| Pena de Morte: Assassinato legalizado
Eric Prokosch
Cinqüenta anos depois da proclamação da Declaração
Universal dos Direitos Humanos, a tendência à abolição
da pena de morte é inegável. Quando a declaração
foi assinada, em 1948, oito países já tinham abolido a pena
de morte para todos os crimes; hoje, o número subiu para 64. Na
realidade, incluindo os países que, de fato, aboliram a pena de
morte porque não a aplicam há mais de 10 anos, o total chega
a 103. O número dos países contrários é agora
superior ao dos favoráveis (91) e a tendência é aumentar.
Contra os direitos humanos
Essa tendência é evidente sobretudo na Europa. A Assembléia
Parlamentar do Conselho da Europa exige agora, como requisito para ser
admitido na Comunidade Européia, o compromisso de abolir a pena
capital. A Comissão de Direitos Humanos das Nações
Unidas pediu aos Países que ainda mantêm a pena de morte
que "considerem a possibilidade de suspender as execuções
na intenção de se chegou a aboli-la completamente. Apesar
disso, há quem continue pedindo que se utilize ou se amplie a pena
de morte, muitas vezes como resposta às preocupações
da opinião pública diante dos altos índices de delinqüência.
Isso explica o aumento da pena de morte nos últimos anos, sobretudo
em alguns países: China (85% do total), Ucrânia, Rússia
e Irã. Nos Estados Unidos, em 1997, foi atingido um trágico
recorde: 74 execuções, o número mais alto desde que
essa punição foi reintroduzida em 1976.
A Anistia Internacional opõe-se à pena de morte, porque
a considera uma violação dos direitos humanos fundamentais:
o direito à vida e o direito a não ser submetido a penas
cruéis, desumanas e degradantes. Ambos aparecem reconhecidos na
Declaração Universal dos Direitos Humanos, nas leis e constituições
nacionais.
A pena de morte não pode ser considerada um ato de defesa frente
a uma ameaça iminente contra a vida. A pena capital consiste no
homicídio premeditado de um preso com o objetivo de castigá-lo.
A questão é que essa finalidade pode ser alcançada
por outros meios.
Crueldade
A crueldade da tortura é evidente. Como a tortura, uma execução
supõe uma agressão física e mental extrema contra
uma pessoa que se encontra indefesa em poder de autoridades públicas.
A crueldade da pena de morte fica evidente não só na execução
em si, mas também no tempo que um prisioneiro fica esperando antes
de ser executado, pensando continuamente em sua morte. Essa crueldade
é injustificável, por mais cruel que tenha sido o crime
pelo qual o preso foi condenado.
Se é intolerável que se causem a um preso danos físicos
e mentais graves ao submetê-lo a descargas elétricas ou a
simulação da execução, come se pode tolerar
que as autoridades de um Estado ataquem não só o corpo e
a mente de um prisioneiro, mas sua própria vida?
Ameaçar um preso de matá-lo é uma das formas mais
terríveis de tortura e, como tal, é proibida. Como se pode
então considerar tolerável submeter uma pessoa às
mesmas ameaças em forma de condenação à morte,
emitida por um tribunal de justiça e executada pelas autoridades
penitenciárias?
A crueldade da pena de morte vai além do condenado e alcança
sua família, os funcionários da prisão e os encarregados
a executar a sentença. Informações provenientes de
diversas partes do mundo demonstram que o carrasco pode ser extremamente
afetado por sua função e até sofrer traumas. Os juizes,
os fiscais e outros funcionários também podem se encontrar
diante de difíceis dilemas morais, se o papel que devem desempenhar,
administrando a pena de morte, entra em conflito com suas convicções
éticas. O direito à vida e o direito a não ser submetido
a penas cruéis, desumanas ou degradantes são os dois pontos
mais citados nos debates sobre a pena de morte. Todavia, não são
os únicos direitos contra os quais a pena capital atenta.
Inocentes condenados
Como indicam os dados anuais do Relator Especial da ONU sobre execuções
extrajudiciais, sumárias e arbitrárias e conforme a própria
Anistia Internacional, em muitos casos, os presos são condenados
à morte em julgamentos que não respeitam as normas internacionais
que exigem certas garantias. Muitas vezes, os presos são representados
por advogados sem experiência e há casos em que nem podem
contar com um advogado. Acontece que os acusados não compreendem
as imputações de que são acusados ou as provas apresentadas
contra eles, especialmente os que não estão familiarizados
com a linguagem utilizada nos tribunais. Não raro, os serviços
de tradução e interpretação de documentos
judiciais são inadequados e há presos que não podem
exercer seu direito a apelar para um tribunal de instância superior
ou pedir o indulto ou a comutação da condenação
à morte. Em algumas jurisdições, os casos de pena
capital são estudados por tribunais especiais ou militares, que
seguem procedimentos sumários. Essas práticas minam o direito
a um julgamento justo e violam normas reconhecidas pelos instrumentos
internacionais de direitos humanos. Tudo isso assume conotações
muito graves, se pensarmos nos casos de condenação de inocentes.
