Revista "MUNDO e MISSÃO

Leigos

Desclericalizar
a missão

Pe. Costanzo Donegana

Para ser missionário não é necessário ser padre ou freira.
O cristão leigo, pela força do batismo, é chamado a testemunhar e anunciar
a novidade do Evangelho a todos os povos e culturas. É uma missão fora
das sacristias, nas oficinas, nas aldeias, com a esposa e os filhos,
em ambientes onde mais dificilmente o sacerdote entra.
O Pime, atualmente, oferece aos leigos e leigas três formas de atuação
na missão além-fronteiras, por toda a vida ou por um período determinado.
É uma variedade de ação missionária que enriquece o rosto da Igreja evangelizadora.

Por toda a vida

Eram chamados de "irmãos", uma palavra muito rica, do ponto de vista humano e evangélico, que, porém, historicamente, tinha-se carregado de significados e experiências negativas. O irmão, muitas vezes, era quem não tinha as capacidades intelectuais para enfrentar os estudos teológicos e que, nas comunidades, estavam em condições de inferioridade em relação aos padres, prestando os serviços mais humildes. Nem sempre, na realidade, era assim: houve irmãos protagonistas da missão, na criatividade e na santidade.

Agora prefere-se chamá-los de "missionários leigos", uma expressão, talvez, um pouco genérica, porque pode incluir todo tipo de leigo que se dedica às missões: porém, talvez seja ainda a melhor definição. Mudou o nome, mas não a realidade; o primeiro "irmão", José Corti, entro no Instituto das Missões de Milão para dedicar toda a vida as missões entre ao "infiéis", como se dizia. Também os missionários leigos atuais escolhem o Pime para servir à missão além-fronteiras por toda a vida. É uma escolha radical pelo evangelho, no seguimento de Cristo, missionário do Pai, que precede qualquer modo de realização concreta. O missionário sacerdote, entrega toda a sua vida e sua capacidades a serviço dos outros, preferencialmente entre os povos, onde o anúncio de Cristo ainda não chegou ou a presença da comunidade cristã está começando. É isso que o distingue dos voluntários das ONGs e dos técnicos dos organismos internacionais.

Trabalhador

A escolha por toda a vida lhe permite ser uma presença que um voluntário dificilmente pode oferecer, porque tempos muito longos ou uma preparação especifica e também um trabalho em situações ambientais e geográficas particulares. Existem âmbitos, por exemplo as nações islâmicas, onde um sacerdote poderia ser vetado o acesso ou, em todo caso, seu apostolado especifico seria impossível. Ao missionário leigo, ao contrario, abre-se um porta também ali.

Ele é, portanto, evangelizador, mas com uma característica típica: o testemunho através do trabalho, como fazem todos os homens. É uma presença, uma partilha de vida, que aproxima concretamente os outros do Evangelho, não por um anúncio explicito, em primeiro lugar (embora não seja excluído e, ás vezes, até necessário), mas pelo encontro pessoal. Nessa linha, há também algumas experiências de partilha inter-religiosa, sobre tudo em ambiente mulçumano, em Bangladesh e na Republica dos Camarões.

Essa presença leiga contribui para dar sentido cristão às realidades terrenas, através da ação e do compromisso pessoal. Assim, concretamente, os missionários leigos demonstram que se pode fazer missão no sentido pleno, sem copiar o papel do padre. Conforme a linha de abertura internacional para as vocações que o Pime se deu em 1989, atualmente há nove jovens em formação como missionários leigos; deles, quatro são italianos e cinco de outros países (dois Bangladesh, um Índia, um Papua Nova Guiné e um Vietnamita refugiado nos Estados Unidos).

O FERREIRO DE DEUS

Pe. Paulo Noé

O irmão Félix Tantardini morre e se apresenta a São Pedro para ser admitido entre os santos.

- Quem é ?
- Sou o ferreiro de Deus!
- Ferreiro? Aqui não precisamos de ferreiro. Vá embora!
- Mas eu fui ferreiro por mais de sessenta anos na Birmânia e acho que tenho direito...
- Daqui eu não saio. Tenho as credenciais em ordem. Abra!
Nossa senhora ouve Pedro e o ir. Félix gritando e sai para ver o que está acontecendo.
- Nossa Senhora, olhe, São Pedro não quer me admitir entre os santos.
- Mostre-me seus papéis.

