderes uma mensagem: é preciso ter pressa, para que outros não sofram também aquilo que estamos sofrendo”. Fonte – Jornal “Avvenire” A paz é possível, mas há um preço
“A paz é possível, é necessária, é realizável. Mas tem um preço: a coragem para dar um passo adiante”. No coração do Knesset, o Parlamento israelense, ressoaram as palavras do Papa, através do Cardeal Dionigi Tettamanzi, arcebispo de Milão. A mensagem foi também dirigida ao Parlamento palestino, em Ramallah, por Gioacchino Pistone, presidente do Conselho das Igrejas cristãs de Milão. No Knesset, os participantes do Caminho Ecumênico de Paz encontraram representantes da coalizão do governo e da oposição. Alguns políticos quiseram justificar as razões da desconfiança nos confrontos com os adversários.
Muito forte, sobretudo, é a discussão em torno do tema do muro em construção para separar judeus de palestinos. “A situação é extremamente complexa – assegurou Tettamanzi – e não se dilui apenas com sonhos. Porém, como sonhadores da paz, obedecemos à nossa fé e a uma insistência enraizada no coração humano. Não há paz sem diálogo e reconciliação. E a experiência nos diz que esta é uma estrada que se pode construir”. |
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