| O sonho do perdão da dívida
Ann Pettifor
Diretora da Coalizão Jubilee 2000
Dois obstinados idealistas, uma ativista "visionária",
uma mulher enérgica e um escritório em um sótão
de Londres. Jubilee 2000 começou assim
O movimento internacional Jubilee 2000 começou de uma idéia
de Martin Dent. Era o ano de 1990. Martin teve a intuição
de ligar ao novo milênio e ao jubileu as iniciativas para o cancelamento
da dívida impagável, na linha da tradição
bíblica. Logo que Martin começou a falar da sua idéia
de remissão da dívida, encontrou Bill Peters, um diplomata
aposentado, que compartilhou o projeto e o apoiou.
Os inícios
Alguns anos antes, em 1982, Ed Mayo, ativista de uma Ong inglesa, o World
Development Movement, criara uma campanha para o cancelamento da dívida,
o Debt Crisis Network, porém, tinha encontrado sérias dificuldades
na coordenação das atividades.
Em 1994 o Debt Crisis Network procurou uma pessoa a quem confiar a tarefa
de fazer pressão sobre o Banco Mundial e o Fundo Monetário
Internacional e sobre os ministros das finanças do G7, para obter
o cancelamento da dívida dos países mais pobres. Apresentei-me
para aquele cargo e obtive o emprego. Decidimos organizar uma campanha
de alcance internacional. Comecei a trabalhar. Naqueles dias, o organismo
caritativo da Igreja católica inglesa me propôs que organizasse
um encontro com o arcebispo de Westminster, o card. George Basil Hume.
Foi assim que ele tornou-se o promotor de um evento excepcional, para
o qual foram convidadas personalidades de diversas proveniências:
líderes africanos que se encontravam naquele momento na Inglaterra,
o arcebispo anglicano da África Central, Makhulu, vários
bispos católicos latino-americanos, políticos, parlamentares,
especialistas em economia e finanças. Estava presente também
o então presidente do FMI, Michael Camdessus, convidado pelo card.
Hume. O encontro determinou uma mudança de rumo na maneira de considerar
a remissão da dívida por parte dos organismos financeiros
internacionais.
A "visionária"
No dia seguinte, um amigo conseguiu que eu me encontrasse com Isabel
Carter, do Tearfund, uma agência humanitária da Igreja evangélica.
Ela me disse que tivera uma visão divina na qual lhe foi ordenado
que trabalhasse pelo jubileu de 2000. Eu não dei muito crédito
à notícia e respondi que precisávamos de dinheiro,
de um escritório e do status jurídico de entidade sem fins
lucrativos. Nos dias que se seguiram, acabei me esquecendo dela.
Algumas semanas depois, ela voltou. Tinha conseguido um financiamento
de 30 mil libras (correspondentes, na época, a 70 mil reais), convencera
o responsável da Christian Aid a conceder-nos como escritório
um local num sótão. Além disso, conseguira obter
para a campanha o status de entidade no-profit. A partir daquele momento,
passei a levar muito a sério as visões de Isabel Carter.
Iniciamos a Campanha Jubilee 2000 com três pessoas, mas, em pouco
tempo, com a ajuda do Tearfund, começaram a chegar os recursos
e as adesões à Campanha, que levantou vôo.
O eco da Campanha foi fenomenal. Imediatamente, as agências humanitárias
compreenderam que se tratava de uma iniciativa à qual não
podiam não aderir. Em 1997, nasceu a Coalizão, da qual começaram
a fazer parte os sindicatos, os representantes das várias Igrejas
e religiões, as agências humanitárias, as organizações
femininas e as associações pelos direitos humanos. Fui eleita
diretora. A Campanha difundiu-se pelo mundo todo, graças sobretudo
ao trabalho dos institutos missionários católicos e de seus
grupos de apoio. Agora há Coalizões Jubilee 2000 em 60 países;
nossa ação é sustentada por um número imenso
de pessoas. Apesar das muitas diversidades, um profundo espírito
ecumênico nos une. Na Irlanda do Norte, por exemplo, a Campanha
é sustentada por protestantes e católicos juntos. Em muitos
países, tornou-se elemento de unificação das diferentes
forças sociais decepcionadas, em muitos casos, pelos partidos e
pela política.
Mudanças
Nos países ricos do Ocidente, a Campanha contribuiu para colocar
as necessidades dos países mais pobres nos primeiros lugares da
agenda política dos principais líderes. Conseguimos este
resultado, apesar de que muitos, hoje, falem em "cansaço e
insensibilidade" em relação às ações
humanitárias. Experimentamos que no mundo há ainda pessoas
que antepõem os valores humanos ao dinheiro.
O mais importante, todavia, é que a Campanha teve um importante
impacto sobre as decisões dos principais líderes do mundo.
Em junho de 1998, 70 mil pessoas formaram uma corrente humana por ocasião
da reunião de cúpula dos G7 em Birmingham, Inglaterra, pedindo
a remissão da dívida dos países pobres. Em junho
de 1999, em Colônia, Alemanha, 30 mil pessoas fizeram manifestações
pelo mesmo objetivo. Naquela oportunidade, os mais importantes países
credores prometeram o cancelamento de 100 bilhões de dólares
de dívidas.
Em setembro de 1999, chefiei uma delegação de pop stars,
economistas e ativistas pelos direitos humanos que queriam falar com João
Paulo II. O papa, que nos recebeu na residência de verão
em Castelgandolfo, lançou um apelo urgente aos líderes da
terra, para que agissem com urgência, deplorando sua lentidão
em pôr em prática as políticas de cancelamento da
dívida. Em conseqüência daquela tomada de posição,
Estados Unidos, Inglaterra, Canadá e França prometeram cancelar
100% das dívidas que os 25 países mais pobres têm
com eles.
Ainda falta muita coisa para fazer. Os 52 países mais pobres do
mundo têm uma dívida total de 356 bilhões de dólares.
Conforme as estatísticas da ONU, cada dia morrem 19 mil crianças,
porque os países mais pobres não têm recursos para
providenciar água limpa, alimentação e assistência
sanitária. Estes recursos, no entanto, são usados para pagar
as dívidas contraídas com os países ricos. Apesar
das promessas dos governos do G7, ainda se fez muito pouco e muito devagar.
Temos só sete meses para alcançar o objetivo da nossa Campanha:
o cancelamento da dívida impagável até o fim de 2000.
Vendo os resultados obtidos em quatro anos, acreditamos que podemos conseguir.
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