Nos Estados Unidos, pelo menos 350 pessoas condenadas à morte,
entre 1900 e 1985, eram inocentes: a maioria delas conseguiu, em um segundo
momento, evitar a execução, mas para 25 a inocência
foi demonstrada tarde demais. Também quem conseguiu escapar da
morte fica inevitavelmente marcado por uma experiência tão
dramática, porque antes de se chegar a uma revisão da sentença,
são necessários muitos anos, transcorridos no "corredor
da morte", com inimagináveis conseqüências físicas,
psicológicas e morais. A Anistia Internacional relata casos incríveis
como o de um homem no Japão, condenado à morte em 1950 e
liberado, depois de reconhecido inocente, em 1983.
Com freqüência, a pena de morte é aplicada de maneira
discriminatória a membros de grupos sociais desfavorecidos. O caso
mais conhecido é o dos Estados Unidos: de 1976 a 1996, 112 negros
foram executados, acusados de ter matado um branco, enquanto só
seis brancos foram executados por terem assassinado um negro.
Muitas vezes se defende a pena de morte como técnica de dissuasão:
é necessário matar o criminoso para dissuadir outras pessoas
de cometerem o mesmo tipo de delito. Mas um estudo encomendado pela ONU
afirma que não existe "nenhuma prova científica de
que as execuções tenham um efeito de dissuasão maior
em relação à prisão perpétua e é
provável que nunca se chegue a esta prova". Países
que mantêm a pena de morte têm porcentagens de crimes tendencialmente
superiores às dos países que a aboliram. No Canadá,
o índice de homicídios diminuiu de 27%, em 1993, em relação
a 1975, ano em que ainda vigorava a pena de morte.
Para que a cultura da vida possa vencer a cultura da morte, vários
organismos em nível internacional estão promovendo campanhas
de abolição da pena de morte. Publicamos ao lado a iniciativa
da Comunidade de Santo Egídio, convidando nossos leitores a dar
sua adesão e a envolver muitas outras pessoas.
De Anistia Internacional. Tirado de "Misión sin fronteras".
Tradução e adaptação de Costanzo Donegana
MORATÓRIA DA PENA DE MORTE
Queremos que o novo milênio comece bem para os cristãos,
que se preparam a viver intensamente o Ano Santo e para todos os homens,
que sonham com uma nova era de paz e de progresso. Por isso, lançamos
uma campanha de humanidade e de civilização: pedimos, para
o ano 2000, uma Moratória da Pena de Morte.
Acreditamos profundamente na necessidade de que as execuções
capitais sejam abolidas de maneira definitiva, mas, enquanto esperamos
que esse objetivo seja alcançado, propomos sua suspensão.
Dirigimo-nos a quem já acredita nesta batalha, para que sua opinião
não fique isolada. Mas também queremos falar a quem não
pensa como nós ou está ainda indeciso; na dúvida
una-se a nós, peça também você a moratória
da pena de morte, a partir do ano 2000. Por enquanto, trata-se somente
de um "cessar o fogo", mas ajudará a refletir, a abrir
um debate sobre uma prática que, também para o mais convicto
defensor da sua necessidade, não pode ser aceita levianamente.
Como Comunidade de Santo Egídio, junto com a ir. Helen Prejean
(que se tornou conhecida em todo o mundo pelo filme "Os últimos
passos de um homem"), já começamos a recolher milhares
de assinaturas ao nosso apelo, na Itália, nos Estados Unidos, no
Brasil, em todos os continentes. Queremos que se tornem milhões,
para que "pesem" mais, quando formos apresentá-las nas
sedes institucionais mais representativas, em primeiro lugar na ONU, ao
secretários geral, Kofi Annan. As assinaturas, na realidade, irão
se transformar numa proposta de moratória a todas as nações
representadas no Palácio de vidro. O objetivo é ambicioso,
mas possível. Trabalhará conosco a Anistia Internacional
e outras importantes organizações leigas e religiosas. Mas
- e isso é importante - a iniciativa já tem a simpatia e
a vontade de se engajar de milhares de cidadãos.
Noventa e um países continuam a praticar a pena de morte. Outros
101, ao contrário, já aboliram (por lei ou, pelo menos,
de fato). É uma conquista importante: hoje, pela primeira vez na
história da humanidade, em mais da metade das nações
da terra, não se assiste mais a execuções capitais.
Sabemos, porém, que esta horrível pena ainda é mantida
em países importantes e muito representativos. Vamos, portanto,
promover toda iniciativa para abrir um diálogo que leve à
moratória.
Estamos conscientes de que, neste mundo, a violência tem raízes
profundas e que, para vencê-la, não será suficiente
abolir a pena de morte. Mas é necessário começar
por esta batalha. É um primeiro passo importante: o Estado não
pode tirar a vida, qualquer que seja sua motivação (...).
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