Revista "MUNDO e MISSÃO"
Justiça Social
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Desde o começo, o Fórum Social se opõe ao Fórum Econômico Mundial, realizado em Davos, na Suíça. Oposição na forma, no conteúdo e no simbolismo. Porto Alegre transformou-se em "capital mundial da esperança" e sede permanente do Fórum Social Mundial, para reunir a todos os que se opõem ao neoliberalismo e lutam por "um outro mundo possível". Cândido Grzybowski, do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase) e membro do Comitê Organizador, definiu essa última edição do Fórum Social como "uma usina de idéias". Segundo ele, "o Fórum de Porto Alegre começou como uma atividade em oposição a Davos, e hoje, com mais de 100 mil pessoas reunidas aqui, é Davos que se opõe a nós". Outra diferença: "O Fórum de Davos segue a estrutura de uma empresa e aqui construímos um espaço para o diálogo da sociedade civil", completa Maria Luisa Mendonça, da Rede Social de Justiça e Direitos Humanos e também membro do Comitê Organizador. Em relação às dificuldades de diálogo entre os dois eventos, a grande novidade este ano foi o fato de o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ter ido a ambos. Em seu discurso no Fórum Social, o presidente reafirmou seu compromisso com os princípios que abraçou desde quando se iniciou na luta sindical. Em Davos, o tom foi o mesmo e, inclusive, lançou a idéia de se criar uma espécie de programa Fome Zero internacional para combater esse mal no planeta. Na avaliação do sociólogo português Boaventura de Souza Santos, nos últimos três anos, houve um grande avanço em termos de uma nova concepção do mundo e de uma idéia de que não só é possível, como também é urgente, transformar a situação em que o mundo se encontra. "Lembremos do primeiro Fórum: para a mídia éramos um bando de desordeiros que nos organizávamos em Porto Alegre, tentando ser uma alternativa ao Fórum Econômico de Davos. Mas não éramos nem isso, não tínhamos nenhuma relevância. Já no segundo encontro, tivemos a oportunidade de mostrar que éramos um movimento bastante relevante e tivemos a chance de iniciar um diálogo - aliás frustrado, e não muito bem conduzido - com Davos", disse Boaventura em entrevista ao Coletivo em Crise. "Agora, no 3º Fórum, um grande presidente de um grande país, que em alguma medida estava na origem deste Fórum, foi a Davos levar a mensagem de Porto Alegre. E não só pudemos mandar um presidente e enviar uma mensagem de paz, como também foi possível levar propostas concretas, a partir da energia e mobilização que se criou no FSM." Diálogo entre Porto Alegre e Davos, que a partir do ano que vem terá como cenário a Índia. Francisco Whitaker, da Comissão Brasileira Justiça e Paz, da CNBB, fala da realização do próximo Fórum Social na Ásia, destacando a diversidade, característica tão marcante desses eventos. "Se em Porto Alegre consolidamos esse espaço de encontro, na Índia vamos incorporar características da cultura asiática, enriquecendo a multiculturalidade do FSM." Muita coisa se produziu durante o Fórum. Foram dezenas de conferências e testemunhos e mais de 1.200 oficinas e seminários de estudo que discutiram temas diversos: conflitos internacionais, a indústria bélica, o comércio mundial, a dívida externa e a produção de medicamentos, a situação e organização dos povos indígenas e os direitos humanos. Um dos testemunhos mais marcantes foi o do bispo Federico Pagura, da Igreja Evangélica Metodista Argentina. Pagura, co-presidente do Conselho Mundial de Iglesias (CMI) e que neste mês de março, completa 80 anos, fez sua a tese do sacerdote uruguaio Luis Pérez Aguirre, que defendia que, na América Latina, o anúncio do Evangelho passa hoje, primeiramente, "por um tubo de aproximadamente oito metros de comprimento denominado aparelho digestivo". O bispo considera o Fórum Social "um símbolo precioso desse outro mundo possível pelo qual lutamos". Mundo possível e construído em ritmo de paz; não de guerra, como defenderam os participantes do Fórum Social e os manifestantes que foram às ruas e praças de todo o mundo em 15 de fevereiro. Afinal, como disse o jornalista e escritor Eduardo Galeano: "A humanidade já não suporta que seus assassinos a usem como desculpa. E já não suporta chorar seus mortos ao fim de cada guerra: desta vez, quer impedir a guerra que vai matá-los". TODOS OS NÚMEROS DO FÓRUM SOCIAL MUNDIAL 2003
Fonte: Comitê Organizador do FSM |
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