Revista "MUNDO e MISSÃO"

Missão Urbana

Missão urbana na Ásia

Giorgio Paleari

Cerca de trinta missionários vindos de vários países reuniram-se na cidade de Zamboanga del Sur, Filipinas, para tomar consciência e refletir sobre os novos desafios da evangelização no contexto urbano da Ásia.

A missão muda de rosto

A missão está mudando de rosto. É uma constatação que emerge com insistência nas reflexões dos agentes da missão além-fronteiras. Estão mudando os métodos e os contextos, porém, mais de que tudo, são os conteúdos que estão sendo re-focalizados. A inspiração permanece a mesma e está assentada no mandato de Jesus que convidou os seus discípulos a "ir e pregar o Evangelho até os confins da terra".
Antes, a missão tinha como objetivo a conversão dos "infiéis", termo que abrangia todas as pessoas que não eram cristãs. Mais tarde, o trabalho missionário concentrou-se na implantação das Igrejas (plantatio Ecclesiae), visando à expansão visível da comunidade cristã. Após o Concílio Vaticano II (1962-1965), com a insistência de que as Igrejas particulares são as primeiras responsáveis da evangelização, as forças missionárias entenderam que deviam especializar mais sua atuação, seja no campo das situações missionárias e de fronteira, seja na animação das comunidades cristãs para que se abram a uma dimensão universal. Tecnicamente, o termo usado para este segundo serviço é a "animação missionária".
Com relação aos contextos emergentes, o mundo urbano e as grandes cidades ficaram caracterizados como o maior desafio da missão. Tradicionalmente, os missionários percorriam o caminho das periferias geográficas e culturais. O mundo rural e as culturas tradicionais eram o campo privilegiado da ação missionária. Hoje, por causa das migrações e do êxodo rural, são as cidades que se apresentam como o âmbito privilegiado da missão.

Novas formas de vida comunitária

As cidades são marcadas pela fragmentação das identidades e das visões de mundo. O anonimato e a desestruturação das tradicionais formas comunitárias tornam as pessoas anônimas. O individualismo caracteriza o morador da cidade. As relações primárias são substituídas por relações funcionais. Um depende do outro em tudo, mas não estabelece relacionamentos significativos. Não obstante estas constatações, há uma busca do comunitário não tradicional. Há um desejo de encontrar-se com o outro que parece tão distante e, mais de que tudo, de clarear certa identidade.
É nestas encruzilhadas que a missão pode contribuir para fazer nascer respostas comunitárias à fragmentação. A experiência cristã atribui à vida comunitária um papel fundamental para despertar, amadurecer e crescer na fé. Cabe aos missionários promover a renovação da Igreja para que ajude a construir relações significativas e forme comunidades de vida que reforcem o sentido das pessoas.
No entanto, por causa de diferentes exigências e da ruptura do comunitarismo tradicional, há uma necessidade de diversificar as formas de presença. Na formação das pequenas comunidades, deve-se dar conta dos grupos humanos não estreitamente ligados aos âmbitos geográficos: os jovens, os trabalhadores, os idosos, os meninos de rua, as mulheres, os profissionais liberais, etc. Em alguns casos, trata-se de grupos de interesses, noutros, de setores marginalizados em busca de identidade e de sobrevivência. Não é o método da evangelização que cria estes grupos, mas a imposição que vem da diferente estratificação da vida urbana. Tomemos, por exemplo, o caso dos jovens. De um lado, a procura de novas formas de comunicação e de agregação faz com que os jovens das classes mais altas busquem encontrar-se ou isolar-se mais ainda com o uso dos computadores; do outro, os jovens das classes populares organizam-se em bandos e em agremiações que, muitas vezes, mergulham na violência e no protesto social. Como responder às diferentes exigências e à busca de sentido?

