Revista "MUNDO e MISSÃO

Leigos


ornéu é a terceira maior ilha do mundo (depois da Groenlândia e Papua-Nova Guiné), com apenas 15 milhões de habitantes. Um paraíso de natureza virgem, onde se podem percorrer, em jipe, trilhas entre florestas seculares, e ver orangotangos, o elefante asiático, panteras e leopardos e bandos de pássaros multicores. As águas límpidas das praias, ainda intactas, guardam coloridos bancos de corais. Da ilha, quase só a costa é habitada; parte do interior é inexplorada: aí moram os dayaks, nativos que saem da pré-história e entram no mundo moderno.

Nesse país, nasce uma Igreja como a dos Atos dos Apóstolos. Há cinco dioceses em Bornéu malaio (o norte e o noroeste da ilha pertencem à Malásia; o restante, à Indonésia). Por toda parte, comunidades jovens têm o crescimento freado pela falta de padres e de freiras: os cristãos são recém-convertidos, mas o governo proíbe a entrada de missionários.

Dom Christopher Laden, bispo de Kuching (capital do estado de Sarawak) explica porque os dayaks se convertem:

“Os dayaks acreditam em um Deus criador, mas não sabem quem Ele é, se é bom ou mau, se nos ama ou se não liga para nós. Acham que nada há depois da morte. O cristianismo lhes dá esta esperança. Outro motivo é sociológico: convertendo-se, participam de uma comunidade fraterna, pois a antiga comunidade tribal está desaparecendo. Refutam o islã, que está distante de sua cultura e não combina com as crenças locais”. A diocese de Kuching abriga 150 mil católicos, apenas 25 padres e 10 paróquias, 5 delas na cidade.

A paróquia de Serian, muito extensa, tem 36 mil católicos, 3 padres e perto de 80 capelas. Seu pároco, James Meehan, missionário escocês, diz que 500 adultos são batizados anualmente. E esclarece: “Catequistas e leigos de vários movimentos fazem tudo”. O pároco de Bunan Gega, John Chung, batiza 500 crianças por ano; 200 são filhas de católicos e 300, de adultos convertidos. Ele e o coadjutor dão assistência a umas 50 capelas. Toda vila tem capela. Os muçulmanos são poucos. Os nativos optam pelo cristianismo, diz John Chung, porque “percebem que a vida pessoal, familiar e comunitária se modifica”.

O bispo de Kota Kinabalu (capital do estado de Sabah), dom John Lee, diz:

“É uma bela diocese a minha. A maioria dos católicos é nativa e jovem. Quando vejo fervorosos e alegres grupos juvenis, agradeço ao Senhor: temos a grande responsabilidade de educar essa gente. Mas, como fazer se não há padres? Hoje, as vocações vêm das tribos. Antigamente, vinham das famílias chinesas, mas estas diminuíram porque a riqueza reduziu-lhes o número de filhos. A diocese organiza encontros de jovens, mas isso é insuficiente. Não se pode contar com a escola para a educação da fé e não temos pessoas para orientar os jovens”.

A diocese conta com o trabalho pastoral de 26 sacerdotes para 220 mil fiéis e quase 4000 batismos ao ano; a metade, de adultos. Os dayaks convertidos à Igreja católica (e ao protestantismo) formam um movimento de massa; só não são melhor acolhidos por falta de padres, irmãs, catequistas e condições econômicas. Em Bornéu acontece como em outros lugares: se a Igreja não acolhe adequadamente os dayaks, eles abandonam as crenças tradicionais e se adaptam ao modelo moderno de vida, praticamente ateu.

Em Keningau, dom Cornelius Piong observa: “Minha diocese tem 12 padres e 10 seminaristas para mais de 90 mil católicos. Cerca de 1500 adultos são batizados anualmente. Leigos e comunidades eclesiais de base catequizam, preparam ao batismo, através da palavra e do exemplo, e se empenham no serviço paroquial. Aqui, os cristãos evangelizam, convertem nativos e chineses, constroem igrejas, edifícios religiosos e assistenciais”.

E acrescenta: “É um modo para socializar e criar sentido de pertença à Igreja. As comunidades de base são formadas por oito/dez famílias, cujo centro é Jesus Cristo. Elas têm dois objetivos: formação e testemunho de vida cristã. Isto é também missão, porque as conversões acontecem do relacionamento pessoa/pessoa. Elas estudam e discutem a maneira de levar Cristo à vida da família e da sociedade”. A ilha de Labuan tem 100 mil habitantes, dos quais cinco mil são católicos nativos.

E apenas um padre de 77 anos, com 200 batizados de adultos por ano, quase todos de origem chinesa. De doze a treze mil católicos filipinos, imigrados legal ou ilegalmente, estão privados de assistência religiosa. Aos domingos, o pároco Aloysius Tung celebra cinco Missas, em inglês, malês e chinês, mas diz que seriam necessárias umas doze, em várias partes da ilha, para possibilitar a participação de todos os batizados. Sua paróquia está confiada a leigos, cujo entusiasmo comove e assombra. Até 2001, Labuan não tinha pároco.

Tinha um padre de Kota Kinabalu para celebrar Missa, a cada 15 dias. Assim, nasceu um forte movimento leigo. Hoje, a paróquia tem conselho pastoral formado por 15 leigos. Está organizada em comunidades eclesiais de base, uma prioridade pastoral da Igreja Malaia. Existem muitos grupos e movimentos leigos: Associação Catequética Paroquial, Legião de Maria, Divine Mercy (que visitam os doentes e ajudam os pobres), Movimento Carismático, Labuan Youth Moviment, Catholic Women‘s League, The Golden Age Group (assistem aos anciãos), etc.

“Os católicos – diz padre Tung – são entusiastas da fé, fazem-se voluntários para servir a Igreja, aceitam ministérios e serviços. Dar uma parte do próprio dinheiro e do próprio tempo à paróquia entrou na vida cristã como um hábito do qual não renunciam”.

Padre William Sabang, vigário-geral da diocese de Kuching e reitor do seminário, explica: “Como os padres são poucos, os nossos cristãos são muito organizados e provêem as necessidades da comunidade: grupos de oração, catequese, catecumenato, administração, caridade, construções e reformas nas instalações, etc. Além do mais, animados pelo espírito missionário, levam a Palavra de Deus, anunciam Jesus Cristo e o Evangelho, convidam a participar da comunidade, etc. Cada paróquia batiza centenas de adultos todo ano, por iniciativa dos cristãos e não do padre, por falta de tempo para trazer os não-cristãos.

Voltando à Itália, fiquei pasmo ao ver como os cristãos lamentam-se da Igreja, mas pouco fazem para evangelizar; não tomam iniciativas, esperam tudo do padre ou da autoridade eclesiástica. Creio que nossos cristãos são mais ativos e fervorosos pelo seguinte: em geral, são recém-convertidos, poucos vêm de famílias católicas de duas/três gerações. Portanto, eles experimentam na própria vida a revolução positiva trazida por Cristo na família e na comunidade onde vivem. Não são instruídos na fé como os europeus; ainda não houve tempo para serem educados e formados.

Porém, têm a vantagem de sentir a diferença de viver com ou sem Cristo. Isto os faz entusiastas pela fé e prontos a qualquer sacrifício pela Igreja”.

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