Fora dos muros do Paraíso, está reunida uma multidão de maltrapilhos. São Pedro grita e ameaça. Nossa Senhora intervém e coloca sua assinatura em cada carteira de identidade ... e são Pedro tem que abrir.

Naquele instante, o ir. Félix, que ainda não tinha entrado no Paraíso, acorda e comenta: " Agora eu estava entrando no Paraíso, acordei! Mas entendi que a história do "ferreiro de Deus" vale pouco, se falta todo o resto".

Mas o resto ele tinha em abundancia porque o consegui em 69anos que passou na Birmânia (1922-1991). Era ferreiro, mas sabia fazer tudo: marceneiro, construtor, agricultor, trabalhava 10-12 horas por dia, mas para os outros respeitava os horários. Era pequeno, mas possuía uma força incrível: dobrava com as mãos barras de ferro! Falava bem inglês, conhecia o birmanês e alguns dialetos locais. Logo que chegou à missão. O bispo lhe disse: "Você é um irmão, veio aqui para trabalhar". E ele suava da manhã até a noite, não tinha tempo para as línguas. Então começou, à noite, com o inglês. Morto de cansaço, pegava o dicionário e um caderninho e escrevia as palavras que tinha ouvido durante o dia. Tinha uma memória formidável. Assim aprendeu os idiomas, com constância e método, um pouco a cada dia.

Sentia-se cem por cento missionário: pregava nos dialetos locais, nas aldeias,nos domingos e, à noite, nas capelas, também depois de trabalho extenuante. A isso deve-se acrescentar sua compaixão pelas crianças, pelos doentes e os pobres. Para si não gastava nada, só o do fumo da pior qualidade para o inseparável cachimbo; tudo era para os pobres. Poe eles, passava horas dos domingos escrevendo cartas aos amigos italianos que o ajudavam generosamente.

Era apaixonado por Nossa Senhora: todo dia rezava um rosário inteiro. Todo dia rezava um rosário inteiro. Quando, aos 85 anos, quase cego, o bispo lhe ordenou: "Agora não trabalhará mais; seu trabalho agora é rezar", obedeceu ao ponto de passar praticamente o dia em oração. Assim, em vez de um rezava quinze ou vinte rosários.

O maior problema dos seus coirmãos era encontrar algum defeito nele: o principal era a impaciência; na verdade, um do desejo de não perder tempo para ser útil aos outros.
Quando morreu, aos 93 anos, o sonho do irmão Félix tornou-se realidade: entrou no Paraíso com seus amigos pobres.

Em busca de Deus

Roberto Beretta

Sua paixão é o trem, embora nunca tenha sido ferroviário. Ele conta que, quando vivia em Burkina Fasso, na África, morando numa casa a cem metros da ferrovia, o máximo da festa para os hospedes era leva-los a contemplar a passagem de um dos raríssimos trens. Ottorino, na realidade era, é filho de camponeses e, desde criança, trabalhou com a família nos campos; aos 16 anos, passou para a fabrica. Um tempo depois aconteceu um encontro fortuito com um missionário da Índia, que ascendeu seu entusiasmo já despertado para uma vocação de doação total. Aos vinte anos, entrou no Pime, na casa de formação dos missionários leigos. Enfrentou coma coragem dos camponês a formação unindo a dimensão espiritual e comunitária ao curso de agronomia, numa cidade a 50 quilômetros de distancia.

Oito anos depois partia para África, rumo a Costa do Marfim, para encaminhar, com outros missionários leigos e alguns voluntários, um centro agrícola para os jovens do local. Mas se questionava : "A experiência fora positiva, porém tinha a sensação de não estar no trilho certo. Sobretudo, tinha-me faltado o tempo para pensar: com o projeto já iniciado, tive que ser locomotiva, sem o tempo para olhar ao redor e entender, sem tampouco falar o idioma local. No final, percebi que mal conhecia as pessoas que viviam comigo e me perguntava se a técnica que ensinavam teria se transformado numa chance realmente útil para sua vida". Aproveitando algumas mudanças ocorridas no centro, Ottorino recuperou sua liberdade. Na missão do Pime em Brobo, passou a fazer uma experiência totalmente diferente: começou a estudar a língua baulé e visitava de bicicleta as aldeias onde, com a ajuda dos jovens formados no centro agrícola, traçava pequenos projetos agrários, trabalhando na enxada com as pessoas.

