Revista "MUNDO e MISSÃO

Leigos

Do Quênia com amor

Dario Paladini

"Sorrir apesar de todas as dificuldades". Essa é a lição que o casal Nádia e João Todeschini aprenderam durante suas permanências como voluntários no Quênia. Atualmente voltaram para Itália, por causa do nascimento do filho, mas já planejam a volta

Os africano nos ensinaram a viver com os outros: a hospitalidade, a serenidade baseada na confiança em Deus, a paciência e o respeito aos outros. Os nossos mestres foram as mães abandonadas pelos maridos nas favelas de Nairobi, os jovens nubas vítimas da guerra, os meninos de rua e as pessoas que, apesar da extrema pobreza e precariedade, sempre têm um sorriso nos lábios".
Nádia e João Todeschini são um ca-sal jovem da cidade italiana de Lecco, que decidiu passar um período de sua vida no Quênia. Recentemente, voltaram à Itália, devido ao nascimento do filho, Luca Joshua. Logo que a criança permitir, voltarão para Nairobi, à comunidade Koinonia.
"Koinonia - conta o casal - é uma comunidade de leigos jovens e famílias, que se inspira na vida dos primeiros cristãos, assim como é descritas nos Atos dos Apóstolos. Na realidade pobre de Nairobi, os jovens trabalham e estudam durante o dia e, à tarde, se encontram para dividir tudo, desde a preparação da comida à limpeza, das alegrias às preocupações".
O fundador e diretor espiritual da Koinonia é Kizito Sesana, missionário comboniano. Ao longo dos anos, a comunidade deu vida a uma série de projetos entre os quais, um em favor dos meninos de rua.

Por que decidiram ir para o Quênia?

Nádia: É o resultado de uma caminhada que eu e João fizemos como casal. Há muito tempo, participávamos de um grupo de jovens na paróquia e, aos vinte anos, procurávamos um "compromisso" comum que nos entusiasmasse. Ficamos envolvidos com o grupo missionário paroquial e, em 1993, fomos visitar um amigo missionário no então Zaire. Em seguida, encontramos pe. Kizito e a comunidade Koinonia no Quênia. Encantados pelo estilo daqueles jovens, começamos a projetar com eles a nossa presença em Nairobi.

Como é a vida em Nairobi?
João: É uma comunidade com muitas atividades. Nós moramos numa casa, com mais duas famílias, no Kivuli Center que se ocupa dos meninos de rua, mas já se tornou um verdadeiro centro social para todo o bairro de Riruta, uma favela às margens do Kawangware, na periferia de Nairobi.
Nádia vive com as crianças, brinca com eles, trabalha como professora e os acompanha durante o dia. É fundamental para os pequenos encontrar alguém que demonstre amor por eles. Eu, com outros educadores, me interesso pelos meninos maiores, pela sua inserção na sociedade, quando terminarem o ciclo escolar. Além disso, colaboro com projetos em favor das populações nubas do Sudão.
O nosso objetivo, porém, nunca foi "fazer"; nós queremos ser uma presença fundamentada na partilha, na confrontação entre as nossas diferentes culturas à luz do Evangelho.

A Igreja italiana promoveu uma campanha para a redução da dívida externa dos países mais pobres. Qual a situação do Quênia?

João: O governo do Quênia não tem condições de prestar nenhum serviço gratuitamente; os fundos devem ser utilizados para pagar os bancos internacionais. No Kenyatta Hospital, o hospital público, não se encontra nada gratuito e é mais fácil adoecer lá que sarar. Os nossos meninos freqüentam as escolas públicas, porém pagas, e as mensalidades estão além das possibilidades da maioria das famílias.

Quais os aspectos da Igreja no Quênia que mais os impressionaram?

Nádia: É uma Igreja pobre de meios, mas ricas de idéias e muito disponível para atender o mundo em que está inserida. Os leigos têm um papel importante nas comunidades. Parece-nos que a parte mais fraca dessa Igreja esteja na formação do clero, estruturada sobre modelos pouco africanos, que chegam a tirar a pessoa das suas tradições.

João, você foi aos montes nubas no Sudão?

João: Eu vivi aquela viagem como uma romaria pessoal, jubilar. Conheci uma parte da África que, apesar das vicissitudes e acontecimentos históricos, ainda conservaram as tradições e culturas. Os nubas são amigáveis e cordiais por natureza. A hospitalidade é vivida numa dimensão dificilmente imaginável para um ocidental, mas a serenidade com que enfrentam a vida é o verdadeiro tesouro daquelas populações. Hábeis cultivadores, foram obrigados a recorrer às armas para se defender do genocídio promovido pelo governo integralista de Cartum. Os catequistas falam de prisões, torturas, escravidão, violência contra mulheres e crianças e muitas mortes. Nas palavras deles, porém, não se encontram ódio ou desejo de vingança; eles dizem apenas que foram obrigados a se defender, do contrário teriam sido aniquilados. Aí entendi o grande dom de uma paz justa.
No lugar que visitamos, não há missionários desde 1983, mas, graças à presença de alguns poucos catequistas formados naqueles anos, continua a propagação da Palavra.

Um dia vocês voltarão para a Itália?

Nadia: A felicidade pode ser uma boa medida para entender se as escolhas feitas respeitam o projeto de Deus. Em Kivuli, somos muito felizes. Logo que nossa criança puder entender, irá conosco para conhecer as crianças de Nairobi. Depois voltaremos para a Itália e tentaremos implantar aqui um pouco da África.
Revista Il Segno, da diocese de Milão

Para acessar a página de Kizito na internet: www.peacelinnk.it/afrinews.html

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