Viver a fé nas cidades

Algumas perguntas acompanharam o desenvolvimento do seminário e foram insistentes diante da dinâmica do contexto urbano. A fé em Jesus Cristo é ainda relevante para o mundo da cidade e para seus moradores? Como a pessoa de Jesus pode ser significativa para a pessoa que vive na cidade? Será que a linguagem e os conteúdos da mensagem que se quer transmitir têm ainda um significado para a realidade urbana? Como captar melhor as exigências das pessoas, os anseios e as perguntas sobre o sentido da vida e a busca de significados? É a proposta cristã uma resposta a estas perguntas?
Evidentemente, estes questionamentos e muitos outros chamam a atenção sobre o fato de que a cidade secular exi-ge uma nova linguagem para comunicar a experiência cristã e, mais ainda, aponta para a necessidade de uma nova interpretação da mensagem religiosa. No ocidente, desde os anos 60, o fenômeno da secularização insistiu sobre a relevância destas questões e parece que, ainda hoje, a urbanização continua desafiando a linguagem religiosa. Após vinte ou trinta anos, a mentalidade urbana está espalhada nos diferentes continentes e continua desafiando a linguagem religiosa em nível de sentido. A novidade não está tanto nas questões que são formuladas, mas na persistência das perguntas sobre o sentido. As cidades da Ásia, de certa maneira, refletem e repropõem as perguntas da pessoa secularizada.
Todas estas questões mostram um contexto que não é mais caracterizado por identidades estáveis e visões de mundo compactas. Pressupõe-se uma diversificação que suscita exigências e buscas heterogêneas.
Do ponto de vista da missão, por parte das Igrejas e das forças missionárias, a questão reflete-se nos métodos e nos conteúdos. Como tornar a mensagem de Jesus significativa e como torná-la uma proposta para o "ser urbano"?
Não foram dadas respostas exaustivas durante o seminário, mas foram levantadas questões às quais a missão urbana, gradualmente, deverá responder. Muitas vezes, é necessário descobrir as perguntas relevantes e pertinentes que ajudem a centrar a temática. Certamente, o missionário deve estar na linha de frente para abrir caminhos diante dos grandes desafios urbanos.
Também as realidades da exclusão e da marginalização que são mais visíveis e concentradas na grande cidade emergem como desafios para a fé. Enquanto Hong Kong e o Japão não apresentam visivelmente bolsões de miséria social em grande escala e a presença eclesial concentra-se na resposta à busca do sentido das pessoas; Bancoc, Daca e Manila são desafiadas pelas assim chamadas "slum areas" (favelas), onde a luta pela vida e pela dignidade humana são mais visíveis. As grandes cidades da Ásia concentram em seu espaço, no centro ou na periferia, redutos de pobres e miseráveis que buscam a sobrevivência.
Formas extremas de exclusão social chamam em causa a proposta evangélica e seu apelo para uma vida mais hu-mana. A pobreza, a exclusão, as migrações forçadas (acredita-se que 8 milhões de filipinos tenham emigrado para outras terras) e os meninos de rua representam uma exigência de vida para a proposta missionária. Como tornar a proposta evangélica significativa para fazer acontecer a vida em todos os sentidos?
O mundo urbano, portanto, levanta algumas questões precisas à missão. São perguntas de sentido e também são clamores para uma vida mais digna e humana. Os desafios das cidades da Ásia exigem novas respostas evangélicas seja na área do significado da vida, seja no horizonte de uma maior compromisso com a vida e a justiça.

O diálogo inter-religioso

As cidades da Ásia que clamam por uma nova presença missionária, em resposta aos anseios existenciais e aos gritos de muitos miseráveis, levantam também questões peculiares do ponto de vis-ta do diálogo inter-religioso. Com exceção das Filipinas, o cristianismo é minoritário na Ásia. Mesmo que em al-guns casos a presença marcante da Igreja supere sua pouca representação numérica, em geral, as cidades da Ásia revelam o rosto diferenciado de uma presença numerosa de religiões e de novos movimentos religiosos cuja matriz é sempre o mundo das grandes religiões. A missão na Ásia não pode ser feita se não a partir do diálogo inter-religioso.
A evangelização nas cidades asiáticas deve ser centrada na relação "anúncio-diálogo". Os dois termos não são intercambiáveis e, no entanto, definem trilhas para a presença missionária nos grandes centros urbanos.

Caminhos diferentes e complementares

Junto com a diversificação dos tipos de comunidades, há a necessidade de diversificar os tipos de presença e os métodos de evangelização. Pode-se priorizar o anúncio explícito ou o serviço aos mais pobres, ou ainda, o diálogo inter-religioso. Pode ser que o testemunho silencioso represente o caminho possível, ou talvez seja melhor o compromisso profético de denúncia. Todos estes aspectos, em vez de se contraporem, tornam-se elementos complementares no arco da prática evangelizadora. Todos, de certa maneira, estão relacionados à proclamação do Evangelho, destacando uma atenção especial aos contextos e às situações específicas (cf. Evangelii Nuntiandi).
A cidade, portanto, exige, em sua complexidade, uma variedade de presença de vida comunitária e, contemporaneamente, apresenta um variado arco de métodos de evangelização. A questão da missão urbana aponta, em sua complexidade, para a diversificação. Não há mais um único método e nem um único caminho a ser percorrido. A diversidade está no bojo das respostas evangelizadoras. Um dado, no entanto, que deve ser caracterizado é que todos os elementos que formam a diversidade não estão opostos uns aos outros, mas, dependendo do específico contexto, apresentam-se complementares e é assim que devem ser considerados. A cidade é o lugar em que a di-versidade emerge e a complexidade se afirma. O continente asiático e suas cidades clamam para uma diversificação de presenças evangelizadoras.

A presença dos cristãos leigos

Diante da complexidade das cidades, uma atenção particular deve ser dada ao processo de formação dos cristãos leigos. Os âmbitos de formação continuam sendo as escolas (como em Hong Kong) ou a formação específica nas diferentes comunidades. Nestas últimas, a Palavra de Deus é a base para uma experiência e um crescimento da fé. A mesma Palavra, no entanto, deve ser vivenciada e aprofundada no verdadeiro sentido da tradição eclesial.
Propriamente por causa da complexidade do contexto urbano, a presença dos cristãos leigos pode fermentar, desde dentro, todos os âmbitos dos grupos e do mundo urbano. A missão do terceiro milênio exige um protagonismo maior das forças leigas.
Em síntese, qual serão os caminhos concretos da "missão urbana" na Ásia? Não é suficiente vislumbrar horizontes e trilhas. O percurso deverá ser mais detalhado. O importante é perceber, no entanto, que a missão urbana apresenta desafios ingentes à missão.

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