Isso durou pouco, poruqe, algum tempo depois, Ottorino foi chamado a trabalhar num novo centro agrícola mais ligado às realidades de base, em Bobo Dioulasso, Brukina Fasso. Vivia numa ladeia e vinte quilômetros da cidade e, inicialmente, dividia o tempo entre conversas com um ancião catequista, para aprender o bambara, e as visitas nas aldeias para conhecer as famílias. Na região, os cristãos eram pouquíssimos, a maioria é animista, com exceção dos nômades peul, que são mulçumanos. No centro, com outros voluntários, além da formação de um grupo de jovens camponeses, cuida da criação de células cooperativas para sustentar os jovens que voltavam para sua casa; ao mesmo tempo, levava para frente uma atividade de formação agrícola numa ladeia mulçumana.

Inquietação

Mas Ottorino tinha no profundo do coração uma inquietação: sentia-se fortemente atraído para uma vida pobre e contemplativa no meio do mundo mulçumano. Ele mesmo conta: "Fazia tempo que desejava conhecer pessoalmente a experiência dos Pequenos irmãos, a congregação fundada por Charles de Foucauld, que se caracteriza pela presença contemplativa e silenciosa até nos contextos islâmicos mais impenetráveis. Em um mês de viagem através do deserto, em ônibus esculhambados ou a pé, cheguei a Tamanrasset, lugar do martírio do ir. Charles; ali fiquei 20 dias. Continuei depois por outros 2.300km até Argel, onde fiquei por alguns meses numa comunidade de Pequenos irmãos - os únicos cristãos entre milhares de mulçumanos-, trabalhando , rezando, partilhando a vida do povo". Ottorino continuou a convivência com outra comunidade dos Pequenos irmãos na República dos Camarões por mais nove meses, trabalhando no campo com alguns jovens.

Depois de um breve período no Chade, Ottorino voltou para a República dos Camarões, no norte, entre mulçumanos e animistas, inserindo-se plenamente na comunidade do Pime. Atualmente, desenvolve um trabalho de educação de base num centro agrícola da missão, testando novas culturas e métodos de cultivo e levando ao campo aqueles que deram resultados satisfatórios. É interessante ver alguns jovens que freqüentam o ensino médio com a ajuda da missão e que, à tarde, trabalham com Ottorino no centro; com isso aprendendo algo sobre os métodos de cultivo e contribuem para pagar parte de seus estudos. O "inquietante" Ottorino sente-se assim plenamente leigo e missionário: trabalhando pobremente com suas mãos, mergulhando num contexto não cristão onde pode dialogar e testemunhar sua fé, alimentando pela contemplação do Deus vivo.

Mulheres pela missão

No final dos anos oitenta, um grupo de garotas começou a questionar-se a respeito da missão e , com a ajuda do então vigário geral do Pime, pe. Franco Cagnasso ( agora superior geral), estenderam as linhas fundamentais da "Comunidade Missionária Leigas" (CML): "As missionárias leigas da CML desejam responder ao Senhor que as chama a doar toda a vida para a missão além -fronteiras, como leigas enviadas pela Igreja para serem testemunho e anúncio da salvação de Cristo em toda realidade".

Neste texto aparecem três elementos que costumamos chamar de pilares da comunidade. Temos também um quarto pilar, que é a vida em comunidade, que reconhecemos, que reconhecemos importante para nossa formação e para nossa vida em missão. É o lugar onde crescemos humana e espiritualmente e é sinal de comunhão fraterna.

O caminho de formação é dividido em três etapas: formação inicial, formação em missão e terceira etapa antes de partir para a missão. Cada uma dessas etapas tem a duração de dois ano, mas há flexibilidade de acordo com o caminho de cada uma.

A CML, pela afinidade de vocações e carisma, é associada ao Pime durante o período de formação, para um acompanhamento espiritual-missionário e colabora com sua atividades na Itália. Na Missão, pode trabalhar de preferência com o Pime.

