Revista "MUNDO e MISSÃO"

Justiça Social

Todos têm direito à saúde

Elaine Araújo de Moares, 24 anos, nunca quis deixar a favela de Vigário Geral, no Rio de Janeiro, mundialmente conhecida pela chacina de 21 pessoas ocorrida em 1993. A geógrafa belga Isabella Wolff, 30, sempre pensou em deixar seu país para se dedicar a comunidades carentes. Membro da igreja Batista, a enfermeira Bárbara Rolim, 36, sentia que seu cristianismo deveria leva-la a tentar transformar a sociedade. Ideais assim ligaram essas mulheres à organização Médicos Sem Fronteiras (MSF). Pessoas como elas levaram a MSF a receber o Prêmio Nobel da Paz deste ano.

Fundada na França, em 1971, a organização atua me mais de 70 países e reúne cerca de 2,05 mil profissionais que trabalham na área da saúde e promoção humana, ajudando vitimas de catástrofe naturais, guerras, epidemias a exclusão social. No Brasil, estão presentes no Rio de Janeiro. No ano de 1994, começaram, em Vigário Geral, uma atividade que se espalhou para outras comunidades. Em seus projetos, a MSF se depara com mazelas locais como tráficos de drogas.

"Um dia cheguei para trabalhar e encontrei dois adolescentes armados. Tinham instalado a boca-de-fumo em frente ao local de atendimento dos pacientes", conta Bárbara, coordenadora de saúde da ong do Rio. Ela exigiu que fossem embora e disse que, caso contrário, a MSF sairia da comunidade. Os meninos cederam. Mas foram presos no dia seguinte. Suspeita de ter feito denúncia, a enfermeira correu risco de vida, que não se confirmou pelo respeito do trafico à organização.

"Às vezes tenho muito medo. Mas me sinto recompensada pelo bem que posso fazer, nunca vou esquecer de quando salvamos um menina de 1 ano, com meningite", lembra Bárbara. Apesar da presença marcante em áreas pobres, a ONG está longe do paternalismo. A população é estimulada a se organizar e levar para frente projetos. È ai que Elaine entra na história. "Já tinha participado da Igreja Católica. Sempre quis ajudar a resolver os problemas da minha comunidade.

Por isso topei fazer o curso de gestor comunitário da Médicos Sem Fronteiras", diz. Com duração de oito meses e aulas de Matemática, Português, História, Política e Ética, o curso capacita para trabalhos sociais. Ex-alunos formaram o Movimento Organizado de Gestão Comunitária (Mogec). Hoje, Elaine coordena o movimento e administra um dos projetos, o posto se saúde local, com medicamentos e salários pagos pela prefeitura. "Descobri que podemos melhorar nossa situação. Para isso não é preciso ser de fora nem ter faculdade ou outros recursos. Omaior recurso è nossa vontade de mudar", ensina Elaine.

Há grupos como o Mogec sendo formado ou a serem implantados em mais de 21 comunidades. Nossa Filosofia é ajudar os moradores para que eles façam a própria promoção social, independente do poder político e de forças maléficas como o tráfico", explica Isabelle, coordenadora administrativa da MSF no Estado. Desde os 15 anos, ela sonhava - sem qualquer motivação religiosa - fazer trabalhos sociais na África.

"Fui para Ruanda, em 1995, e fiquei impressionada com a capacidade das pessoas de deixarem para trás o negativo para reconstruírem o país depois daquelas terríveis chacinas", lembra a geógrafa, especialista no gerenciamento de projetos de cooperação. Isabelle chegou ao Rio no inicio de 1998. "Aqui, o que mais me chocou foi a combinação entre a desigualdade social e o esforço que as pessoas fazem para esquecer essa realidade. Acho que é importante tentar levar uma vida normal. Mas é preciso lutar para não esquecer as situações de pobreza e violência", afirma.

A manutenção de Médicos Sem Fronteiras vem de pessoas físicas e jurídicas. Contatos podem ser feitos pelo telefone (0xx)-21-516-7381

Historia de solidariedade

  • De 1967 a 1970, um grupo de médicos atuou em Biafra, sudeste da Nigéria, onde cerca de 1 milhão de pessoas morreram em conseqüência da fome.
  • 1971: Membros do grupo fundam Médicos Sem Fronteiras.
  • 1972: Socorro a vítima de terremoto em Manágua, na Nicarágua.
  • 1974: Ajuda depois de um furacão em Honduras.
  • 1975: Assistência em campos de refugiados na Tailândia.
  • 1976: Presença durante a guerra do Líbano.
  • 1991: Combate à cólera em tribos da Amazônia.
  • 1992: Ação contra a malária em Roraima.
  • 1993: trabalho com meninos de rua no Rio de Janeiro.
  • 1994: Os MSF chegam a Vigário Geral, depois da chacina.
  • 1998: Retirada polêmica da Coréia do Norte, depois de acusar o governo de desviar recursos humanitários vindos do exterior.
  • 1999: A organização recebe o Prêmio Nobel da Paz (US$ 980mil). Comovido Bernard Koucher, um dos fundadores - hoje trabalhando pela ONU, em Kosovo- lembrou os milhares de pessoas que morreram mundo afora sem socorro médico.

O presidente do Conselho Internacional da MSF, James Orbinskyele, disse que o Nobel è também um reconhecimento à independência da ONG em relação aos poderes locais - militares, políticos, econômicos, religiosos ou de outra natureza.

Médicos Sem Fronteiras

  • Contam com 55profissionais
  • Atingem cerca de 200 mil pessoas em 22 comunidades
  • Dispõem de 65 médicos voluntários, que reservam horários para atendimento gratuito
  • Fazem atendimentos a famílias recolhidas nas ruas, pontes e viadutos da cidade e assentados no conjunto habitacional Portus, da prefeitura, no bairro de Costa Barros
  • Desenvolvem programas de prevenção a Aids

O projeto Mogec

O Movimento Organizado de Gestão Comunitária (Mogec), em Vigário Geral tem apoio dos Médicos Sem fronteiras e conta com:

  • 40 membros ativos;
  • posto de saúde com 3,5 mil atendimentos mensais;
  • alfabetização de idosos (14 pessoas)
  • Atendimento a 200 deficientes físicos;
  • reforço escolar para 25 crianças;
  • biblioteca popular;
  • alimentação econômica: 200 pessoas recebem e aprendem a fazer mistura com cascas de ovo, farelo de trigo, semente de abóbora e folha de mandioca.

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