No Brasil, há atualmente algumas moças orientadas para uma experiência do tipo da CML, sem que até agora haja nada definido. Também este grupo é acompanhado pelo Pime.

Camboja

Em novembro de 1996, abriram-se as portas da missão para a CML no Camboja. Atualmente, somos duas: Cristina Togni (que chegou em 1996) e eu, Miriângela (que cheguei em setembro de 2000). Uma terceira garota se unirá antes do fim deste ano.

No Camboja, a CML está envolvida com o projeto "New Humanity", ONG instituída pelo Pime em 1991 (na época, era única forma de ficar no país), que atinge alguns vilarejos não muito distantes da capital . A comunidade do Pime hoje no Camboja é composta por três sacerdotes; um quarto é esperado antes do final do ano.

Cristina colabora com as comunidades cristãs que pedem a "New Humanity" a possibilidade de oferecer cursos específicos no âmbito rural, sanitário e alfabetização de adulto. Ela, com os responsáveis das comunidades, programa as intervenções, acompanha as fases operativas ao lado de operadores locais preparados. Além disso, segue também um grupo de viúvas do "Projeto de serviço social comunitário".

Por que escolhemos o Camboja? Muitos fatores se entrelaçam. A história e a fisionomia deste país nos havia tocado profundamente: feridas históricas que condicionam o futuro; uma esperança frágil, precária. As condições específicas as nação, no momento da decisão, pareciam encorajar a presença missionária leiga que, de várias formas, poderia encontrar espaço de presença e trabalho. Desde o inicio, foram delineadas algumas características da nossa presença e trabalho. Desde o inicio foram delineadas algumas características da nossa presença no Camboja, que se traduzem na atenção que cada uma de nós deve ter quando chegar a hora de partir.

Eu sou de Santa Catarina, onde reside minha família. Minha vocação começou a ganhar forma quando me envolvi com a pastoral catequética e em seguida trabalhei com o jornal "Missão Jovem". Neste período, com encontros de animação missionária além- fronteira. Foi então que, com a ajuda de um padre do Pime, conheci a CML, ou melhor comecei a saber da sua existência. Foi este padre que entrou em contato com a CML, apresentando-me a elas.

A resposta ao meu pedido de ir à Itália para um período de experiência e de verificação da minha vocação foi positiva. Em fevereiro de 1996 fui para Londres para estudar inglês e em seguida parti para o Camboja, aonde cheguei em setembro de 2000 e onde permaneci aproximadamente por dois anos, como segunda etapa da formativa. No momento atual, estou estudando a língua local, o khmer, como preparação a uma inserção nesta cultura. Não é tão simples aprende-la: em alguns momentos, a vontade é de fechar os livros e não pensar em nada, mas a consolação vem quando alguém me diz alguma coisa e consigo entender ou quando consigo me comunicar.

No momento, não estou envolvida em nenhum projeto, porque este ano é dedicado exclusivamente ao estudo da língua e da cultura Khmer. Como voluntariado, uma vez por semana, ensino trabalhos manuais a algumas garotas. Quanto à minha família, confio nas palavras do Senhor Jesus: "Ninguém que tenha abandonado por amor do reino de Deus sua casa, seus pais, seus irmãos, que não recdeba cem vezes mais". O abandono para mim se transforma em ação de graças por saber e ter consciência de pertencer á grande família de Deus, único Pai, em que todos somos irmãos unidos pelo amor do mesmo Deus, que nos que em lugares diferentes, mas com um só pensamento: fazer a sua vontade.

Leigos e leigas

Há nove anos, surgiu a Associação Leigos Pime- ALP- nascida dos pedidos de muitos leigos que desejavam dedicar uma parte de sua vida para a missão e se dirigem ao Instituto, com o qual se sentem sintonizados na maneira de fazer missão e na espiritualidade.

O PIME acolhe homens e mulheres e também casais. Cada ano, os jovens e adultos que enfretam o caminho de aprofundamento da dimensão laical da missão além-fronteira são algumas centenas: eles se reúnem nas várias casas do Pime na Itália (por enquanto).

Entre eles, há os que decidem se dedicar ao serviço missionário por alguns anos e são preparados através de uma formação de base de dois anos, com encontros mensais num fim de semana e periódicos. As matérias fundamentais são: estudo da Bíblia, sociologia, antropologia, psicologia e línguas.

Em seguida, os candidatos passam um mês, no mínimo, na realidade missionária proposta pelos responsáveis, onde se pensa que irão prestar o serviço missionário. Esta fase serve para verificar a escolha na realidade concreta da vida missionária.
Enfim, os candidatos, voltando para sua pátria, completam a preparação com cursos específicos orientados è realidade e às exigências da missão para a qual são destinados.

O período de serviço é de três anos, no mínimo, que podem ser renovados. As modalidades são determinadas por um "acordo de compromisso missionário", assinado pelo leigo, pelo superior geral do PIME, o responsável da Região de missão e do projeto e, se for possível, pelo bispo local.

A seleção dos candidatos é séria e isso aparece no número dos leigos- relativamente reduzido- que efetivamente foram ou estão em missão além-fronteiras: atualmente estão em serviço 200 leigos e leigas; cerca e dez voltaram depois de três anos ou de cinco anos de missão. Eles atuam no Brasil, Guiné Bissau, República dos Camarões, Costa do Marfim e Tailândia.

Por enquanto, o peso financeiro maior é sustentado pelo Pime. Porém, é objetivo da ALP chegar ao autofinanciamento através de varias formas de ajuda. A Conferência Episcopal Italiana e algumas fundações já financiaram alguns projetos.

FAMÍLIA ENTRTE FAMÍLIA

Somos uma família de três pessoas: papai Aldo, mamãe Simone e, há um ano, nossa jóia, Joel, que preencheu nossa vida.

Estamos numa aldeia perdida na savana no Norte da Republica dos Camarões, chamada Zouzoui, a 40 quilômetros da cidade de Maroua, entre cabanas de barro com telhado de palha, campos de milho e algodão, animais de quintal e de criação, sem esquecer os verdadeiros protagonistas: os guizigá, com os corpos altos e esbeltos, pele escuríssima e lúcida.

Uma miríade de crianças barulhentas e super dinâmicas sobe em todo lugar com uma agilidade que parece superar a dos macacos. Pela primeira vez, este povo, pouco acostumado a sair da aldeia encontrou uma família de brancos, com a conduta diferente, por motivos óbvios, da dos padres da missão.

Depois de um mês de observação, estudo e conhecimento, Aldo começou a executar alguns trabalhos na missão e na aldeia, enquanto Simona procurou entender como se entrosar na promoção da mulher. Nasceram dois pequenos grupos de mulheres que trabalham juntas por uma necessidade comum, oferecendo, ao mesmo tempo, um serviço a sua aldeia: gestão do moinho, pequenas lojas para o comercio, trabalhos artesanatos local, etc. Atualmente, sua tarefa, além de ser mãe, é seguir esses grupos em reuniões, formação em contabilidade, gestão...

Criou-se também um pequeno banco rural com cadernetas de poupança, para incentivar o povo a conservar os pequenos lucros, para usa-los no momento de necessidade. Aldo agora se ocupa de uma marcenaria no que se refere às encomendas, ao fornecimento de madeira e à organização geral.

Um fato muito significativo na nossa experiência e que envolve muito o povo da aldeia foi o nascimento de Joel. A toda hora, eles vinham em "romaria" ver aquele ser tão bárbara (branco). Logo depois do nascimento, chamaram-no de zuzui ( o nome próprio da aldeia), que em quizigá significa "estar bem, estar em paz". ele se tornou sua "criança branca" e descobrimos, mais tarde, que o fato de dar a luz aqui na África foi para eles o sinal de uma grande confiança. As mulheres competiam entre si para carrega-la no colo ou amarrada na costas, como é costume aqui. Nos primeiros tempos, preparavam também a bauille (caldo de farinha de milho) para que a mãe produzisse mais leite.

Foi uma experiência única. Graças a Joel, fizemos a releitura do nosso estar aqui, de nossa presença, que não é tanto para fazer e sim para partilhar, "viver com". Embora o desnível das condições de vida seja muito grande e freqüentemente nos ponha em crise, procuramos, com toda a simplicidade possível, ser família entre as famílias, irmãos entre os irmãos. Percebemos que esta experiência está provocando uma grande mudança em nós mesmos e no nosso estilo de vida.

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